Poesia militante

Anotou rápido num papel com caneta emprestada de outro que precisava escrever uma música em inglês que nem Os Mutantes naquela versão da música do Caê “Baby” em que eles diziam que “você tem que aprender inglês” em inglês e por causa disso virava “você precisa aprender português” mais ou menos “it’s time now to learn portuguese”. Metido que era, fez. Arrependeu-se.

Six degrees

I look through — don’t mind the bollocks, what a cliché!
I look through (insistently) – and beyond,
where there’s nothing but a beer from Cochabamba,
a butter flies out, incredibly,
milkly above the Milk Way.
Unreal.
Surreal-Dalí.
Clearly they want to steal (stolen) my mind.
In case of “freeze-or-I’ll-shoot”-“life-and(or?)-death” manners,
don’t think: feel the breeze.
Let it flow/blow/grow
show yourself! Out of the room!
Surrender to the spirit of NOT-freedom. Vote for NOT. (Always)
(And alone came the spider…)
Neologism. Cage of neologism. Life-taker bird.
Pure disaster. Delight of Destruction (sorry, Gaiman).
Precious loving true hearts. Both of them.
Both of us. (What a cliché.)
I look for nothing.
Yet…

E não conseguiu pens–

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Published in: on 29 de maio de 2009 at 02:14  Comments (6)  

Da série “Estudo sobre as ninfas” I – Sátiro

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Ninfas e Sátiro (1873)

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Ninfas e Sátiro (1873)

Ninfa deriva do grego nimphe, que significa “noiva”, “velado”, “botão de rosa”, dentre muitos outros significados. As ninfas são espíritos, geralmente alados, habitantes dos lagos e riachos, bosques, florestas, prados e montanhas. Na mitologia grega, ninfas são qualquer membro de uma grande categoria de deusa-espíritos naturais femininos, às vezes ligados a um local ou objeto particular. Muitas vezes, ninfas compõem o aspecto de variados deuses e deusas, ver também a genealogia dos deuses gregos. São frequentemente alvo da luxúria dos sátiros. São a personificação da graça criativa e fecundadora na natureza. São frequentemente alvo da luxúria dos sátiros.

(Fonte: Wikipédia)

Até que fechou os olhos e não viu mais nada.

Não viu o quadro mitológico do hotel barato. Não viu a noite desmedida, não viu o dia que amanhecia em cores soltas despregadas no dia seguinte, não viu que o Labirinto de Borges não estava lá nunca mais.

Não viu porque preferiu que não.

Noite passada, muito escuro, quarto escuro. Medo, aflição. Uma peça, um copo de vinho, uma desmesura total ao que era pra acontecer. O hálito virgem, embriagado, soprava fundo uma melodia em dissonância. Ele se desapontava consigo próprio; ela, com o que não criava. Entregaram-se a limpo, em longas fases de melancolia sexual numa noite tensa.

Não tinham nome, não importava, não precisava. Eles se pertenciam ali. O perfume dela lembrava lugares distantes, compunha seu exotismo: almíscar, rosa, musque, néctar de margarida. Não era uma mulher qualquer: era uma ninfa. Servia ao Sátiro (que era ele) bebida e provocações. Bebia dele os prazeres de carne e sangue. Ele, já, prometia que tudo que era seu era dela também. E os dois se entregavam ao falso gozo da mentira, ao prazer extático do corpo. Estase.

Ela movia-se calmamente, sua respiração subindo e descendo ritmada, descobrindo-se alvo de sua incompreensão. Ele estava calado. Prestava atenção à sua própria concupiscência ou sentia-se envolver pela grandiloqüência do orgasmo?

Não tinha importância. Importava que ela soubesse de sua parte no grande plano das coisas. Sonho, desespero, qual a diferença de um para outro? O que transforma desejo em inconclusão é aquilo que conduz o sadismo do homem ao Inominável. Muda desejo em vontade. Vontade em forma física. Forma em expansão.

Os dedos dele se envolveram em torno do pescoço dela. Ela se contorcia devagar, numa dança de erotismo exótica e luxuriante. Ele sabia o que devia ser feito, e cumpria seu papel elegante. Ela não deixava por menos: fazia do corpo o sacrifício a Baco, a entrega ao minotauro.

Ele, o Sátiro, via desvanecer o hálito. Ela, a ninfa, via-se subir aos campos elíseos para deleitar o corpo do homem-deus.

Até que fechou os olhos e não viu mais nada.

Published in: on 20 de maio de 2009 at 22:50  Comments (3)  

Trava-Língua

Escrevo hoje em pálavi pra mudar o gosto. É isso aí mesmo: a profanação do estro. Sesgo total. Sem olhar para os sirtes, porque o caminho tá limpo, ou para qualquer acídia que me apresentem – por favor, meus caros, sem essa. Não me venham com licornes porque ninguém aqui é mais dessa de virgindade e castidade. Já somos grandinhos para decifrar as diferenças entre as miosótis e as bétulas, embora as duas se construam sob intenso frio – “mas a primeira é flor e a segunda, árvore, viçosa e não-azul, zé, então nem me venha com essa lenga-lenga de botequim”. Certo. Então vamos pra fora do lugar-comum.

Cheio de ambrosia, o fino é sentar a pua e deleitar a escrita – e não “deitar a escrita”, como querem crer os rofos embolorados da ABL. Deitar é uma coisa sem-graça pra escrita. Que nem mandar uma nação ficar “deitada em berço esplêndido”. Sem nolição, que tédio. Temos é que criar uma assíntota bem estruturada pra língua, sempre sempre na tangência abismal ao infinito. Sacudir os ergástulos malfadados do Portuga com iperita. Gás mostarda na veia da língua – se é que língua tem veia. Derrubar os toris que nos aproximam da xenofobia com tedas breadas e, mesmo com essa caterva toda, ainda incendiar o chaparral da fala – isso é o que há. E, se der, ainda oberar o que sobrar da chatice com unzinho por baixo do pano, pra que ninguém fique desolado e – vá lá – busque sua ascese nem que seja monetariamente. Com um bom pífaro pra acompanhar, obviamente, porque classe é classe. Sejamos lhanos: ninguém vai assalar o barco com uma incude gigante, né?! Pois Destruição completa, sim; mas não à socapa, numa soez banditista sem-graça. Sem arengas: vamos pela via pura e erótica da cacofonia da Língua Brasileira.

Published in: on 11 de maio de 2009 at 00:18  Comments (6)  

Prenúncio de uma morte crônica (ou A vida não faz mesmo muito sentido)

Ele entrou pela porta e prostou-se onde deveria. Em cima da mesa. Ao alcance da vista de todos.

Na verdade, fora prostrado lá. Não desejava participar daquilo – ou desejava secretamente, num masoquismo impressionante, já que “aquilo” deveria significar o fim de sua própria espécie. E secretamente, talvez, comemorasse sua extinção, num sadismo mecânico de sua laia. A vida inteira fora preparado para aquilo.

Alguém pegou o sal, o limão e três taças. Estava decretado. Aquele seria o fim de José Cuervo.

Published in: on 5 de maio de 2009 at 00:49  Comments (3)