Uma ou duas coisas sobre cantadas


“Mais duas, Patrão?”
“Pode descer, pode descer. Mas me explica aí aquela história de novo. Como é que é? O negócio de ser atraente…”
“Mas lá vem você de nov–”
“Não, sério, vai lá. Eu quero saber do que que um cara precisa pra ser atraente. Me dá aí umas dicas.”
“Dicas, dicas. Você não precisa de nada disso. Olha só, em primeiro lugar, o cara precisa ser divertido. Depois…”
“Não, não, peraí. Eu preciso anotar isso direitinho. Garçom!”
“Fala, Patrão!”
“Uma caneta, por favor. Tem aí?”
“Peraí que arranjo pro senhor rapidinho.”
“Que vergonha! Não acredito que tá fazendo isso.”
“Isso o quê? Preciso anotar, ué. Brigado, Renato. Isso tá escrevendo, né?”
“Ô, e eu ia arrumar uma caneta que não escreve pro Patrão?”
“Ai, vergonha, vergonha eterna…”
“Ahn, primeiro, é preciso ser divertido. Di…veeeeer… ti–”
“Ei, você não tá escrevendo isso aí. O que que você tá escrevendo?”
“Pô, só tou te interpretando.”
“Até demais. Eu não disse que é preciso ser palhaço de circo. Ser divertido não é ser palhaço de circo.”
“Continua, vai. Além de divertido, o que o homem tem que ser?”
“Inteligente. Claro, inteligente. Não adianta que eu não saio com mulas. Tem que saber falar, sabe? Tem que conhecer Os Mutantes…”
“Hm. In-for-ma-ção-pre-vi-le-gi-a-da.”
“Ei. Inteligência não é inf–… E, burro, é prIvilégio, com i, não prEvilégio…”
“Não brinca. Eu tou demais hoje. Ironia pura.”
“Tô vendo. Ô!”
“Mas segue, segue. Que mais?”
“Ah, se vai ficar deturpando, vou ficar quieta.”
“Não, não. Vai, pode continuar que não interrompo. Mas se você nem falar em dinheiro, eu vou embora daqui.”
“Heh! É, estabilidade financeira também é bom, né?”
“Sei. G-r-a-n-a.”
“Chopinho aí, Patrão?”
“Desce mais dois, pótrazer.”
“Ei, não é que tem que ter grana. Mas, poxa, não quero ouvir o cara reclamar que não pode tomar um chope comigo. Isso não. E, porra, não custa nada me levar em casa…”
“Aham, saquei.”
“Isso, risca grana. Não é só grana.”
“MUI-TA-g-r-a-n-a.”
“Palhaço. Agora, também tem que estar bem vestido. Ele não precisa ser um galã, não. Mas, pô, custa nada aparecer cheirosinho, bem vestido. Nada muito formal pro barzinho nem rastafári demais pro baile de debutante da minha irmã.”
“Hm. Entendi. Com dinheiro, o cara pode ser até feio. A-r-r-u-m-a-d-i-n-h-o.”
“Ai, como você me irrita. Adora botar defeito em tudo.”
“Blábláblá. Diz aí, que mais?”
“Ah! Um sorriso. Um sorriso bonito, claro. Sincero e bonito.”
“Não-usar-a-pa-re-lho.”
“Ah, chega. Não te agüento mais.”
“Não, sério. Acho que já entendi. Um cara, pra ficar com você, precisa ser um palhaço de circo, com informação privilegiada, muito, mas muito dinheiro, mesmo que seja um feio arrumado, e, além de tudo, não usar aparelho. Se for só isso, ok, perdi minhas chances.”
“Ah, tem uma coisa também.”
“Fala.”
“Ah, não.”
“Ah, mas se chegou até aqui e é a última coisa…”
“Tá, tá. Precisa beijar bem também. E ser bom de cama. CLARO que tem que ser bom de cama.”
“A-t-é-q-u-e-n-f-i-m.”
“Mais dois, né, Patrão?”
“Que nada, Renato. Fechaconta. Na minha casa ou na sua?”

Published in: on 27 de agosto de 2009 at 22:24  Comments (5)  

Do tipo foi mal

…tou te falando! Não sabia que ia pesar tanto. Quer dizer, que que tinha lá dentro? Umas frutas, verduras. Verdade, pô! Sei lá, acho que tinha carne também. Isso, tinha carne, tinha filé de frango. Aliás, filé de frango e peito de frango, porque eu sabia que queriam fazer filé, tinha ouvido aí, só que na lista só tinha assim: “peito de frango”, aí não sabia o que comprar, né?, e comprei os dois, peito de frango e filé de frango. E comprei carne moída também. O cara mó comédia, fui comprar carne moída e ele perguntou “carne de primeira ou de segunda?”, hahahaha, morri de rir. Pô, que fanfarrão, achando que eu ia comprar carne de segunda lá pra casa. Me matam. Mas voltando, tinha carne que pesava à beça. Verdura até que não pesava, não, só umas abobrinhas e umas berinjelas, mas até aí tranquilo. O problema era as frutas. Pô era tudo fruta que pesava. Tinha melancia, abacaxi. Abacaxi além de pesar espeta. E do jeito que eu tava cheio de sacola do mercado, não deu outra, veio me picando a perna o tempo todo aquele saco de abacaxi. Olha, eu sei que era de um peso hercúleo. Sério, hercúleo mesmo. Podia pedir pra entregar, mas como não sou eu que sei o que que precisa levar, né?, tipo o que que é mais importante e tal, achei melhor levar no muque. Peguei um peso de cada lado, pá e pá, botei as sacolas assim nos braços, coloquei mais peso no braço direito, que é mais forte, não sou canhoto, pô, tou mais acostumado com o braço direito, aí vim vindo. Hercúleo, já te disse? Um peso hercúleo. Peso ou força? Sei lá, dá no mesmo. Sei que vim carregando, pô, pesado pa-ca-cete, aquele monte de sacola do mercado. Levantei o braço esquerdo pra trás das costas. Mó comédia, tava vendo meu cotovelo na altura do olho, só o cotovelo, e fiquei pensando o que devia ser viver sem braço. Não, isso não é a comédia, a comédia foi ver meu cotovelo na altura do olho, só o cotovelo, já me imaginei com aqueles bracinhos curtos, lembrei do tio-Roy-braços-curtos da Família Dinossauro, morri de rir. Aí pensei que não deve ser engraçado ter braços curtos, ou braços pela metade, aí as compras pesaram mais e parei de rir, que sem graça, peso hercúleo. Sei que tive que puxar o braço direito assim pra cima também, pra trás das costas, UUUAARRGHH!, mó força que fiz, quase peidei. Sério, ri não, quase peidei. Hercúleo. Aí fui levando até não dar mais. Parei um pouquinho, descansei, pus nas costas de novo e pow, fui levando. Caraca, mu…ito peso. Só sei que teve uma hora que não deu pra levar mais assim por cima, foi no momento que fiquei pensando quanto devia valer a Normal assim naquelas sacolas, tá ligado?, e devia valer muito, porque minhas mãos só ficaram segurando as sacolas assim, tipo que segurando a gravidade, entendeu? Pá, os braços ali, segurando aquele peso. Aquilo já não era hercúleo, era atlântico. Peraí, o que vem de Atlas é atlântico? Ah, sei lá. Eu tava carregando um mundo. Ainda tive que ir desviando de umas lamas no caminho, sabe como é, choveu ontem pa-ca-cete. Aí vim vindo e tal. Consegui chegar lá em casa, com aquele peso todo. Toquei o interfone, que eu tava sem chave e o porteiro não tava lá. Pô, acredita que assim que cheguei, quase tudo certo, um passarinho cagou na minha cabeça? Pô, no FINALZINHO? Aí achei sacanagem.

– Mas rapaz, te perguntei da redação. Cadê teu texto sobre mitologia?

– Pois é, fessor, aí é que tá. Não tou te dizendo? Esqueci.

Published in: on 14 de agosto de 2009 at 13:24  Comments (4)