Sobre a obra de Picasso

 

A Garota no Espelho tinha pernas fortes, cabelos grandes, barriga bonita e mãos que se confundiam com sua imagem. A Garota no Espelho não sabia nunca se era dia ou noite, se fazia sol ou chovia, se era Copa ou Carnaval. A Garota no Espelho gostava de Alice, aquela do País das Maravilhas. Mas não gostava de mais nada, porque desaprendeu tudo da última vez.

Um dia eu encontrei a Garota no Espelho e perguntei a ela se ela tinha telefone. Mostrei a ela as estrelas, disse qual era qual, tirei onda, fi-la descobrir As Três Marias, o Cruzeiro do Sul, apontei Vênus. Ela achava tudo muito bonito, mas via postes de luz no lugar da luz das estrelas bonitas.

Mas eu gostava dela.

Tentei várias vezes mostrar que “postes de luz não são estrelas, meu anjo”, e ela continuava a me chamar de Nelson Rodrigues e ainda enxergava postes de luz. Mas eu gostava dela.

Até o dia em que ela desistiu de enxergar postes ou estrelas. Entrou no Mundo de Alice. Atravessou o Espelho. Nem me deixou um bilhete dizendo se volta.

Só ficou comigo a incerteza e a certeza de que postes de luz, às vezes, podem ser estrelas tristes…

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Published in: on 29 de abril de 2009 at 21:43  Comments (6)  

Longa noite no aeroporto (ouvindo ‘The Fallen’, do Franz Ferdinand, no disco ‘You Could Have Done It So Much Better’)

            A cena era boçal.

            “A máquina de doces é minha amiga”, sussurrava, enquanto esperava o chocolate.

            Pegara o último trem para Orly porque o voo sairia cedo. Ou era o que dizia. Na verdade, gastara o dinheiro da última noite com bebedeiras sensacionais, por que não?, e aportou no aeroporto de mala e cuia. Mas só mala e cuia. Sem um puto.

            No balcão de informações, o francês falou-lhe em inglês que tudo bem, ele poderia passar a noite ali, desde que o bonitão se comportasse. Ele só falava espanhol, não entendeu porra nenhuma e resolveu sorrir sem graça para a piscadela marota do funcionário-viagra.

            Não houve outras investidas, a despeito de curiosidades.

            Vasculhou a mochila, mas só tinha o Hemingway, que roubara na livraria em Paris (“pra não perder o costume”). Também não lia francês. “Merde!” Entediado, partiu a demarcar o território aeroportuário.

            Entrou na administração, vazia já àquela hora, como o resto, mas as portas internas estavam trancadas. Lá dentro, pela porta de vidro, viu só a tia da limpeza. Aliás, a tia da limpeza parecia-se com uma outra, essa tia mesmo, portuguesa, gorda e com bigodes latejantes. Ele prometeu a si mesmo não troçar da mulher. Não falava francês.

            Correu ao banheiro. Ah, aquilo sim era respirar a liberté francesa. Todo o mármore, todo o espelho, todos os mictórios escritos Valadares eram dele. Sentiu-se indomável. Arrancou a roupa (mas arrancou mesmo, de rasgá-la em pedaços) para demonstrar poder.

Permitiu o delírio de Amsterdã chegar mais tarde começou a dançar uma dança esquisita repleta de gritos tribais. Alto. Deixando toda a barriga agitar-se livre, tirou a cueca (por fim, o que sobrara) e rodou-a por sobre a cabeça. “Liberdade! Liberdade!” Indisciplina pura, deixou-se balançar à vontade. This fire is outta control…

A tia da limpeza não entrou, apesar do bigode, mas chamou seu comparsa-da-vassoura para investigar os ruídos misteriosos do aeroporto vazio. O homem, de bigode menos farto que o da mulher, não se furtou o espanto. Mas quando o nu avançou descontrolado, fingindo demência – JE SUIS NAPOLEON BONAPARTE! –, saiu assustado gritando Jesus Maria e José, e disse para a mulher-barbada que era caso de internação.

Voltou a vestir a calça e fingiu que nem era com ele. Calçou as luvas, encapuzou-se, e saiu como novo do outro lado, diante dos bigodes assustados. “Cada louco por aí”, disse em português mesmo, e virou a esquina.

Os funcionários entreolharam-se, sacudiram-se, fizeram duas preces e saíram de fino.

Quando deu fome, achou doces. Ali estavam as maravilhas do mundo moderno, sim senhor. Quem liga para a diabete se se pode viver num mundo de máquinas chocolates? Como se ligasse o fuck up, sacou da carteira os últimos centavos para uma delícia de… qual o número dessa zica mesmo?

Cuidadosamente, aplicou o primeiro euro. Gostosura de som, moeda tilintando por toda a máquina, descendo até… mas que porra. Travou. Uma batida fraca, seguida de duas mais fortes e uma outra realmente potente mostraram-se ineficientes. “Vá lá, jogo uma segunda e a gravidade age pelo resto.” Gostosura de som, moeda tilint. Os clins tornaram-se clec e mais nada.

Gritou e sacudiu e balançou e o diabo, mas nem mais um clin que fosse.

Os bigodes gozavam a cada nova investida. Aquilo já era pessoal. Ele, por sua vez, não desistia. Malditos franceses que nem faziam máquinas direito.

A cena abre de um superclose a um plano geral. Revela um campo, ele, a máquina, e os dois soldados de bigodes estranhos.

“A máquina de doces é minha amiga.”

Não era. E ele era piromaníaco.

Difícil mesmo foi explicar isso tudo a Robespierre depois. O ano era 1795.

Published in: on 11 de abril de 2009 at 00:13  Comments (3)