Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: I – Ossos

Fascinado por música como qualquer imbecil, resolvo que cada uma tem seu sentido implícito, desconhecido, que necessita ser escavado, desencravado como unha ruim. Fascinado por tetralogias, resolvo que algumas músicas têm mais sentido se juntas. Então, percebo que o álbum da Joss Stone (Mind, body and soul) está para a música de The Killers (Bones) assim como o verde está para o amarelo. Dá-se origem ao que segue. Carne, vida, mente, ossos. Início, meio, meio, fim. Nessa (des)ordem. (NOT!)

Eu não sei, ela disse, inocente. Eu não sei, indiferente. E taxativa: eu não sei.

Negou Jesus por três vezes, huh?, eu retruquei, meio que de lado de boca, enquanto ela – como? – me perguntava direta. Comoéqueé?

Nada, foi o que eu repliquei. Nada não.

Agora fala, não falo, fala, ok eu falo não me interrompa você é nova demais pra isso ficar me interrompendo assim não conhece a autoridade não, não.

Silêncio sepulcral. Por um minuto.

Ok comece, ok começo. Ela tímida: É uma estrada sem saída (We took a back road / we’re gonna look at the stars / we took a back road in my car). Eu atabalhoado.

Eu. Queria dizer muita coisa. Não pergunta como chegamos nisso. Não pergunta nada. Não convém saber o que não se pode (saber). Não convém buscar respostas. Eu nem tenho uma pergunta, você sabe. Eu tinha muito a falar. Mas, merda, a garganta é seca. Você me fala em autoajuda e eu, em redenção. Você discute a madrugada. Eu vivo em dias, afoito em dias. Você me diz quer-ser e eu hein? A gente nem é uma coisa. Nem é um algo. A gente não é nada disso que você pensa, se é que você pensa em alguma coisa. Eu ouço música indie e você se pergunta que tipo de música índio ouve. Você enfia pop goela abaixo e se sente feliz. Feliz, entende? Calaboca quinda não terminei. Eu não te acho inocente assim. Te acho esperta, mais que eu que sou velho. Isso porque sei que meu destino está selado desde o início, tristeza adentro. Cabe a você entender e aceitar. É que me sinto como num mar agitado, vindo onda forte atrás de onda forte, tomando caixotes um por um. Você é a onda. E eu estou completamente apaixonado por você.

A última frase saiu rápida. Mortal. Ele não esperava que saísse. Ela esperou a vida toda para não ouvi-la. Ele não queria complicação. Ela não queria complicação. A cinematic vision ensued like the holiest dream and someone called it: an angel whispers my name, but the message relayed is the same – wait ‘til tomorrow, you’ll be fine (but it’s gone to the dogs in my mind). Por isso, ela tirou o ridículo da situação:

*REFRÃO*

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Published in: on 21 de novembro de 2009 at 22:45  Comments (4)  

Para o Maestro que desconheço:

que exale poesia! que exale poesia! crisalis poesia!
enxame poesia
inflame poesia
(infame poesia)
reclame poesia
reclame-poesia
in dubio pro-esia
Esia. Esia. Rasante.

(Para Cecília Meirelles)

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Olhos castanhos. Cabelos sobre-enrolados. Um relógio no pulso – digital. E ela destoava.

Mochila no colo. Não era capaz de pegar uma cadeira para apoiá-la? Garçom… Dedo na boca, roía roía roía a roupa do rei de Rima. Eu, de uma vontade incontrolável de fazer poesia com seus braços. Ela, sem qualquer vontade de ouvir uma linha. Imagino o perfume. Imagina; rosto de menina.

Pernas tortas, tímida. Nos violões à frente, cheiro de harmônicas. Sinestesia danada de formas. Ela, atrás, pernas tortas, tímidas.

No fim que (me permito) nos concebo, nada além de luzes apagadas e bocas braços braças de embaços. Arrepios. Pequenos sustos de onde viemos parar, meu Deus. Dois dedos de afastamento. Adeus.

Bonita história de amor provinciana.

Desatei a fazer poesia que não sabia.

Published in: on 8 de novembro de 2009 at 03:21  Comments (2)