As mulheres que já amei pra sempre I – A que gostava da Nico mas não do Lou

 

 

Here she comes, you better watch your step…


“É. Christa Päffgen. Não digo o contrário.”

“Cara, tou me metendo de birra, o papo não é meu e tá um barulho infernal aqui dentro, mas você não pode estar séria.”

Ela estava. Tinha sardas na pele branca. Loira de fios revoltosos. Ela me lembrava uma tarde lusco-fusco num parque de diversões. Com sorvete. Refletia no sorriso o que era, certo-como-dois-e-dois, os olhos mais bonitos. Muito rímel e lápis. Pretos. Atrás da pupila, uma retina branca branca, de realçar. Franja. E os olhos pretos de novo.

Foi o caminho que percorri até a boca.

“Esquece a banana do Warhol. Esquece tudo. Eles não existiriam sem Femme Fatale.”

Eu não discordava nem discordava. Balançava a cabeça e ria. Femme Fatale.

 

 

She’s going to break your heart in two, it’s true…

 

 

“Era uma profecia…”

Ela me disse isso depois de uma noite dessas que me pareciam comuns. Apertou um cigarro. Olhos pretos fixos no teto. Ventilador que girava sem função.

“Que profec–“

“Shh! Era uma profecia.”

Acho que bateu. Eu (ela) me interrompia pra se deixar levar. Eu a ouvia. Sempre fui de ouvir. A ela principalmente.

Pedi desculpa. Devia ser, eu disse sem nenhuma implicância e com algum interesse. Deve ser.

“Você duvida?”

“Não. Não duvido.”

“Ahn.” Tragou fundo. Soltou o peito lentamente, deixando-se arfar com a saída da fumaça e a entrada de ar. Era bonita.

Pegou de um caderno. “Você é o número 37. Três é o número terreno pros hindus. Quatro é o número sagrado. Sete é a soma dos dois. Você é terra.”

Isso faz de você divina. Era o que eu queria ter dito. Mas talvez não fizesse diferença.

 

 

It’s not hard to realize, just look into her false colored eyes…

 

 

“Mas não é do nada. É que não é mais.”

Eu olhava. Eram os mesmos olhos, não eram mais, eram de novo. “Só me diz que seu nome é Alice, por favor. Alice Ayres.”

Tomou meu rosto entre as mãos. Não sei se eram delas ou minhas, as lágrimas.

“Não. Não, não. Nada de disfarces pra você. Meu querido. Meu querido.”

Não me deixou perguntar por quê. Porque sim, porque preciso. Porque é.”

Mas isso tudo é um disfarce… Pra você é um disfarce. Eu que tragava o cigarro agora. Engolia fumaça. Engolia saliva.

“Você se disfarçou em mim, senhorita Jones…”

Só deu tempo de pegar seu telefone. A porta bateu em seguida.

 

She builds you up to just put you down, what a clown

 

Recebi uma mensagem no celular noite dessas, no bar.

“Watch out, the world’s behind you; there’s always someone around you who will call…”

Olhei pra trás instintivamente. Os cabelos eram pretos. Mas posso estar enganado.

Levantei pra dizer oi. Nunca sozinha. Em pé na varanda. Na mesa vazia mais ao lado, dois copos, duas bolsas.

“Você nunca foi muito do Lou.”

Fumava. Estava mais magra. Mas de novo posso estar enganado.

“Sozinha?”

“Não, não. Só fumando um cigarro. Alice foi ao banheiro.”

Alice?

Alice…

“Eu poderia rir de tudo isso, né?”

Ela riu. Poderia.

“Eu também te amo. Agora vai que te estão esperando.”

Não era um anticlímax. Era ela no que fazia de melhor.


‘Cause everybody knows the things she does to please – She’s a femme fatale

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Published in: on 10 de novembro de 2010 at 22:36  Comments (6)