O filho pródigo

Escher

Era um poeta muito faceiro – amava essa palavra sobre todas as outras, pronunciava-a leve, f a c e i r o, letra a letra; lembrava-o da meninice, do gamão e do xadrez com o avô, do bola ou búlica com os moleques, do pé descalço, sujo. Jamais vivera qualquer dessas experiências, mas lera-as nos livros e nas revistas de guris, quando aprendia que viver era fingir, depois nos livros de adultos, nas pessoas, no Pessoa (surpreendentemente, conheceu pessoas antes do Pessoa, dado que era apático a gente – m i s a n t r o p o -, caso de uma ex-namoradinha platônica que citava de cor um poema que jamais conhecera mas achava bonito). Como fingia bem, era um poeta faceiro. F a c e i r o.

Ele mesmo descreveu, em poema homônimo (“Poema”), de que modo fazia poesias (ah, e como as fazia e adorava):

Como um barbeiro canta o fígaro

Como um vieira rege os sermões

Como um preto apura o samba

Nessas etcéteras comparações.

Tratava-se de um mestre, cria, na arte de tratar bem palavras, de lhes permitir a malemolência da ambiguidade. Sabia todas as homonímias possíveis e impossíveis, heterozigóticas homonímias; quando não sabia, inventava os palavreares para que coubessem. Foi assim que inventou um livro repleto de pontas soltas, mas de fios de leitura mais delicados que os de seda de uma aranha, e menos densos, tão mais delicados e tão menos densos que poucos foram capazes de encontrar tais fios, e ele se supunha esperto o suficiente para revelar ao mundo um ponto de vista genial sobre aqueles assuntos remoídos e mastigados, ossos sobrepostos a ossos num necrotério de ideias mortas que ele como um deus trazia à vida. As pessoas (poucas) gostavam porque o ignoravam: “certamente é um gênio.”

Começou escrevendo poesias até em latim. “Venitas” foi seu primeiro livro – ah, a vaidade. Achavam bonito-e-tal-mas-e-daí, poeta distante do povo, tão depois do modernismo. Imaginem o resto.

M i s a n t r o p o. Nunca ligou a essas bobagens.

Aí um dia.

Escreveu uma poesia que achou pobrinha pobrinha. A primeira. Esmerilava as palavras no papel, reconstruía as rimas: nada nada nada. Tamborilou os dedos sobre o texto como um pai acarinha um filho feio e lhe diz que bonitinho! só para que não sofra. Sua ideia era ofensiva; seu subtexto, inexistente. Lembrava uma novela mal escrita, mal enjambrada, uma mulher feia e coitadíssima já sem maquiagem e cobrando barato no fim da noite, self service depois das três, matinê de filme infantil cheia de criança num domingo; era poesia esquisita mesmo. Não havia grafite que lhe afiasse o tino mordaz nem vocábulo que lhe ampliasse o gur. Era aquilo, pronto. Estava fadada ao fracasso intelectual, “mas seria boa gente, de boa índole, boa família”.

Publicou-a assim mesmo.

Escrevia num jornal de pequena circulação, da cidade pequena em que vivia. Alguém gostou muito do que lera; entendia finalmente os trancos do autor confuso – confuso ele sempre fora, repita-se – e os barrancos pelos quais se precipitavam as palavras – e caíam em vertigem pelo papel solto, despencavam da cabeça para as mãos como quem vomita uma noite inteira de bebedeira. “Faz sentido!”, disse um primeiro, e o público correspondeu e finalmente acompanhou a ideia daquele texto ruinzinho mesmo, de comparações frívolas, sobre – ah!, sobre o amor. “Sempre o amor”, disse o poeta, “o amor fala nenhuma e todas as línguas”, justificando a pobreza de seu filho mais novo, mas também seu estrondoso sucesso.

Reproduziram a poesia no dia seguinte no jornal, e de novo e de novo; até, vejam só, até em areia dura de praia ela foi escrita e reproduzida. Puseram-na em quadros, deram-lhe assinatura de Lispector (assim mesmo: “Como em tudo / o sol desnuda o dia / e as marolas infinitas desse porto… / teus cabelos… / pecado… etc” – Clarisse Lispector) – a que o autor respondeu, numa das entrevistas depois de famoso, que ser comparado a Clarice só o lisonjeava, claro.

Principalmente, deram ao bardo da geração para que a musicasse.

Tratava-se de um bardo moderninho, bacana, de ideias avançadas “desde que…” – e entrava a discutir política num nível que, sinceramente, não comento a vocês por medo de que lhe gostem das ideias. É medo mesmo, sinto muito. O poeta é que estava extasiado demais para se preocupar com isso. Suas ideias políticas também eram confusas.

Fato é que, musicada, a poesia virou sucesso instantâneo. Tocou em novelas – trilha do amor dos mocinhos, vejam só o orgulho – e exauriu as rádios nacionais e quiçá internacionais, singrando mares em cruzeiros (consta que o próprio Roberto a cantaria em Portugal). O filho pobre – de rima pobre, de pobre argumento – era o que orgulhava mais. Era lindo. Era p o p.

Ao poeta, restou sentar-se à escrivaninha e começar de novo a escrever o que já havia dito. Gostava que lhe cantassem. Aos outros, dizia enfim ter alcançado sua “própria identidade” – agora, poderia mudar-se, “reinventar-se” – usava já palavras da moda, cristalinas, que geravam aplausos. Ele admirava seu público inteligente; seu público o devorava em êxtase pornográfico: “mais! mais! mil vezes mais!”

E ele lhes deu mais; mais do mesmo. Ninguém queria nada novo. Nem poeta nem leitor.

Foi nessa simbiose infinita que o poeta (que sonho!) virou produto de prateleira de livraria chique da Zona Sul. Às críticas, a quem o detratava, dizia empafioso que fizesse melhor. Houve até caso em que um colega literário lhe revelasse, em missivas justificadas, a aversão que nutria pelo que começara a produzir. A ele, o poeta respondera (ah!, sublime) em editorial:

o tempo dirá às cartas na mesa

aquilo que com o beijo amargo o ombro alcançou etc

Outro sucesso absoluto. “Poesia em Guerra” alcançou vendas inesperadas para a indústria. POESIA NO MAINSTREAM, era a manchete do caderno de cultura, com o poeta ali embaixo, com foto bonita, lendo o próprio livro (“como se não o conhecesse de cor…” – e o conhecia, porque admirava-se de como não precisava de duas três quatro palavras para alcançar os homens, que o liam; m a e s t r i a).

Verdade é que, de novo, meus amigos, ele não produziu mais nada. Gostava do conforto das palavras velhas, que rangiam de gastas, como mola velha em cadeira de balanço; preferia-as à sorte das esfinges indecifráveis.

Morreu rico. Mas muito mais pobre que seu filho pródigo.

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Published in: on 2 de fevereiro de 2015 at 22:58  Deixe um comentário