Afasia


“Eu acho que VOCÊ precisa beber alguma coisa…”
“Só se for uísque.”
“Serve. O uísque me faz lembrar que algumas coisas ficam melhores com o tempo…”
Disse isso e fechou-se em si. Mordia o pedaço de pão que já imaginava comer na manhã seguinte. Lembrava-se de pouca coisa, parecia um gambá – fedia a bebida, sentia que ela evaporava pela pele, estava quente, queria um banho e um abraço valioso (do que nunca teria). Gritava velhos aforismos – o uísque é o cão engarrafado!, alea jacta est!, a glass of absinthe is as poetical as anything in the world!, essa última em inglês mesmo, porque tinha respeito pelo autor-defunto, embora ficasse difícil falar em inglês, cada vez mais – pelas ruas, ausente, dizia uma porção de verdades (sempre a busca pela verdade ébria, a verdade insone, a verdade desnuda – em si, verdade por convicção, por sua própria existência, verdade que é, verdade à revelia do senso comum), dois piparotes sonolentos no ar, condicionando seu imo à obviedade de sua condição; estava só e velho e gordo e feio e desinteligente e enrolando a língua e desfazendo laços e buscando saídas e respirando fundo e volitivo. Endireitou o corpo mole (já passam das três?) e reafirmou-lhe que ela precisava de bebida.
“Você precisa de outra bebida!”
“E você precisa sair dessa crise de meia-idade.”
Estava em crise – se era de meia-idade, desconhecia, sentia-se com viços, planta trepadeira desafiando a gravidade, tinha manias de velho, sim, o próprio hábito de gritar aforismos pela rua vinha de seu avô, bêbado boêmio, pegara várias mulheres, sustentava-as todas, dava-lhes um amor de viços (era a palavra que sempre lhe vinha à mente, viço, lembrava-lhe vida, juventude) mesmo depois da idade que avançava contra sua vontade, então o hábito de gritar aforismos era mania de velho, assim como a mania de ler com os óculos na ponta do nariz e a de dormir sobre o livro, como a mania de assistir aos jogos de domingo com a latinha ao lado, sempre à mão, qualquer jogo, Jaú contra XV de Piracicaba, enrolava-se com essas tecnologias novas, mania de escutar Chopin e Debussy em volume moderado (só ouvira alto quando mais jovem, distorcia o som do estéreo, retumbava ritmicamente quando Tchaikóvsky iniciava a Abertura 1812, ou quando confutatis maledictis flamus acribus adictis Mozart recitava seu réquiem) – mas achava tudo normal, tipo pouco curioso com modismos, pouco afeito a novidades mesmo (é meu estilo, porra). Mas era crise. Era tempo que ele usava ao contrário. Lembrava-se – era com isso que se incomodava, com a memória. Não tinha filhos, queria-os, mas não se via casado, não queria casar. Bens nenhuns, nenhuma economia, tudo bem gasto, bem lavrado, cervejas de botequins escusos, e eu aqui dentro desse copo, tudo bem gasto. Tudo desperdiçado. Renda pequena, sobrava nem pro café que então adorava, bebia muito, filava no escritório todo dia, emprego burocrático (ele queria ser funcionário público, era desejo de infância ser funcionário público, via-se voltando pra casa, todo dia, pegava o carro, um Chevete, na época imaginava, voltava pra casa, pra mulher com a comida pronta, pros filhos, moleques levados, um mais mau que o outro, pra tevê e pra cama, não era dado a extravagâncias, mas talvez escrevesse um livro, deixava a porta entreaberta pra deixar correr o vento, a porta não parava de ranger, para frente e para trás, nunca um vento forte o suficiente para fechá-la, então escrevia no ritmo dos movimentos, o ranger das dobradiças era seu compasso, mas tudo era um seu ideal cada vez mais distante), era funcionário público, isso conseguira. De mais, a esbórnia, uma rebeldia contrariada, de um apartamento que dividia com a colega de quarto, moça velha (tinha mais de trinta, mas parecia mais velha, muito mais velha), frustrada, sem marido (você precisa de um marido. Ou de uma mulher, que teu caso já vale a tentativa – e ela suspirava fundo mesmo, talvez fosse lésbica, não quisesse assumir, ele se sentia rude mas não pedia desculpas, é meu estilo, porra), com um emprego de merda e que acima de tudo não bebia, (não bebia, como podia?, era de uma estupidez extrema não aceitar a derrota, beber era fundamental – sair de seu estado natural, virar o jogo, comandar-se por uma única vez, porra, era ensimesmar-se, apostasia), era isso que lhe restava, essa esbórnia, essa rebeldia contrariada. Do sonho, no seu apartamento, só a porta que rangia – preciso mandar consertar, esse barulho surdo não me deixa dormir, putamerda.
A mulher se calou. Não era de julgar ninguém. Ainda mais quando percebeu o olhar tonto do homem.
“Vamos, eu te levo pro banho.”
Ele fechou os olhos e se lembrou do uísque. De tudo, era a frase do uísque o que restava da noite, mais uma noite que seria esquecida e que, talvez, se se lembrasse, fosse sua redenção mais tarde, mas não se lembraria. “Ai, o uísque fica melhor com o tempo. Genial, né? Genial.” Sentiu-se bem.

Published in: on 11 de abril de 2010 at 15:32  Deixe um comentário