Da série “Estudo sobre as ninfas III” – Oceânidas

Herbert James Draper (1863–1920) – Peixe-voador (1910)

Herbert James Draper (1863–1920) – Peixe-voador (1910)

As oceânidas ou oceânides (Ωκεανιδες, ôkeanides, em grego) são as ninfas filhas de Oceano, o deus do rio mítico que circundava o mundo, e de Tétis, sua irmã, a deusa que alimentava as correntes dos seus filhos e filhas extraindo água de Oceano por meio de aqüíferos subterrâneos. No início, as oceânidas raramente eram descritas como ninfas do mar. Foi só mais tarde, quando Oceano, o mítico rio de água doce que circundava a Terra foi identificado com as águas salgadas do Atlântico (e dos outros oceanos) que sua irmã e esposa Tétis foi vista como deusa do mar e suas filhas ninfas vieram a ser descritas como ninfas marinhas. Passaram então a ser freqüentemente representadas, coroadas de flores, a acompanhar a concha de sua mãe Tétis, em cortejos marítimos.

(Fonte: Fantastipedia)

Chovia. Caminhava pela praia intrigada. Era a primeira vez que lhe diziam aquelas sentimentalidades. Como puta, pelo menos, não estava acostumada ao amor. Copacabana trazia uns ares desgostosos de gozos mal amados, forçados, corruptos. E uns trocados.

Erotismo nenhum.

Tentou a noite, mas era daquelas fracas, em que ninguém quer companhia. Chamou um púbere que passava desavisado por ali, mas nem ele a olhou nem a percebeu. Outro sim olhou. Olhou, parou e pediu um cigarro Tem um cigarro? Sou puta, não padaria! Impropérios terríveis.
Outro não. Outro parou encabulado ao seu lado. Companhia pra hoje, querido? Não, mesmo, só tou esperando o ônibus, mas obrigado pela atenção Ei, um menino bonito assim não precisa agradecer Que nada, agradeço porque você me parece gentil, não sente frio nessa chuva? Não, eu já não sinto mais nada, frio nenhum, nem dentro nem fora Puxa, até que não deve ser tão mal ficar quente por dentro às vezes.

(E ela não soube explicar que a falta do frio não anuncia qualquer calor, mas não conseguiu expressar mais palavra. Até porque o ônibus chegara.)

Ei, pra você e jogou um isqueiro pro rapaz não sentir frio mais. Ele aparvalhou-se. Ela ganhou a noite.

Mas daí que parou o carro e o homem de barba sussurrou palavras bobas, de como ela era bonita Como você é bonita Ah, obrigada, mas nem é pra tanto Que nada, a sério mesmo Heh! acho que você quer um abatimento no preço Não, não, pago mais! mais? mais pra quê? ela era aquilo mesmo, não mudaria nem um centavo barato por qualquer pessoa, ele falou que pagaria mais Pago mais mas não tinha dinheiro, e daí que foi embora mas disse que voltava Eu volto com certeza.

Ela sabia que era mentira. Mas não ligou. Ficou com o elogio bonito.

Rasgou a meia-calça e foi em direção à praia. As pernas eram bonitas. Nas mãos, jóias nenhumas. Umas e outras bijuterias baratas mal ajambradas, numa assonância quase feminina. Só o pomo de adão contrariava a cena e denunciava seu algo-errado. Mas como ninfa desastrada, tropeçava nos astros, torpe, eletrificada. Sob a chuva. Bastante simbólico, ela achava, porque água simbolizava pureza, numa das únicas imagens que conseguia decifrar.

O homem de barba apareceu logo depois de umas horas (mais? menos?) de caminhada. Trazia na mão uma garrafa de sidra aberta. Aberta e quebrada. Ela não se assustou, era aquilo É isso? Sim Assim sem mais? Exato, sem ressentimentos trazia na mão a garrafa quebrada e com pontas afiadas às quais ela se entregou intimamente, com desejo e fúria, sabendo a imortalidade logo-ali.

Era uma noite em que o mar batia forte e ninguém estava lá. Chovia e fazia frio no Rio de Janeiro.

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Published in: on 12 de julho de 2009 at 14:44  Comments (1)