As mulheres que já amei pra sempre III – A que estudava o teatro moderno inglês e fazia de conta

[Ato único: em que se estabelecem as personagens e seus dramas]

[Bastião] Oh vil, cruel desterro que a mim vossas graças impõem; exílio – ímprobo, por força do verbo – que tem por fim meu manifesto desejo de rendição e retorno. Quando não avilta a alma, ao coração rende porfírias. Morre em mim o que eu sou. Torno a vós e me encontro: sou o que sois, não o que de mim dizem meus álbuns ou diários secretos.

[Carmen] Ai de mim, que sofro já em ouvir tanta lamúria. Pensais mal de mim, errante misterioso a meus caminhos, se credes que o opróbrio afaga meus desejos. Não sois, homem justo – perjúria das perjúrias! -, o que me fazeis crer que sejais. Vossos lábios perfidiosos não pretendem senão buscar no desterro motivos para um coração nômade, que nunca encontra na terra o que vos assente o espírito. Tal o imbróglio de gregória e trágica encenação, provocai-me; e às minhas perturbações há-de m’abandonar quando houverdes de acompanhar o dissabor da maré, ou quando, por fim, satisfizerdes as vontades de homem e embebedardes o espírito dos desejos luxuriantes de uma virgem.

[Bastião] Nobilíssima senhora, feri-me com o chicote de vossas dúvidas. Vede: sofro em morte silenciosa com o temor de que acreditais no que dizeis. Pondes em dúvidas meu jogo; chamais o blefe: justo eu, que seria capaz mesmo de recitar-vos todas as vezes que vos mirei, da primeira à última, de coração e memória, vívidas que tais e tantas se repetem em mim.

[Carmen] Pois?!

[Bastião] Juro-vos. A vez primeira foi de antes de vos conhecer. Foi a despir-se de vida que vos encontrei em sonho. Provável é que não fôsseis vós, mas a pálida sombra que vos acompanha, tímida à estrela alva que trazíeis a consorte. Lembro-me assustado do que vi: da Ceifadora, ouvíeis melodias e promessas d’eternidade; das almas que caminhavam entre o abismo e a luz, sussurros e composições funestas sobre o futuro que não havíeis de encontrar. E, pois, decerto, assim morríeis.
Toquei-vos os lábios. E já não éreis Matéria. Transformáveis-vos em pó, em coisa torta, nobre e delicada, em ingrediente para estrelas e diamantes. O que de outrora vida e carne se compunha, doravante servia à brisa, aos sicômoros, aos tordos do visgueiro, às rochas do tropeçado riacho. Embaçáveis minhas vistas à explosão de vossas entranhas, e embargáveis minha voz ao encostar de vossos transmutados lábios. Despertei com a cama empapuçada e triste de memória que não me pertencia.

[Carmen] Não zombais de mim, ilustre senhor? Jurai pelo sol, que, menos inconstante que a lua, assoberba os dias em que espero pelo deleite de ser daquele que me há-de amar, e eu não mais terei motivos para a lágrima ou o peito dolorido, e todo arfar será de volição, e toda lágrima, de compleição e fé; e eu guardarei olhos que os sejam apenas para os vossos, e braços para vosso novo abrigo, e peito para vossa empresa. Assegurai-vos de que havemos de permanecer em carne e unha, em pele e alma, e assegurar-vos-ei de que sejais o homem.

[Bastião] Vossas palavras me despertam de anos de estase e vilania. Meu coração nunca antes pulsara, mas só agora percebo, pois que agora o sinto. Vivo, eu digo. Vivo é o que sou. E homem. Encerremos o quórum. Deponhai, pois, vossos sagrados segredos, e seremos homem e mulher, não mais aos olhos dos homens, mas também aos de Deus, que ora nos ausculta, cirurgião preciso das almas dos homens. Alegrai-vos, coração meu!, que bem maior não pode haver nesta ou em qualquer outra taberna, terrena ou celestial. Tocai, Anjos, as Trombetas do Juízo Final. Já não existo em mim. Completa está auspiciosa metamorfose. Somos um.

[Epílogo: em que se sai do palco]

(Entre afagos)

[Nu] Já é ou já era?

[Nua] Jaé!

Published in: on 7 de maio de 2012 at 22:58  Comments (2)