As mulheres que já amei pra sempre II – A que me fez um verso bonito mas não era poetisa

, que infelicidade a gente toma de qualquer jeito, a pílulas ou conta-gotas. Tem barro demais embaixo dos sapatos, e isso já dá até pra contar uma história, não bonita nem triste nem nada sobre como aquilo tudo fora parar ali. Diga-se não muito. Que é pro leitor não cansar e não perder o foco da graça solta da coisa toda. Mas diga-se uma anedota engraçadinha pra bastar no contrapeso da balança.

Antes, era daquelas pra quem olhava e já sabia antecipar-lhe o gosto da boca. Os sabores diziam tudo ou quase sobre seus desejos: antidesejos. Realizava-os molemente, malemolente, a seu tempo.

Depois, era daquelas que descobria aos poucos, e a quem cobria de novo com um véu de solenidades para mascarar-lhe os perfumes. E redescobri-los uma vez mais. Era um jogo que ambos jogavam com gosto e com riso. E com pranteares, mais tarde. Como ele já sabia, mas não revelava. Como ele já sabia.

Ele sabia de tudo, eu poderia dizer, como numa peça sem público, um verdadeiro fracasso, que se ensaia muito apenas – apenas – para o êxtase e as alegrias do próprio ator. Os passos e os erros e os acertos e como aquela história toda se juntaria a metáforas de barros e sapatos ele sabia. Sabia, porque traçara roteiros semelhantes. O final era sempre antiapoteótico, dir-se-ia um pastiche. Um tango. Um romance do Puig.

Boquitas pintadas – era o que pensava – e lá estava ela de novo, já arrumada. Foi quando (ela) poemou-se-lhe a fazer versos carinhosos assim do nada.


rezo aos anjos

e a um deus piedoso

que o barco atravesse o rio

que o rio corra ao mar

que o mar se atulhe e vaze

em ondas, sortes, azares

como ordenam o curso dos desígnios


e a vida


Ele acariciou-a com os lábios molhados e pediu mais um verso. Ela então disse-lhe


é a vida.


Tocou o telefone e ele deixou tocar. Não era nada, ele dizia. A vida é meu momento é meu momento é meu momento aqui. Negou os tais desígnios, mas soube-se inapelavelmente preso a eles. Essa história de destino que esperasse. Os barros para o sapato, as metáforas, ao diabo com as metáforas – elas que esperassem.

Era ali, só, feliz. Sem saber. Que felicidade não se sabe nunca. E por isso, talvez, fosse.

E era questão de tempo até que, por fim ou finalidade,

Published in: on 5 de junho de 2011 at 22:34  Comments (11)