Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: III – Corpo

“E esse é o seu monólogo?”

“Seria, se você não me atrapalhasse tanto.”

“Pra que a polifonia? Eu tô aqui.”

“Não, faz tempo que você não tá aqui. Faz tempo que não ouço a sua voz medíocre me pedindo pra não ir. Seu corpo murcho me pedindo pra ficar. Sua boca torta implorando por meus dentes na sua coxa.
“Faz tempo que você não fuma um cigarro comigo. Um cigarro! Sinceramente. Não é pedir nada demais. Um cigarro amassado… A caixa de fósforos está vazia há dois meses e você nem pensou em tirá-la do banheiro.
“Noites de amor. Corpo que dança. Eu danço sozinho faz um tempo. Sem dança. Sem música. Malfadado tango que se espreguiça num colchão duro e vazio de mim. Você que é culpada. Veredito final.
“Não, você sozinha, não. Você seria incapaz de tudo sozinha. Burra que é. A Guerra do Peloponeso é culpada. Não fossem Esparta e Atenas digladiando-se pela Grécia destruída, então Platão não se decepcionaria e não criaria Eros. Ou o platonismo. Sei lá.
“Ou sei. Culpa de Eros. Filho de Pínia e Poros, a Pobreza e o Expediente, o desgraçado me impinge a condição sua de miserabilidade. Solidão dos diabos. Você aqui e longe.
“Eu te odeio por estar aqui e longe. Eu odeio sua condição de amar outro. Outro o quê? Outro corpo? Meu corpo é melhor. Meu corpo é meu, não seu. Seu desprezo é tanto por aquilo que não pertence a você que acaba assim, querendo o tudo dos outros. Não me pertenço a você.
“E ainda sinto sua falta, diabos. Sinto seu cheiro a todo instante. Diabos.”

(Silêncio.)

“E você não vai dizer nada?”

“(…) Acabou?”

Published in: on 28 de dezembro de 2009 at 23:57  Comments (2)  

Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: II – Almas

“Esse é um preço muito caro a se pagar!”

Exclamou num tom acima do normal.

“No, sorry, you’re mistaken. And how ‘bout blue moons? Can you remember blue moons?”

Respondeu acima do tom.

“Nada disso pode me fazer mudar de idéia. Esqueça. Mesqueça.”

Descabido.

“Oh, I do remember blue moons.”

Emocionada.

“Até porque, sim, o que se leva disso tudo?”

Descrente.

“Love actually, baby.”

Desvirtuando.

“Te falei que já amei antes? Pff, cê nem liga. Não tá aí pra isso. Mas amei. Amei à vera. Amei de papel passado e grinalda. Aliança no dedo. Que, aliás, foi o que ficou. De tudo, perdi a cabeça, perdi os amigos, perdi minha eloquência e minha desfaçatez. Sobrou aliança.”

Enganado.

“Something borrow, something blue… Oh! if you could at least for a moment have a Coke with me, you’d stop worrying about marriage. Ok, try this song. It’ll cheer you up!”

Consternada.

No rádio, Aimee Mann toca Wise Up. É um presente dela para ele, incompreensível, irritante. Incomoda, claro. Ele se abate. Ela se deixa levar.

“Te falei do meu último sonho?”

Impondo-se.

“Have I told you my latest dream?”

Emplastando-se.

“Um terrível homem aparecia por trás de uma parede suja, gordurosa. Você estava comigo. Você era o monstro também. Eu vi num filme. A sério, não ria.”

Assustado.

“I was at the moon. That same freakin’ moon of those times. You were the moon. You were at the sun. I was the sun. We loved each other secretely, waiting in vain for the day we could find ourselves to come, e pra sempre.”

Assustada.

Não falaram mais. Ele entendeu meia palavra. Ela, nada. Desligaram o telefone. Estavam mesmo falando em línguas diferentes.

No rádio, Aimee Mann ainda tocava a mesma música, que repetia e repetia o mantra de ambos. Sabiam-se pra sempre assim.

Published in: on 1 de dezembro de 2009 at 02:12  Comments (2)