Redenção

Os três bilhetes que escreveu pareciam lhe custar todos os esforços. Usava da matéria-vida que tanto admirava (pensava demais, amava demais, falava demais – parecia adolescente) para criá-los espontaneamente. Não relia, porque não era o caso de perceber o que escrevia. Era só fruição pra manhã que despontava…

O primeiro era sentimental. De uma bobagem dessas que a gente escreve quando pequeno. Falava de amor e outras bobagens.

“Minha Pequena,

se é assim (Pequena), é porque grande não havia de ser. Porque grande é exagero e não cabe no papel – o que me tornaria inútil, quase ridículo por escrever coisas que não cabem em seus lugares. É por isso que cabemos no todo aqui (o todo é o lugar mais belo). Cabemos nesse guardanapo sujismundo e rabiscado.  Porque cabemos em qualquer lugar. Somos alquimias absolutas – yin e yang, bem e mal, verdade e consequência, todo esse misticismo e essa conversa-mole de bar à meia-noite (noite escura e turva, de um dia seguinte menos embaçado).

(O espaço é curto.)

E se não digo mais, é porque não preciso. Espero que as maçãs estejam boas e o café fresco. Deixei um pedaço do bolo de ontem pra você. Só preciso de um cigarro – já volto (espero que acorde bem disposta e enquanto não volto, porque assim não me dá o trabalho de fingir que não escrevi nada enquanto você descobre o todo que está dentro dessa delicada cesta de pães).”

Releu o recado. Chorou. Mas havia um outro a ser escrito: o segundo era áspero e rápido. A caneta percorria o papel apressada. Não fazia as voltas do primeiro, nem tampouco suportava sua poesia. Era uma desconversa que não precisava ser escrita, mas que ele o fez assim mesmo, porque tinha tempo, porque não queria o desclaro. Era um dia bonito, enfim.

“Vizinho,

não roubei seu jornal. Aliás, também não o fiz perder seus bons amigos, não arranhei seu Opala 79, não diluí seu puro malte em água.

Porque não me importo. Não quero a sua vida.

Minha mulher sempre fora linda, tenho um cachorro de quem até gosto e ganho algum pro bar da frente. Você tem filhos – lindos, crescidos, dos tipos que devem ter dado trabalho –, uma boa aposentadoria e algum economizado. Temos boas histórias – as que queremos, as que construímos.

Ainda assim, se quiser, poderíamos disputar nossos infortúnios com uma garrafa do lado, que seria mais produtivo. Meu apartamento está aberto. Apareça quando quiser, não precisa de hora ou momento. Estarei sempre por aqui (mesmo agora) e não me importarei em vê-lo.

(Mas, por favor, não reclame mais no síndico sobre a música alta, de quem quer que seja. Esteja convidado.)”

A terceira já era mais longa e complicada. Deixava ao porteiro instruções sobre como proceder com o apartamento. Deixava separada a ração do cachorro e um cd para o vizinho da frente (tinha boas músicas).

Voltou a pensar nela. Teve certeza de que, com o Opala, fora um acidente infeliz. Chorou a última vez. Abriu a janela do vigésimo-segundo e deixou a brisa passear por todo o corpo enquanto descia.

(Perdê-la tinha-lhe sido demais.)

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Published in: on 28 de janeiro de 2009 at 02:02  Comments (1)  

Hello, stranger

Ela jurou por Deus que era tudo o que queria ouvir. Surda, a pobre, aos anseios do amor. Cega a tudo o que lembrasse flores, bombons ou presentes pequenos de dia dos namorados. Queria mais que o amor bruto dos homens brutos. Sabia-se uma miserável qualquer numa cidade incandescente (luzes que, pela orla, enfeitavam-lhe a cabeça – uma aura, diria ela, atordoada (coitada!), uma aura de amor branco que me invade pela mente).

(Não acreditava mesmo nisso.)

Mas queria que alguém lhe surgisse no meio de um cruzamento e a chamasse para dançar – a noite está quente, o que acha? Queria ao som do mar horas de amor infinito. Renegava, entretanto, qualquer outra proposta, porque todas lhe pareciam pequenas, desajeitadas. Para ela, só cartas secretas pelo correio. Para ela, trechos de poesias fragmentados em pedaços de papel (servia guardanapo), com todo o significado que só um segredo traria. Para ela, o impossível. Menos era pouco.

Viu o homem que cruzava a rua em sua direção. Apaixonou-se no primeiro instante, coisa de contos de fadas. Ele também (ela descobriu). Estavam atônitos, não repararam o sinal verde. Sua ação, autômata, era a de atravessar a rua despreocupados. Buscavam-se um ao outro, souberam-se certos ali.

Um carro não os atropelou. Vinha devagar, a tempo de uma freada brusca. Não morreram, e pouco se assustaram. Olhavam-se meio embaraçados. Continuaram cruzando a faixa de pedestres sob xingamentos mortais do motorista. Não se revelaram um ao outro. Mantiveram o mistério e noites (eróticas) de perturbação.

Ela pensava nele sempre. Tinha que vê-lo, porque ele era o impossível. Era ele quem ela buscava. Sentia-se tão absoluta e completamente feliz que chegava a negar Kant ao afirmar que a felicidade, afinal, existia. Estava ali a felicidade. No impossível dos dois, numa troca rápida de olhares. Era nele que ela se realizaria, e foi nele que ela se realizou todas as outras noites.

Até que se reencontraram.

Ela atravessava no mesmo cruzamento, na mesma hora (trabalhava perto, saía cedo). Duas semanas depois. Ele ali. Parecia tê-la esperado um bocado (fazia calor no Rio, estava muito suado), ou talvez fosse ansiedade. Ela o viu, assustada. Ele sorriu.

Enquanto ele atravessava (ela ali, parada, não movia um músculo, olhava para a mão do sujeito), sentiu-se subitamente estranho. Carregava flores para as quais ela olhava sem piscar. Percebeu o ridículo da situação: ele não a conhecia. Ensaiou entregar as flores, mas ela era um retrato de decepção. Ele olhou para o lado, para um velhinho (vejam só: o velho estava triste), que recebeu-as com um certo estranhamento e um tanto de carinho (ficou feliz e pensou que o mundo talvez não estivesse tão perdido, afinal; morreu aquela noite).

Flores?, e isto foi o que ela pensou: era tudo o que ele que lhe oferecia, depois de semanas de êxtase. Flores.

Não foram atropelados aquele dia, como no primeiro. E ela amaldiçoou o mundo por isso.

(Ele? Quem se importa?)

Published in: on 23 de janeiro de 2009 at 02:24  Comments (2)  

Noite-cinza

Acendi o cigarro. Boas narrativas começavam assim. Acendi o cigarro e busquei um papel, não havia, sentei num banco, o mais próximo, e vasculhei a mochila mais fundo, passei a noite toda procurando quem me ouvisse, pensei, enquanto isso, gostava de ouvir o barulho da nicotina estalando quando queimava, traguei o cigarro de novo e de novo. E decidi falar sobre todo o amor do mundo, enquanto rabiscava o novo-velho livro do Safran Foer, por falta de papel nenhum.

– Tem algum trocado pra me ajudar, tio?

Não tinha, claro. E aí percebi que falar sobre o amor torna-se inútil. Não existe o amor. Nem esperança. São inúteis velhas canções de amor e esperança. Ruins demais, antiquadas, não servem. Não sopram vida. Baforadas e baforadas afoitas no cigarro. Grafite rasgando o novo-velho do Jonathan.

(Se eu não tenho pena de rabiscar o livro? Não. Não posso.)

Fico tonto com tanta fumaça, Eu preciso pagar as contas, Solto baforadas e penso na minha casa, Eu sou a minha casa. Paro, olho em volta. Atrás a nova luz do MAC, a praia, o Forte. À frente, a velha igrejinha. Um par de balanços livres. Cinzas no lvro.

Atrás, boas lembranças.

À frente, o mistério. E uma lua minguante.

 

 

Tossidas rápidas. Há necessidade de tornar limpos os pulmões; de discutir o complemento e o adjunto; de repensar prioridades.

 

 

Acaba o cigarro, mas a fumaça densa ainda paira em volta, absorta no ar fino. E no pulmão. A fumaça é o que fica do cigarro.

Apago. A. Guimba. Com ela. Apago. O. Que. Não. Me. Resta. Subscrevo. Passado e Futuro.

E o que resta?

 

 

Livro rabiscado. Lápis menor. Grandes construções do homem. Carros que passam. O que não restava antes. Lua que, à míngua, se esconde numa fria nuvem fina, e ganha aura surreal – e eu diria liricamente que a nuvem é a fumaça do cigarro, de tão pouco densa, tão densa ela era no cigarro, tão frágil a espalhar-se acima.

– Moço? Agora tem uns centavos? – e ele voltava com os chicletes amassados na caixa sobremorta, eu sobrevivo, ele sobrevivo.

Continuava sem trocado. Merda de vida.

 

 

Preciso mesmo é de um maço inteiro pra tragar as dores do mundo e expelir numa grande fumaça. Preciso de um táxi.

– Para onde?

– Para o grande todo amor do mundo.

Ele dá de ombros e parte sem rumo. Me oferece um cigarro e eu nego.

– Preciso de um maço inteiro pra tragar as dores do mundo…

– …e expelir numa grande fumaça, eu sei.

Olhei pra ele com espanto. E eu disse que queria ser encontrado logo.

– Eu sei, meu querido; meu filho, eu sei.

 

Published in: on 23 de janeiro de 2009 at 01:35  Deixe um comentário  

Da série “Esquinas” I

– Que mané seriedade o quê!

Estava sério. Olhava firme para o outro.

– Que mané… esse negócio de seriedade é pra quem trabalha. Não, quer dizer, eu trabalho, sou sério no trabalho. Mas só no trabalho. Nesse negócio de vida não tem disso de ser sério, não.

Eu mesmo queria a continuidade da conversa que entreouvia, e perguntaria por que ele achava que a vida era um negócio se não soubesse que não era meu aquele solilóquio no meio do ônibus. Segui adiante, curioso, e ouvi o vagabundo avidamente. Vagabundo era modo de dizer. Sua roupa suja, sua filosofia de meia-pataca, seu bafo de botequim me sedimentaram nesse estereótipo fascinante. Ele investia contra o outro como se o atacasse, corpo pra frente, boca aberta, dedo em riste – era mil homens, não um, impunha respeito. O outro era só um senhor de mais de meia-idade, olhos embaçados, fixos no trocador que dormia.

Foi esse interlocutor desinteressado, porém, que tratou de dar asas ao vagabundo, que continuava acho que insólito, mas decidido, na sua retórica.

– Olha só, veja meu filho. Meu filho tentou ser sério a vida toda e o que aconteceu? Morreu. Acho que deu câncer, sei lá. É isso. Tentar ser sério é câncer. Embaralha a cabeça e o fígado. Eu não trabalho desde que meu filho morreu. Não deu pra aguentar. A mulher começou a reclamar que isso que aquilo, que ela só quem botava comida dentro de casa. Mas eu botava a minha vida dentro de casa. Sabe como é? Eu botava minha vida. Eu botava minha vi…

Recuperava o fôlego e os perdigotos perdidos. Parecia emocionado. Ou talvez só estivesse a pensar no próximo passo da história, no onde queria chegar. Porque àquela altura, só parecia dar voltas absurdas.

– Porque o senhor vê, seu… seu…

– Alberto.

– Pois é, eu ia dizer que não importa o seu nome. Quer dizer, o SEU nome não importa. E daí que é seu Alberto? Você é uma pessoa, seu Alberto. Uma pessoa maravilhosa. Não tem cristo que mude isso aí. Agora, se for se levar a sério demais, aí já era. Já era porque entra em religião, entra no trabalho, entra na terapia. O senhor vê esse negócio de terapia. É um câncer. A pessoa quer se conhecer, mas só conhece o que é sério. Isso não importa. Acaba com a sua vida rápido.

Seu Alberto não parecia fazer terapia. E se interessava menos ainda agora que o monólogo parecia ficar desconexo. O vagabundo se sentou melhor, ajeitou as costas e pareceu querer falar. Mas parou. Olhou pra paisagem.

– Isso aqui é bonito demais… Depois que perdi todo mundo foi que fez sentido. Depois de tudo foi que fez sentido.

Deixou escapar duas lágrimas, uma de cada olho. Não fez mais nada. Àquela altura, todo o ônibus voltava ao silêncio de passageiros ocupados em ensimesmar-se. Ele não falara pra ninguém. Seu Alberto não entendera que ele era ele: continuava a iludir-se de olhos abertos, olhando pro trocador que dormia a sono solto. Seu Alberto só se entendia como seus problemas. Seu Alberto era um homem de meia-idade que era seus problemas. Seu Alberto não existia.

O vagabundo então levantou-se: era o ponto. Estendeu a mão a seu Alberto, que, na dúvida, depois de hesitar, retribuiu o aperto. O vagabundo agradeceu, aquecido. Voltou-se a olhar para a porta de trás, por onde sairia. Enquanto caminhava, perambulando, resolveu arriscar mais uma vez, para, creio, não dar o dia por perdido.

– Aqui é um homem morto que anda. AQUI É UM HOMEM MORTO QUE ANDA, PORRA. Um homem que não consegue mais que alguns olhares de louco ou não se importa ou está morto. Eu me importo. Mas não me culpo. Então devo estar morto. Sei lá. Mas vocês vão ter a sua vez. Vocês vão ter a sua vez. Eu não sou herói, não. Eu sou um homem. Um homem morto que anda.

Saiu. Os passageiros deram graças a Deus. Seu Alberto olhou para trás, para mim, e rodopiou o dedo indicador ao lado da têmpora. Tinha a certeza de que lhe aparecia cada louco… Voltou-se para frente, para o trocador, e desistiu de ser homem.

Published in: on 21 de janeiro de 2009 at 23:11  Comments (3)  

Da sujeira

Talvez eu devesse dar boas-vindas. Talvez não. Importa?

Escrever importa. E escrever é acima de tudo um exercício. Seja pela compreensão do trivial (vida boba, desonesta, meia-boca), seja pela satisfação própria – egoísta, nada mais, autossatisfatória e autopunitiva –, seja pela construção da metáfora (qualquer, “tudo é metáfora” na máxima do Massimo), escrever é um exercício. Se não intelectual, certamente espiritual, se o intelecto é a alma e não o espírito e se é o que nos leva a fazer sentido.

O fato é que já escrevi há um tempo que ideias são o orgasmo do intelecto. Uma metáfora suja, talvez, porque agressiva, mas que não deixa de ter lá suas “verdades” (odeio verdades, assim como odeio mentiras ou ficções, ou o absoluto, ou o relativo, mas são eles os inescapáveis, os impetuosos, os que são o que são – yo no creo em brujas, pero que las hay…). Uma ideia é o splat no crânio: gozo supremo que nos leva ao alívio quando fisicamente expressada por um tapa na testa do tipo “a-há”, ou por um suspiro inefável de um “ah” que sai caridoso e desconfiado de quem o ouve. Daí o que falta é expressar. OK: e é aí que a cobra fuma e que a vaca vai pro brejo. Mesmo.

Porque quanto mais original se nos parece uma ideia, menos ela flui com a satisfação do gozo alcançado. A língua trava, o corpo sua, e nada – a não ser a cara de trouxa, a voz embargada, os olhos iluminados com a genialidade, “parabéns, meu caro, ninguém pensara nisso, vá em frente” – nada pode soletrar o Grande Esquema engendrado em plenitude, forma ou cor. A ideia vira trapo, torna-se o lugar-comum dos diabos, perde-se entre sinapses e correntes, desmilíngua-se. Apoeira-se. Já era.

Game over e daí pra frente só se quer recuperar o que nunca foi dito. Mas é tarde. Um orgasmo dura quanto? Alguns segundos? A ideia que não se realiza dura mais, embora não muito, e o que resta dela apieda-se no pensamento como comiseração. É um consolo, de fato: “vini vidi vinci, mas acabou – então deixa pra lá, deixa eu curtir uma fossa, maysamente” (porque tudo, no fim, é reflexo do que vivemos ali, momentâneo, flashes da realidade impalpável repleta de neoadjetivos abstratos e redundantes, momentos capturados num instantâneo que descolore rápido, sem permissão).

Ah, mas a pornografia… A doce e embalsamada pornografia das ideias-putas… Um real (tudo isso?) e: voilà. O grito fácil, a veia que salta. Não importa o que se diz, importa a avidez com que se diz. Há, claro, os viciados nelas. Os que se deixam levar pela sedução dos lábios vermelhos (desbotados, muitas bocas já passaram por ali) e de beijo assim-assim, mas satisfatórios pra quem depende de qualquer pensamento pra seguir adiante. Não dão prazer. Dão sífilis. Mas não matam.

De qualquer forma, embora triste, a paixão e o calor que se apoderam do homem no momento máximo do gozo se esvai com o orgasmo. O que resta, além de uma vaga lembrança de que foi bom, é isso mesmo, o splat – e o rastro, a culpa (mundo puritano…) e o arrepio que ele traz.

A sujeira pode, afinal, salvar toda uma vida do ostracismo e de sua própria ignorância.

Taí. Splat. Bem-vindo.

Published in: on 21 de janeiro de 2009 at 03:35  Comments (4)