Morada

A vida são três casas onde se habita

Na primeira,
pé no chão jasmineira
terrra folhada
mangueira
chuva frugal
domingueira:
incomunicação

Na segunda,
calçadas, ruas, portas
sonatas, esperas tortas,
quarto, cama embaçada,
silêncio das noites mortas:
réveillon

Na terceira – ah! –
na terceira a vida infesta
sala quarto floresta
despensa cheia
fenestra
pinho garapa afzélia:
caixão

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Published in: on 30 de setembro de 2016 at 02:23  Deixe um comentário  

O filho pródigo

Escher

Era um poeta muito faceiro – amava essa palavra sobre todas as outras, pronunciava-a leve, f a c e i r o, letra a letra; lembrava-o da meninice, do gamão e do xadrez com o avô, do bola ou búlica com os moleques, do pé descalço, sujo. Jamais vivera qualquer dessas experiências, mas lera-as nos livros e nas revistas de guris, quando aprendia que viver era fingir, depois nos livros de adultos, nas pessoas, no Pessoa (surpreendentemente, conheceu pessoas antes do Pessoa, dado que era apático a gente – m i s a n t r o p o -, caso de uma ex-namoradinha platônica que citava de cor um poema que jamais conhecera mas achava bonito). Como fingia bem, era um poeta faceiro. F a c e i r o.

Ele mesmo descreveu, em poema homônimo (“Poema”), de que modo fazia poesias (ah, e como as fazia e adorava):

Como um barbeiro canta o fígaro

Como um vieira rege os sermões

Como um preto apura o samba

Nessas etcéteras comparações.

Tratava-se de um mestre, cria, na arte de tratar bem palavras, de lhes permitir a malemolência da ambiguidade. Sabia todas as homonímias possíveis e impossíveis, heterozigóticas homonímias; quando não sabia, inventava os palavreares para que coubessem. Foi assim que inventou um livro repleto de pontas soltas, mas de fios de leitura mais delicados que os de seda de uma aranha, e menos densos, tão mais delicados e tão menos densos que poucos foram capazes de encontrar tais fios, e ele se supunha esperto o suficiente para revelar ao mundo um ponto de vista genial sobre aqueles assuntos remoídos e mastigados, ossos sobrepostos a ossos num necrotério de ideias mortas que ele como um deus trazia à vida. As pessoas (poucas) gostavam porque o ignoravam: “certamente é um gênio.”

Começou escrevendo poesias até em latim. “Venitas” foi seu primeiro livro – ah, a vaidade. Achavam bonito-e-tal-mas-e-daí, poeta distante do povo, tão depois do modernismo. Imaginem o resto.

M i s a n t r o p o. Nunca ligou a essas bobagens.

Aí um dia.

Escreveu uma poesia que achou pobrinha pobrinha. A primeira. Esmerilava as palavras no papel, reconstruía as rimas: nada nada nada. Tamborilou os dedos sobre o texto como um pai acarinha um filho feio e lhe diz que bonitinho! só para que não sofra. Sua ideia era ofensiva; seu subtexto, inexistente. Lembrava uma novela mal escrita, mal enjambrada, uma mulher feia e coitadíssima já sem maquiagem e cobrando barato no fim da noite, self service depois das três, matinê de filme infantil cheia de criança num domingo; era poesia esquisita mesmo. Não havia grafite que lhe afiasse o tino mordaz nem vocábulo que lhe ampliasse o gur. Era aquilo, pronto. Estava fadada ao fracasso intelectual, “mas seria boa gente, de boa índole, boa família”.

Publicou-a assim mesmo.

Escrevia num jornal de pequena circulação, da cidade pequena em que vivia. Alguém gostou muito do que lera; entendia finalmente os trancos do autor confuso – confuso ele sempre fora, repita-se – e os barrancos pelos quais se precipitavam as palavras – e caíam em vertigem pelo papel solto, despencavam da cabeça para as mãos como quem vomita uma noite inteira de bebedeira. “Faz sentido!”, disse um primeiro, e o público correspondeu e finalmente acompanhou a ideia daquele texto ruinzinho mesmo, de comparações frívolas, sobre – ah!, sobre o amor. “Sempre o amor”, disse o poeta, “o amor fala nenhuma e todas as línguas”, justificando a pobreza de seu filho mais novo, mas também seu estrondoso sucesso.

Reproduziram a poesia no dia seguinte no jornal, e de novo e de novo; até, vejam só, até em areia dura de praia ela foi escrita e reproduzida. Puseram-na em quadros, deram-lhe assinatura de Lispector (assim mesmo: “Como em tudo / o sol desnuda o dia / e as marolas infinitas desse porto… / teus cabelos… / pecado… etc” – Clarisse Lispector) – a que o autor respondeu, numa das entrevistas depois de famoso, que ser comparado a Clarice só o lisonjeava, claro.

Principalmente, deram ao bardo da geração para que a musicasse.

Tratava-se de um bardo moderninho, bacana, de ideias avançadas “desde que…” – e entrava a discutir política num nível que, sinceramente, não comento a vocês por medo de que lhe gostem das ideias. É medo mesmo, sinto muito. O poeta é que estava extasiado demais para se preocupar com isso. Suas ideias políticas também eram confusas.

Fato é que, musicada, a poesia virou sucesso instantâneo. Tocou em novelas – trilha do amor dos mocinhos, vejam só o orgulho – e exauriu as rádios nacionais e quiçá internacionais, singrando mares em cruzeiros (consta que o próprio Roberto a cantaria em Portugal). O filho pobre – de rima pobre, de pobre argumento – era o que orgulhava mais. Era lindo. Era p o p.

Ao poeta, restou sentar-se à escrivaninha e começar de novo a escrever o que já havia dito. Gostava que lhe cantassem. Aos outros, dizia enfim ter alcançado sua “própria identidade” – agora, poderia mudar-se, “reinventar-se” – usava já palavras da moda, cristalinas, que geravam aplausos. Ele admirava seu público inteligente; seu público o devorava em êxtase pornográfico: “mais! mais! mil vezes mais!”

E ele lhes deu mais; mais do mesmo. Ninguém queria nada novo. Nem poeta nem leitor.

Foi nessa simbiose infinita que o poeta (que sonho!) virou produto de prateleira de livraria chique da Zona Sul. Às críticas, a quem o detratava, dizia empafioso que fizesse melhor. Houve até caso em que um colega literário lhe revelasse, em missivas justificadas, a aversão que nutria pelo que começara a produzir. A ele, o poeta respondera (ah!, sublime) em editorial:

o tempo dirá às cartas na mesa

aquilo que com o beijo amargo o ombro alcançou etc

Outro sucesso absoluto. “Poesia em Guerra” alcançou vendas inesperadas para a indústria. POESIA NO MAINSTREAM, era a manchete do caderno de cultura, com o poeta ali embaixo, com foto bonita, lendo o próprio livro (“como se não o conhecesse de cor…” – e o conhecia, porque admirava-se de como não precisava de duas três quatro palavras para alcançar os homens, que o liam; m a e s t r i a).

Verdade é que, de novo, meus amigos, ele não produziu mais nada. Gostava do conforto das palavras velhas, que rangiam de gastas, como mola velha em cadeira de balanço; preferia-as à sorte das esfinges indecifráveis.

Morreu rico. Mas muito mais pobre que seu filho pródigo.

Published in: on 2 de fevereiro de 2015 at 22:58  Deixe um comentário  

Saudade


Diz saúde menino!
Diz obrigado!
Agora a prece e a comida!


e nas alegrias senfins do aprender adolescer
dona Cândida era mestra das obrigações meninas
e dos ready-mades simsenhores dos cafés
(que eu não conhecia.)


tudo em sua boca era viva poesia
e coração.

 

Published in: on 16 de julho de 2013 at 21:50  Comments (1)  

Pop song


“Página vinte-nove,
poema seis.
Tal tal e tal.”


Lá vem a professora
e seu ridículo de amor.


No caderno,
litera-tura,
escrita na pedra:


‘Ainda que se somem às minhas
suas falhas malfadadas,
nunca
(e eu disse nunca,
de um nunca para-sempre,
que nenhuma
palavra
poesia
mentira
possa desfazer de sua absoluta condição de nunquidade)
direi que não fui feliz
por você.’


(Ainda que me reste a embriaguez
dos fracos
e uma música
ruim
que me faça
o desfeitio
de pensar o contrário.)


Desdito o poema.
sobra o vício do vento,
a lufada na cara
e o concerto de Brandeburgo.


(Que você me deixou por não gostar de Bach
e por pena
de não ter permitido no peito
nem um coração falso de lata
nem o conforto do cinismo.)

Published in: on 26 de agosto de 2012 at 01:48  Deixe um comentário  

Soneto a M***, para que compreenda a graça da vida e os desígnios misteriosos dos caminhos com que ela, torta, narra seus personagens


Havia Anne Marie, a louca francesa,
Mulher de desejos, vis fantasias,
Que escapava de sua incerta tristeza
Em vidas tortas de gentes vazias.


Piratas havia de tanta destreza
Que, certa feita, em águas bravias,
Antes que da morte fossem doces presas
Verteram silêncio: noites tardias.


Milhões de palhaços vestindo turquesa
Azuis como tais, assim, não havia.
Em circos, a vida: mendigo, princesa.


Por fim, destoante (vã alegria):
Na fé, nas mãos sós de quem despreza a reza,
Ainda há punho a sangrar poesia.

Published in: on 17 de junho de 2012 at 17:39  Comments (1)  

As mulheres que já amei pra sempre III – A que estudava o teatro moderno inglês e fazia de conta

[Ato único: em que se estabelecem as personagens e seus dramas]

[Bastião] Oh vil, cruel desterro que a mim vossas graças impõem; exílio – ímprobo, por força do verbo – que tem por fim meu manifesto desejo de rendição e retorno. Quando não avilta a alma, ao coração rende porfírias. Morre em mim o que eu sou. Torno a vós e me encontro: sou o que sois, não o que de mim dizem meus álbuns ou diários secretos.

[Carmen] Ai de mim, que sofro já em ouvir tanta lamúria. Pensais mal de mim, errante misterioso a meus caminhos, se credes que o opróbrio afaga meus desejos. Não sois, homem justo – perjúria das perjúrias! -, o que me fazeis crer que sejais. Vossos lábios perfidiosos não pretendem senão buscar no desterro motivos para um coração nômade, que nunca encontra na terra o que vos assente o espírito. Tal o imbróglio de gregória e trágica encenação, provocai-me; e às minhas perturbações há-de m’abandonar quando houverdes de acompanhar o dissabor da maré, ou quando, por fim, satisfizerdes as vontades de homem e embebedardes o espírito dos desejos luxuriantes de uma virgem.

[Bastião] Nobilíssima senhora, feri-me com o chicote de vossas dúvidas. Vede: sofro em morte silenciosa com o temor de que acreditais no que dizeis. Pondes em dúvidas meu jogo; chamais o blefe: justo eu, que seria capaz mesmo de recitar-vos todas as vezes que vos mirei, da primeira à última, de coração e memória, vívidas que tais e tantas se repetem em mim.

[Carmen] Pois?!

[Bastião] Juro-vos. A vez primeira foi de antes de vos conhecer. Foi a despir-se de vida que vos encontrei em sonho. Provável é que não fôsseis vós, mas a pálida sombra que vos acompanha, tímida à estrela alva que trazíeis a consorte. Lembro-me assustado do que vi: da Ceifadora, ouvíeis melodias e promessas d’eternidade; das almas que caminhavam entre o abismo e a luz, sussurros e composições funestas sobre o futuro que não havíeis de encontrar. E, pois, decerto, assim morríeis.
Toquei-vos os lábios. E já não éreis Matéria. Transformáveis-vos em pó, em coisa torta, nobre e delicada, em ingrediente para estrelas e diamantes. O que de outrora vida e carne se compunha, doravante servia à brisa, aos sicômoros, aos tordos do visgueiro, às rochas do tropeçado riacho. Embaçáveis minhas vistas à explosão de vossas entranhas, e embargáveis minha voz ao encostar de vossos transmutados lábios. Despertei com a cama empapuçada e triste de memória que não me pertencia.

[Carmen] Não zombais de mim, ilustre senhor? Jurai pelo sol, que, menos inconstante que a lua, assoberba os dias em que espero pelo deleite de ser daquele que me há-de amar, e eu não mais terei motivos para a lágrima ou o peito dolorido, e todo arfar será de volição, e toda lágrima, de compleição e fé; e eu guardarei olhos que os sejam apenas para os vossos, e braços para vosso novo abrigo, e peito para vossa empresa. Assegurai-vos de que havemos de permanecer em carne e unha, em pele e alma, e assegurar-vos-ei de que sejais o homem.

[Bastião] Vossas palavras me despertam de anos de estase e vilania. Meu coração nunca antes pulsara, mas só agora percebo, pois que agora o sinto. Vivo, eu digo. Vivo é o que sou. E homem. Encerremos o quórum. Deponhai, pois, vossos sagrados segredos, e seremos homem e mulher, não mais aos olhos dos homens, mas também aos de Deus, que ora nos ausculta, cirurgião preciso das almas dos homens. Alegrai-vos, coração meu!, que bem maior não pode haver nesta ou em qualquer outra taberna, terrena ou celestial. Tocai, Anjos, as Trombetas do Juízo Final. Já não existo em mim. Completa está auspiciosa metamorfose. Somos um.

[Epílogo: em que se sai do palco]

(Entre afagos)

[Nu] Já é ou já era?

[Nua] Jaé!

Published in: on 7 de maio de 2012 at 22:58  Comments (2)  

Ano Novo

É pau, é pedra. Mas tá longe de ser o fim do caminho.

De mais a mais, tudo é a travessia, como diria o Rosa. E travessia é caminho que se marca com o pé descalço, pé cascudo, pé-que-não-se-guenta-mais (pelo amor de deus). Caminho construído de pegada – daquela que a gente deixa n’areia e daquela que a gente pega-e-não-larga, pegada pelo cabelo, pela cintura do corpo da moça que dança dança fogosa, escorrega, beija bem e deixa saudade.

(A vida é de deixar saudade…)

Saudade de tudo no caminho. Do que veio, do que é. Nesse sentimento inquieto, indecente, que faz vazar água dos olhos e o peito deixa cheio de vazio. Vontade de sentir de novo, de voltar a ser, de lembrar “foi bom”. Sem mas. Sem circuntâncias adversativas ou concessivas. Sem adjuntos entre sujeito e verbo, entre o eu e o ser. Eu sou, eu vivo, eu agora. Eu já – imperativo do verbo caminho.

Eu já. Um-do-la-si. Como quando a gente era pequeno, lembra? Como quando a vida não era preocupar e a gente só ria da palavra pum. A única ocupação era a bola. A única atitude era o sim. A única verdade era a que a gente não sabia. Caminho de espinhos no dedo, farpa, arranhão. Caminho de café, cheiro de chuva: nostalgia. Caminho difícil. Caminho bom como fruta madura.

Negócio de maturidade é que mata. Novo demais pra vida, velho demais pro resto. Café-colégio, almoço-cursinho, café-estuda, lanchinho-dorme. E tome gravata, né, Vinicius? A moça fogosa volta a dançar na sua frente, e você mal tem tempo de chegar junto, de tentar a cantada infalível e conquistá-la de vez. Você observa, espera, torce pra que ela não suma num relance. Ela some. Invariavelmente, ela some.

(E você continua a busca pela boca perfeita, pelos olhos pra-sempre, pelo sorriso que ela deixou estampado como tatuagem.)

À sua frente, o desconhecido e a vontade de que pelo menos seja bom.

Daí o medo do devir, do vir-a-ser, e a saudade estranha do futuro. Saudade que dá não-sei-por-quê (não perguntem, também estou aprendendo…), entre alvoradas, depois de uma noite mal dormida e bem vivida, uma dessas noites pra-sempre (“pra sempre nós, pra sempre essa lua, pra sempre o que vier – ‘tamos juntos!”). Dessas noites em que a gente olha pra frente e pensa que, enfim, pode valer a pena.

No que olha pra frente, olha pra trás (sempre a ambiguidade…). E pensa que foi bom até aqui. Que valeram os passos (as pegadas). Que não foi em vão. Há a esperança.

É aí que, pela terceira vez, a moça dança à sua frente. Vem e balança, vem e abraça, vem e dá um beijo. Sussurra o nome dela em seu ouvido, baixinho, e se desvela à sua mercê: “Eu sou Vida. E agora você me tem pra sempre.”

É pau, é pedra. Mas, como já disse, não é o fim do caminho. O abraço de Vida é um começo. Um novo começo. De uma nova dança, de uma nova vontade. De muitas outras saudades. Tudo segue adiante (eu, você). Novos passos, descobertas. Novos caminhos. Seguir adiante é o que resta das nossas verdades. Com alegria, sempre. Sempre inseguro, mas confiante. Sempre com fé e força. Sempre atento à travessia.

(Mas que às vezes dói, isso não dá pra negar. E o lance é deixar doer. Foi bom. Vai ser melhor. Disso tenho certeza.)

Published in: on 18 de dezembro de 2010 at 23:21  Comments (17)  

Carnaval de ’07

Enquanto eu, solerte, rezava a Santa Inês que falhassem as orações em seu nome, aproveitava a vida. Saltei de um apeadeiro em Angra e entrei pela porta dos fundos, pasmo com a vista. Acoei.

Parecia uma farsa. Mas era carnaval. E eu ali, na conspícua betesga que esbordava Portogalo.

O sol dealbava os tijolos – das ruas, dos olhos de corindon; a casa, pária, estou certo, deu origem ao filho de Dédalo e fez os sonhos voarem. Uma nuvem de sarin – enfeitiçada, claro – entrava pelo postigo, exalando uma pânria surreal. Nem Tântalo tinha um palácio daqueles. Um racemo e, taí, só faltariam as bacantes para a ode a Baco.

E eu com minhas orações a Santa Inês. Ô, boa Santa Inês. Tampou os olhos na hora-certa. No em-ponto. E, se não me engano, ainda senti um aflar santo no que era o momento.

E nada sorvou o momento; nem o caseoso parlatório da ostentação, nem a vitória da Beija-Flor. Criaram-se novas vedas: de amor mútuo, de promessas de amizade. Era o ilapso. Divino. Mais-que-divino. Na festa da carne, a adoração à divindade humana. Saímos da ruela sem vista da pequenês ao belvedere espiritual. Kamadeva puro. Ascese bonita mesmo. Contrapontual.

As bases foram fortes, a quem duvida. Laterícias. E o que poderia tisnar descartamos.

Construímos um Estado laico de farras e amizade. Ê, carnaval!…

Published in: on 6 de junho de 2010 at 15:23  Comments (10)  

Composição religiosa em duas partes [Parte II – Ateu: O Verbo é pouco]


haicai ii

mandingueiro
joga capoeira
chora de saudade

Escorregão e tropeço. Estigmas. Repetição, desengano, engano, desencanto. Areia da praia, seca, inóspita. Deserto da praia. Nenhuma encarnação além de sombra própria. Casa de névoa. Dentro.

Deus? Brincadeira… Terra-terra; Pais terra-terra. Homem desconstruído, mal-feito. “A pessoa amada em três dias”, em ruídos. Pra quem? Pra areia… Deserto. Fora.

Sem muito na vida. Candongas. O choro: a longevidade.

Published in: on 30 de maio de 2010 at 17:02  Comments (1)  

Composição religiosa em duas partes [Parte I – Carola: No início era o Verbo]


haicai i

desisto da hora:
Deus está morto
in Nietzsche we trust

Chegou ao terreiro. Desencantou. Achou engraçada toda a rouparia. Achou bonito. Pediu licença, entrou na roda. Extenuou-se com o sonido dos tambores. Procurou na saia rodada da baiana carioca a beleza da música de Olorum. “Kosi Oba Kan Afi Olorun!”, respondiam-lhe. Não acreditava, sabia. Jogaram-lhe o Ifá. Previu sua vida. Pulava areia cada vez que jogavam os cocos e era dentro que sentia. Era o próprio Exu que lhe vinha à frente, que lhe preenchia as lacunas. Duvidava: era na dúvida que tinha certeza. Ter movimento. Ser Deus: Oxalá..

(De sua vida menor.).

Published in: on 30 de maio de 2010 at 16:55  Comments (2)