Carnaval de ‘13

Entronizar.

Fazer dos universos possíveis os futuros certos: o melhor dos futuros. Saber-se em oceano aberto, com céu claro e mar limpo e calmo. Sentar-se ao cais ou à pedra esculpida vaidosamente na areia, discutir o futebol e os profundos medos, confiar sua vida às mãos de completos estranhos e criar neles seus mais fortes laços de amizade.

Em marés bravias ou mansas, estejam comigo esses sonhos e momentos (que carrego). Rejuvenesçam-me – a mim, velho e sem graça. Permitam-me grassar, estender o instante ao infinito da memória. Preciso de proteção – a de vocês e a do deus doce que habita essas águas e minhas invenções nubladas pelo sal e pela miopia.

É uma música suave a que me abraça o sono, porque nasce das imagens que ainda me sussurram nosso compartir. Do sopé ao topo da montanha há um longo percurso, mas será bom ter sua companhia a meu lado; já não sinto o desgaste da subida nem o medo da altura. (Vocês são corajosos e me acompanham em segurança.)

Subimos uma montanha qualquer, cujo nome já embota na cabeça preocupada; mas foi a montanha do devir que caminhamos de verdade, inescapável das metáforas que a memória produz. É por isso que, se não estiverem a meu lado pelos próximos caminhos, carrego-os no coração e tudo certo: haverá espaço confortável, sombra, água potável e um gato chamado Passa-Fome que os acompanhe. Meu carinho fraternal, claro. E a promessa de boa música e de boa poesia – as que compusermos, as que quisermos: é tudo nosso.

Afora isso, queria que meu abraço lhes fosse suficiente. Em mim, resguardo e abrigo terão sempre que as adversidades (que não sejam muitas!) lhes trouxerem a necessidade de ajuda. Ainda que cresçam, que se tornem grandes e misteriosos aos olhos da ilha daquele carnaval, encontrem em nossa amizade a proteção e o carinho que lhes dedico em profusão.

Sigamos (felizes, quem sabe?, mas sigamos). Sigamos à frente. Embarquemos a novas ilhas, a novas aventuras, a novas expectativas. E não esqueçamos nunca que, por mais Grande que seja a Ilha, nós sempre estaremos lá, em sombra, naquele tempo e naquelas noites.

Nenhum deus (homem, ser, amnésia, vou nem zoar, vai que…) será jamais capaz de nos negar isso.

 

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Published in: on 15 de maio de 2013 at 23:35  Comments (2)  

Sassarico

“Eu sou muito fogoso.”

Muitos risos. As duas senhorinhas riam ardilosas, entreolhando-se, cúmplices, na fila do mercado ainda aberto no dia das mães.

“Meu marido já não é homem há algum tempo…” – saudosa e em ato falho. – “Fogoso! Eu quis dizer fogoso…”

“É porque sou alagoano.”, seguiu ele. “Meu pai deus o tenha foi amigo de Lampião e dizem que chegou a ter lugar no céu marcado pelo próprio Padim Ciço. E isso porque nem ia à igreja.”

As duas riram ainda mais alto. Uma chegou a ser deselegantemente histérica. Só não se sabia se de nervoso ou desejo.

“Eu era conhecido como o vulcão de Alagoas.”

“Ah, graç’adeus no Brasil não tem vulcão.”

“Tem sim, em Minas.”

“Ah, não conta, tô falando no Brasil.”

O velho era impassível e indiferente; interessava-lhe sua história.

“Eu tive quatro mulheres. Quatro.”

“Cruzes! E por que separou tanto?”

“Não separei; enviuvei.”

Tristeza e silêncio respeitoso.

“Nossa, as quatro vezes?” Cada uma buscou um ombro dele, ambas acolhedoras e carinhosas.

“É. As quatro. Nenhuma delas de morte morrida.”

Afastaram-se.

“Mas nenhuma foi culpa minha. Só a terceira. Matei mesmo de prazer.”

A atendente infeliz (só podia ser infeliz) cortou o clima: PRÓÓÓXIMO.

A outra, que ficou, segurou-lhe o braço e pediu:

“Me fala de novo. Ela morreu de que mesmo?”

“De p-r-a-z-e-r.”

Um arrepio esquecido há anos cruzou-lhe a espinha. A menina sorriu encabulada. Era um galanteador.

 

Published in: on 12 de maio de 2013 at 22:39  Deixe um comentário