Pois é

“Fumei teu antepenúltimo cigarro”, ele mandou em mensagem de texto.

Era com essa contagem regressiva que se comunicava com ela agora. Era um falta pouco angustiante, e ele cria que mais pra ele que pra ela. Ele podia estar errado, claro. Mas duvidava disso.

Tinham se reencontrado havia poucos dias. Não chovia. Era daqueles dias que fazia trinta e dois graus até tarde, do calor abafado das noites do Rio. Ela que tinha ligado. Por ele, ela ficava quieta. Deixava o resto como devia. Mas ela insistiu. Era sadomasoquista.

Ele cedeu, claro. Não podia. Não queria. Mas cedeu por autocomplacência, por autocomiseração. Sentia-se só como os diabos. Ela não. Ela estava arrumada e meiga. Olhos perfumados, boca que não parava de fumar e falar de problemas escusos com o namorado.

Era uma cínica. Era linda.

Foram prum boteco chique, desses que enfeitam o Rio pros turistas. Ela pedia Lapa, ele pedia comida e descanso. Vamos a dois ou a três?, ela sugeria docemente dissimulada, mas já sabia a resposta e não queria outra. Foram sós.

Assim que entrou no carro dele, começou a falar do namorado e de suas manias. Ele, assim, era capaz de desistir, ou de ter certeza do que ela queria – e não, isso não inclui você, bonitinho – ela escarnava. Mas ela escarnava sempre. Era ela. Escarnava até do que sentia. E tinha orgulho disso. Sempre foi assim.

Ela dizia que ele a conhecia mais do que ninguém (não dizia, mas ele sabia que sim, mais que o namorado aventureiro, porque ele já a tinha visto nua, ao contrário do namorado, mas não nua sem roupa, nua por dentro, nua sem carne, sem rosto, sem pudores, e o outro não podia, não queria, era cego ao andar dela, ao cheiro, aos olhos; ele a conhecia; o outro era só o amante, maldito necessário amante). E ele a conhecia mesmo mais do que ninguém. Ele escrevia pra ela. Ele escrevia pra ela.

Chegaram. Ela conhecia os garçons, ele nunca estivera lá. Ela pediu caldinho de feijão, ele dois chopes. E mais dois por conta. Conversaram sobre nada. Conversaram bobagens. Ele tentava redimir-se do que passaram. Ela não ligava. Acendia um cigarro atrás do outro e pedia mais dois. (Ele achou que ela tinha medo de ficar sozinha.)

Até que não percebeu e foi aonde ele queria. Ele perguntou e ela respondeu. Ela era fria. Mas não impassível. Já era, acabou. Eu tou em outra agora.

Acendeu outro cigarro. Ele pediu para que ela não o fumasse tão atentamente. (Não sei se pediu ou se escreveu um bilhete.) A verdade é que estavam anuviados entre a fumaça dela e a cabeça dele. Mas ele olhou para a fumaça do cigarro (saiu de seus devaneios) e percebeu o resto. Ela não o enganava.

Ela olhou para ele, viu que havia percebido. Desgraçado, ela disse (ou pensou), e deu um trago longo. Não era pra ficar sabendo. E para de me seduzir.

Ele assumia outra postura. Seria passível compará-lo ao leão na savana, a buscar a presa, ou ao caçador que vê o veado na relva, mas ele não era dado a metáforas desse tipo.

Ela dizia que gostava, mas não era a hora. Ele aproximou-se. Ela recuou. Recuou como quem dizia sim. E ele sentiu-se feliz.

Ele não precisava do sim dela. Um sim é inútil. Um sim é bocaprafora. Ele precisava ver que seu rosto se contraía, que seu corpo se desintegrava, que sua respiração ofegava, que sua voz ficava rouca. Ele precisava mais do que de um sim: ele precisava que ela concordasse. E ela o fez.

Aí ele se afastou. Pediram a conta, tarde por hoje. Ela olhou a carteira de cigarro e disse que sobraram três. Não posso jogar fora. E meu namorado me mata se chego com isso perto dele.

Ele pegou a carteira e ficou quieto. Levou-a em casa. Tentou beijá-la (já estava bêbado), mas ela resistiu. (Então tá.) Ele olhou pro lado e viu que não era preciso. Sorriu pra ela. Aquilo, sim, era pior. Ela olhou pros olhos dele, sentiu-se arrepiar, tremer, e sair do carro correndo. Não olhou pra trás. Não precisava. Ela era sua por inteira. Nua.

Ele deu o ultimato. Três cigarros era todo o tempo que ela tinha. Daí pra frente, tudo o mais seria mistério.

Pra ela. Pra ele… ele teria revelações.

Sacou do celular: “Fumei teu antepenúltimo cigarro…”

Published in: on 27 de fevereiro de 2009 at 03:55  Comments (5)  

Prelúdio

…e tem dias que toda música é inspiração, toda ela (de todas elas) traz lembranças – tristes bonitas, em geral, mas cê que sabe – (parece que o dia é umas daquelas manhãs de domingo com sol, mas que ainda faz frio e é lindo demais), e você tem vontade de escrever sobre todos os seus amores, porque lhe parecem todos muito importantes para serem descritos, experiências mesmo únicas, que todos devem conhecer para saber o que é amar (não leram Vinícius, ninguém mais lê), e o que você passou foi realmente isso, com todas elas, e você se vê excitado com a possibilidade de mostrar aos outros tudo o que foi – e foi muito, muito mesmo, em cada pouco que foi (“intenso”, você diz), enquanto as músicas o envolvem e trazem rostos diferentes, e você os vê todos ali, mas resolve então não falar nada, entra  na onda, e quando vê já passou o momento de escrever, e sofre porque queria muito, mas foi incapaz.

            Ou então (vá lá) escreve, mas o que vê depois que escreveu é que não é metade do que aconteceu. Mas fica a vontade de que tenha sido (“fica na intenção”, é o que diz), porque as palavras são sempre menores do que tudo o que deveria ter sido (escrito), seriam necessárias muito mais palavras para que tudo fosse do jeito que deveria ser (foi) – ou você é inábil ou não deu, foi mal, é tudo muito curto, o tempo, as palavras são curtas, paciência, menos o coração, esse que sente tudo ao mesmo tempo, entre fazer ou morrer as time goes by, canção maldita que não larga o peito.

            “The world will always welcome lovers…” (E você escreve mesmo assim. Em si, cabem lembranças…)

Published in: on 4 de fevereiro de 2009 at 02:33  Comments (3)