Tempestade

Creio que, a essa altura, vocês já devem ter lido neste texto do Protótipo o que acontecerá em muitas postagens, a partir de agora. Se ainda não o fizeram, tenham a gentileza, antes de seguir adiante com a leitura, s’il vou plaît.

Se tudo der razoavelmente certo – embora me seja impossível prever o tempo que cada um dedica ao ato em si –, a peça musical a seguir terá alguns fortuitos diálogos com a texto. Tudo sorte, claro. Só não se apressem. Aproveitem o som, sua explicação, as descrições. Deem o play logo de início, esperem começar a canção e— bem, encontrem suas próprias coincidências.

Ah, claro! Aceito as próximas sugestões nos comentários. Sintam-se à vontade.

Deadman’s Gun é composição da banda independente Ashtar Command. Tornou-se mais conhecida como parte do game Red Dead Redemption. Para traduzir: em linhas gerais, o jogo se passa em 1911, no apagar das luzes da Corrida para o Oeste americano, e narra a cinematográfica história de John Marston, ex-foragido, que trocou o crime por uma vida na fazenda, ao lado de sua família. Seria singela, trivial até, se esta não fosse uma história sobre o passado. Mas o é. E o passado, como se sabe, costuma cobrar caro suas dívidas…

Às doze em ponto, subiu a escada. Sol a pino. Areava sob seus pés a pedra seca; a cabeça atrás, em outras paragens, em outras muitas paisagens por que já passara. Estava cansado.

“Eu tenho o hábito de não falar muito o que penso. Mas penso muito.” Era o peso das costas que lhe pedia que contasse, afoito, as excentricidades que lhe vinham à cabeça aos que estavam à sua volta. Na subida, enquanto ensaiava os contares, arfava; e a escada alcançava seu patamar mais alto. Ajustou o corselete ao peito, e então a espada à bainha. Não sabia por que carregava a espada, mas imaginava. Não sabia o caminho que percorria, mas o caminhava. Era o que deveria ser feito.

No alto da escada montanhosa, à direita, a trilha seguia ao infinito. Eram obscuros e nunca traçados passos a lembranças de histórias de ninar: levava a bosques e reinações de outrora; outra época que não fazia sentido. Olhava à direita e via o desconcerto: era tudo um borrão, uma aglomeração de passados. (Ali não poderia ser o adiante. Era o retorno, o atrás, o que ficou. Seus pertences. Memória.)

À esquerda, o caminho se bifurcava em muitos outros; tantos, que não se os distinguiam. Eram repletos: de gritos, de lamentos, de vazios. Também de gracejos, de boas risadas. Estranhamente, porém, deixava-se inundar pelas tristezas; fraquejou; arqueou as pernas; ajoelhou-se. Não, não era memória. Era o que ficava, o que deixava pra trás. As lutas que travara. As lutas que perdera. Todas. (Então aquele também não era o caminho que fazia avançar.)

Avançar. Parecia-lhe ora desnecessário pensar em “ir à frente”. Mas era demasiado humano para saber que precisava das metáforas. Aquela alegoria era, talvez, bonita; gostava da espada, que dava um ar caricatural à coisa toda – a imaginação, mais que a lembrança, regia o momento como a uma orquestra magnífica; não poderia imaginar melhor. A espada; afinal, uma arma que poderia usar em batalhas; era o guerreiro já agora. Sentia-se forte. E era nela que, como num cajado, apoiava-se para erguer os joelhos do chão. (Gostava de como a cabeça contornava os ultrajes que o corpo impunha. Imaginar.)

O adiante era à frente. Caminhada longa sobre areia e grama. Olhava o chão: antes, desatento; mas enfim com curiosidade que o fez perceber: seguia pegadas. Alguém já estivera ali antes. Não demorou a notar que os passos eram como os seus próprios. Pés maiores, mas menos firmes; traçavam a direção. “Em direção à tempestade? Que seja.” Não se sentia particularmente corajoso. Sentia-se cansado, como já o havíamos visto. Dera seu próprio sangue aos demônios que o consumiam; e duas moedas para o barqueiro. Mas isso, antes desta última etapa. O que descobriu, involuntariamente: que aqueles passos eram seus. Não de agora, que era a primeira vez que conhecia aquela trilha. Mas de depois. Ali, quando tempo não importava. Eram seus e de seu pai. Seu pai de antes. De menino. A mesma pisada.

“À tempestade.” (Já sentia os pingos no rosto; limpava-os por puro hábito; sentia-se limpo e disposto. Ajustou o corselete mais uma vez. Tocou a espada. Queria ter levado um chapéu.)

Na última e (talvez) primeira vez em que se percebeu homem, não viu luz, deus, nada; era só sua sombra que adentrava uma nuvem espessa, densa, num caminho que se percorre sozinho.

A despeito de tudo, não teve medo. Morrer era só um inevitável passo. A nuvem o abraçou com seus infinitos braços e ele não sentiu mais frio.

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Published in: on 14 de novembro de 2011 at 23:13  Comments (8)  

As mulheres que já amei pra sempre I – A que gostava da Nico mas não do Lou

 

 

Here she comes, you better watch your step…


“É. Christa Päffgen. Não digo o contrário.”

“Cara, tou me metendo de birra, o papo não é meu e tá um barulho infernal aqui dentro, mas você não pode estar séria.”

Ela estava. Tinha sardas na pele branca. Loira de fios revoltosos. Ela me lembrava uma tarde lusco-fusco num parque de diversões. Com sorvete. Refletia no sorriso o que era, certo-como-dois-e-dois, os olhos mais bonitos. Muito rímel e lápis. Pretos. Atrás da pupila, uma retina branca branca, de realçar. Franja. E os olhos pretos de novo.

Foi o caminho que percorri até a boca.

“Esquece a banana do Warhol. Esquece tudo. Eles não existiriam sem Femme Fatale.”

Eu não discordava nem discordava. Balançava a cabeça e ria. Femme Fatale.

 

 

She’s going to break your heart in two, it’s true…

 

 

“Era uma profecia…”

Ela me disse isso depois de uma noite dessas que me pareciam comuns. Apertou um cigarro. Olhos pretos fixos no teto. Ventilador que girava sem função.

“Que profec–“

“Shh! Era uma profecia.”

Acho que bateu. Eu (ela) me interrompia pra se deixar levar. Eu a ouvia. Sempre fui de ouvir. A ela principalmente.

Pedi desculpa. Devia ser, eu disse sem nenhuma implicância e com algum interesse. Deve ser.

“Você duvida?”

“Não. Não duvido.”

“Ahn.” Tragou fundo. Soltou o peito lentamente, deixando-se arfar com a saída da fumaça e a entrada de ar. Era bonita.

Pegou de um caderno. “Você é o número 37. Três é o número terreno pros hindus. Quatro é o número sagrado. Sete é a soma dos dois. Você é terra.”

Isso faz de você divina. Era o que eu queria ter dito. Mas talvez não fizesse diferença.

 

 

It’s not hard to realize, just look into her false colored eyes…

 

 

“Mas não é do nada. É que não é mais.”

Eu olhava. Eram os mesmos olhos, não eram mais, eram de novo. “Só me diz que seu nome é Alice, por favor. Alice Ayres.”

Tomou meu rosto entre as mãos. Não sei se eram delas ou minhas, as lágrimas.

“Não. Não, não. Nada de disfarces pra você. Meu querido. Meu querido.”

Não me deixou perguntar por quê. Porque sim, porque preciso. Porque é.”

Mas isso tudo é um disfarce… Pra você é um disfarce. Eu que tragava o cigarro agora. Engolia fumaça. Engolia saliva.

“Você se disfarçou em mim, senhorita Jones…”

Só deu tempo de pegar seu telefone. A porta bateu em seguida.

 

She builds you up to just put you down, what a clown

 

Recebi uma mensagem no celular noite dessas, no bar.

“Watch out, the world’s behind you; there’s always someone around you who will call…”

Olhei pra trás instintivamente. Os cabelos eram pretos. Mas posso estar enganado.

Levantei pra dizer oi. Nunca sozinha. Em pé na varanda. Na mesa vazia mais ao lado, dois copos, duas bolsas.

“Você nunca foi muito do Lou.”

Fumava. Estava mais magra. Mas de novo posso estar enganado.

“Sozinha?”

“Não, não. Só fumando um cigarro. Alice foi ao banheiro.”

Alice?

Alice…

“Eu poderia rir de tudo isso, né?”

Ela riu. Poderia.

“Eu também te amo. Agora vai que te estão esperando.”

Não era um anticlímax. Era ela no que fazia de melhor.


‘Cause everybody knows the things she does to please – She’s a femme fatale

Published in: on 10 de novembro de 2010 at 22:36  Comments (6)  

Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: IV – Intelecto

— Teatro do Absurdo: primeiro ato —


It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss

“É, tem bem verdade nessa música.”

“Ai, odeio quando você diz isso. Essas verdades aí. Que coisa idiota. Parece que a verdade é uma só, universal. Para com isso.”

“Ei, ow, foi só um comentário. Pronto. Não tá mais aqui quem falou.”

“Tá vendo? Você é um clichê ambulante. ‘Não tá mais aqui…’ Que ridícula. Aposto que vê todos os filmes da Nancy Meyers e os acha bonitos…”

“Eu não sei quem é a Nancy Meyers, intelectualoide de merda.”

“Eu sei. Por isso mesmo.”

“Aff. Eu já sei o que você quer. Você quer se irritar comigo. Porque nós nos amamos, mas você não pode ser meu, aí você quer uma desculpa. Você sabe que eu não vou te trocar por ele. Ele é meu namorado. Eu já te entendi.”

— Teatro do Absurdo: segundo ato —


Oh well I don’t mind, if you don’t mind
Cuz I don’t shine if you don’t shine

“Ah, muita verdade nessa aí.”

“Ué, você? Você?, caindo no clichê das verdades?”

“Tá, eu tava errado. Verdades existem, ponto.”

“O que houve, Senhor Otimista? Desistiu do niilismo?”

“É. A gente aprende.”

“Ah, vai. Não fica triste, não é o fim do mundo. Tenta manter o bom humor. Por mim.”

“Por você… Eu mudaria o mundo por você. Eu faria o inverso do que faço por você. Mas não me peça pra manter o humor. Não dessa vez.”

“Ei, tudo bem. Só quero que você saiba que não é o fim do mundo.”

“Não. Tsc.” (Mas preferia que fosse. Mas é quase como. Mas quem liga? Mas podia ser. Mas me dá uma chance! Mas e se eu implorasse? Mas e meu orgulho?)

— Teatro do Absurdo: último ato —


But my heart, it don’t beat
It don’t beat the way it used to
And my eyes they don’t see you no more
And my lips they don’t kiss
They don’t kiss the way they used to
And my eyes don’t recognize you no more

De resto, eu a deixei. Deixei mesmo. Ela me mandou uma mensagem dizendo que não parava de pensar em mim, que coisa, me pedia uma maneira de não fazer mais isso, mas eu também tava nessa, oras, e ela não quis saber, ela escolheu, então eu escolhi também, passei a não querer mais falar, disse que sabia a hora de sair de cena e saí dramaticamente porque queria deixar clara a minha dor que é boba e que nem chegou a existir num relacionamento que nunca foi real só na minha cabeça mente complicada e cheia de truques baratos de circo. Aí eu me apaixonei por outra mulher e tudo voltou a fazer sentido até a próxima despedida que se aproxima mas isso era meio coisa da minha cabeça, a mulher e a despedida que se aproxima. Aí eu desisti de amar mesmo.

Só me apaixonei pelas minhas ideias cada vez mais vazias e sem sentido. As ideias são o orgasmo da mente, não é? Virei onanista.

“Palhaço. Palhaço e niilista.”


So if the answer is no
Can I change your mind?

Published in: on 6 de março de 2010 at 14:59  Comments (8)  

Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: III – Corpo

“E esse é o seu monólogo?”

“Seria, se você não me atrapalhasse tanto.”

“Pra que a polifonia? Eu tô aqui.”

“Não, faz tempo que você não tá aqui. Faz tempo que não ouço a sua voz medíocre me pedindo pra não ir. Seu corpo murcho me pedindo pra ficar. Sua boca torta implorando por meus dentes na sua coxa.
“Faz tempo que você não fuma um cigarro comigo. Um cigarro! Sinceramente. Não é pedir nada demais. Um cigarro amassado… A caixa de fósforos está vazia há dois meses e você nem pensou em tirá-la do banheiro.
“Noites de amor. Corpo que dança. Eu danço sozinho faz um tempo. Sem dança. Sem música. Malfadado tango que se espreguiça num colchão duro e vazio de mim. Você que é culpada. Veredito final.
“Não, você sozinha, não. Você seria incapaz de tudo sozinha. Burra que é. A Guerra do Peloponeso é culpada. Não fossem Esparta e Atenas digladiando-se pela Grécia destruída, então Platão não se decepcionaria e não criaria Eros. Ou o platonismo. Sei lá.
“Ou sei. Culpa de Eros. Filho de Pínia e Poros, a Pobreza e o Expediente, o desgraçado me impinge a condição sua de miserabilidade. Solidão dos diabos. Você aqui e longe.
“Eu te odeio por estar aqui e longe. Eu odeio sua condição de amar outro. Outro o quê? Outro corpo? Meu corpo é melhor. Meu corpo é meu, não seu. Seu desprezo é tanto por aquilo que não pertence a você que acaba assim, querendo o tudo dos outros. Não me pertenço a você.
“E ainda sinto sua falta, diabos. Sinto seu cheiro a todo instante. Diabos.”

(Silêncio.)

“E você não vai dizer nada?”

“(…) Acabou?”

Published in: on 28 de dezembro de 2009 at 23:57  Comments (2)  

Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: II – Almas

“Esse é um preço muito caro a se pagar!”

Exclamou num tom acima do normal.

“No, sorry, you’re mistaken. And how ‘bout blue moons? Can you remember blue moons?”

Respondeu acima do tom.

“Nada disso pode me fazer mudar de idéia. Esqueça. Mesqueça.”

Descabido.

“Oh, I do remember blue moons.”

Emocionada.

“Até porque, sim, o que se leva disso tudo?”

Descrente.

“Love actually, baby.”

Desvirtuando.

“Te falei que já amei antes? Pff, cê nem liga. Não tá aí pra isso. Mas amei. Amei à vera. Amei de papel passado e grinalda. Aliança no dedo. Que, aliás, foi o que ficou. De tudo, perdi a cabeça, perdi os amigos, perdi minha eloquência e minha desfaçatez. Sobrou aliança.”

Enganado.

“Something borrow, something blue… Oh! if you could at least for a moment have a Coke with me, you’d stop worrying about marriage. Ok, try this song. It’ll cheer you up!”

Consternada.

No rádio, Aimee Mann toca Wise Up. É um presente dela para ele, incompreensível, irritante. Incomoda, claro. Ele se abate. Ela se deixa levar.

“Te falei do meu último sonho?”

Impondo-se.

“Have I told you my latest dream?”

Emplastando-se.

“Um terrível homem aparecia por trás de uma parede suja, gordurosa. Você estava comigo. Você era o monstro também. Eu vi num filme. A sério, não ria.”

Assustado.

“I was at the moon. That same freakin’ moon of those times. You were the moon. You were at the sun. I was the sun. We loved each other secretely, waiting in vain for the day we could find ourselves to come, e pra sempre.”

Assustada.

Não falaram mais. Ele entendeu meia palavra. Ela, nada. Desligaram o telefone. Estavam mesmo falando em línguas diferentes.

No rádio, Aimee Mann ainda tocava a mesma música, que repetia e repetia o mantra de ambos. Sabiam-se pra sempre assim.

Published in: on 1 de dezembro de 2009 at 02:12  Comments (2)  

Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: I – Ossos

Fascinado por música como qualquer imbecil, resolvo que cada uma tem seu sentido implícito, desconhecido, que necessita ser escavado, desencravado como unha ruim. Fascinado por tetralogias, resolvo que algumas músicas têm mais sentido se juntas. Então, percebo que o álbum da Joss Stone (Mind, body and soul) está para a música de The Killers (Bones) assim como o verde está para o amarelo. Dá-se origem ao que segue. Carne, vida, mente, ossos. Início, meio, meio, fim. Nessa (des)ordem. (NOT!)

Eu não sei, ela disse, inocente. Eu não sei, indiferente. E taxativa: eu não sei.

Negou Jesus por três vezes, huh?, eu retruquei, meio que de lado de boca, enquanto ela – como? – me perguntava direta. Comoéqueé?

Nada, foi o que eu repliquei. Nada não.

Agora fala, não falo, fala, ok eu falo não me interrompa você é nova demais pra isso ficar me interrompendo assim não conhece a autoridade não, não.

Silêncio sepulcral. Por um minuto.

Ok comece, ok começo. Ela tímida: É uma estrada sem saída (We took a back road / we’re gonna look at the stars / we took a back road in my car). Eu atabalhoado.

Eu. Queria dizer muita coisa. Não pergunta como chegamos nisso. Não pergunta nada. Não convém saber o que não se pode (saber). Não convém buscar respostas. Eu nem tenho uma pergunta, você sabe. Eu tinha muito a falar. Mas, merda, a garganta é seca. Você me fala em autoajuda e eu, em redenção. Você discute a madrugada. Eu vivo em dias, afoito em dias. Você me diz quer-ser e eu hein? A gente nem é uma coisa. Nem é um algo. A gente não é nada disso que você pensa, se é que você pensa em alguma coisa. Eu ouço música indie e você se pergunta que tipo de música índio ouve. Você enfia pop goela abaixo e se sente feliz. Feliz, entende? Calaboca quinda não terminei. Eu não te acho inocente assim. Te acho esperta, mais que eu que sou velho. Isso porque sei que meu destino está selado desde o início, tristeza adentro. Cabe a você entender e aceitar. É que me sinto como num mar agitado, vindo onda forte atrás de onda forte, tomando caixotes um por um. Você é a onda. E eu estou completamente apaixonado por você.

A última frase saiu rápida. Mortal. Ele não esperava que saísse. Ela esperou a vida toda para não ouvi-la. Ele não queria complicação. Ela não queria complicação. A cinematic vision ensued like the holiest dream and someone called it: an angel whispers my name, but the message relayed is the same – wait ‘til tomorrow, you’ll be fine (but it’s gone to the dogs in my mind). Por isso, ela tirou o ridículo da situação:

*REFRÃO*

******

Published in: on 21 de novembro de 2009 at 22:45  Comments (4)  

Vida fácil

(“Vem depois esse silêncio/Como o som de um paraíso infernal/No gozo que vem com um grito de dor/Copacabana sabe até falar de amor” – Cabaret / Copacabana Full Time)

Faz umas duas semanas que estive em Copacabana.

Deixei uma amiga em casa. Entrei com ela num prédio qualquer da Princesa Isabel, número qualquer, apartamento qualquer um. Nos corredores vazios, montes de tapetes pendurados nas portas dos apartamentos cheios. Tudo lotado. Um cheiro acre de perfume barato e colônia de alfazema forte coloriam o ambiente cinza paredes cinzas portas cinzas seres monocromáticos da fauna de Copacabana.

Aí peguei o elevador para descer. Apertei o botão e fiquei esperando esperando esp…

Aparece uma mulher de botas altas pretas, saia muito justa jeans, casaco desbotado bem aberto sobreposto à camisa carmim-vivo. Boca vermelha, pele branca. Cabelos loiros fakes. Tons fakes. Vida real.

Saiu atabalhoada, me atropelando timidamente na passagem, aqui não é o térreo? O ascensorista-porteiro, um senhor que aparentava pouco menos que um egípcio cleopátrico (num neologismo que só Copacabana permite), ria com dentes pouco firmes, e dizia não, a senhora desceu no quarto andar. Dei licença e a mulher voltou sorrindo para dentro do elevador. O velho também ria. Ri, sem saída.

Enquanto o elevador descia, resolveu aquela mulher de lábios carmim me perguntar sobre a noite. Tão cedo… Pra onde vai?, numa conversa mole mole. Vou embora. Tô indo pra casa. Não! Mas ainda são o quê? que horas são, seu Paulo? três horas ainda? E o gatinho já vai pra casa?…

É, trabalho cedo amanhã. Não, por que não fica mais um pouco?

“Ficar aonde?” Cabeça atordoada, cansada, rindo da mulher que ainda àquela hora oferecia companhia.

Chegou o andar e ela resolveu tocar meu ombro. Vai pra onde?

Meu ônibus ficava na rua do outro lado da calçada. Ah, mas eu vou pra direita, insistiu, numa numa quase-súplica angustiada. Além do mais, pra você atravessar, tem que vir comigo até a esquina.

Eu sabia que poderia ter virado à esquerda, e ter atravessado pelo outro lado, mas resolvi acompanhá-la.

Não sabia o que dizer. Estava trancado, tímido, mas ela estava disposta a propor. Propôs que eu a acompanhasse até o outro lado, que a noite ainda era nova. Contou que estava cansada, mas que queria finalmente descansar. Disse que estava a fim de sair dali, muito rápido, como se o “até a esquina” fosse um período entre o nada e o fim de sua vida. E contou que não cobrava muito.

Não ouvi o quanto ela cobrava. Chegamos à esquina e dei um tchau trancado, tímido, sem graça. Ela me olhou com pena. Por ela. Estou ficando velha e sem dinheiro. Agradeceu a companhia, atravessou a Nossa Senhora correndo de um carro que vinha acelerado. Não olhou pra trás.

Não olhou e me deixou pensando no quanto as noites frias de Copacabana podem ser solitárias e tristes muitas vezes.

Published in: on 28 de junho de 2009 at 14:37  Comments (4)  

Poesia militante

Anotou rápido num papel com caneta emprestada de outro que precisava escrever uma música em inglês que nem Os Mutantes naquela versão da música do Caê “Baby” em que eles diziam que “você tem que aprender inglês” em inglês e por causa disso virava “você precisa aprender português” mais ou menos “it’s time now to learn portuguese”. Metido que era, fez. Arrependeu-se.

Six degrees

I look through — don’t mind the bollocks, what a cliché!
I look through (insistently) – and beyond,
where there’s nothing but a beer from Cochabamba,
a butter flies out, incredibly,
milkly above the Milk Way.
Unreal.
Surreal-Dalí.
Clearly they want to steal (stolen) my mind.
In case of “freeze-or-I’ll-shoot”-“life-and(or?)-death” manners,
don’t think: feel the breeze.
Let it flow/blow/grow
show yourself! Out of the room!
Surrender to the spirit of NOT-freedom. Vote for NOT. (Always)
(And alone came the spider…)
Neologism. Cage of neologism. Life-taker bird.
Pure disaster. Delight of Destruction (sorry, Gaiman).
Precious loving true hearts. Both of them.
Both of us. (What a cliché.)
I look for nothing.
Yet…

E não conseguiu pens–

Published in: on 29 de maio de 2009 at 02:14  Comments (6)  

Longa noite no aeroporto (ouvindo ‘The Fallen’, do Franz Ferdinand, no disco ‘You Could Have Done It So Much Better’)

            A cena era boçal.

            “A máquina de doces é minha amiga”, sussurrava, enquanto esperava o chocolate.

            Pegara o último trem para Orly porque o voo sairia cedo. Ou era o que dizia. Na verdade, gastara o dinheiro da última noite com bebedeiras sensacionais, por que não?, e aportou no aeroporto de mala e cuia. Mas só mala e cuia. Sem um puto.

            No balcão de informações, o francês falou-lhe em inglês que tudo bem, ele poderia passar a noite ali, desde que o bonitão se comportasse. Ele só falava espanhol, não entendeu porra nenhuma e resolveu sorrir sem graça para a piscadela marota do funcionário-viagra.

            Não houve outras investidas, a despeito de curiosidades.

            Vasculhou a mochila, mas só tinha o Hemingway, que roubara na livraria em Paris (“pra não perder o costume”). Também não lia francês. “Merde!” Entediado, partiu a demarcar o território aeroportuário.

            Entrou na administração, vazia já àquela hora, como o resto, mas as portas internas estavam trancadas. Lá dentro, pela porta de vidro, viu só a tia da limpeza. Aliás, a tia da limpeza parecia-se com uma outra, essa tia mesmo, portuguesa, gorda e com bigodes latejantes. Ele prometeu a si mesmo não troçar da mulher. Não falava francês.

            Correu ao banheiro. Ah, aquilo sim era respirar a liberté francesa. Todo o mármore, todo o espelho, todos os mictórios escritos Valadares eram dele. Sentiu-se indomável. Arrancou a roupa (mas arrancou mesmo, de rasgá-la em pedaços) para demonstrar poder.

Permitiu o delírio de Amsterdã chegar mais tarde começou a dançar uma dança esquisita repleta de gritos tribais. Alto. Deixando toda a barriga agitar-se livre, tirou a cueca (por fim, o que sobrara) e rodou-a por sobre a cabeça. “Liberdade! Liberdade!” Indisciplina pura, deixou-se balançar à vontade. This fire is outta control…

A tia da limpeza não entrou, apesar do bigode, mas chamou seu comparsa-da-vassoura para investigar os ruídos misteriosos do aeroporto vazio. O homem, de bigode menos farto que o da mulher, não se furtou o espanto. Mas quando o nu avançou descontrolado, fingindo demência – JE SUIS NAPOLEON BONAPARTE! –, saiu assustado gritando Jesus Maria e José, e disse para a mulher-barbada que era caso de internação.

Voltou a vestir a calça e fingiu que nem era com ele. Calçou as luvas, encapuzou-se, e saiu como novo do outro lado, diante dos bigodes assustados. “Cada louco por aí”, disse em português mesmo, e virou a esquina.

Os funcionários entreolharam-se, sacudiram-se, fizeram duas preces e saíram de fino.

Quando deu fome, achou doces. Ali estavam as maravilhas do mundo moderno, sim senhor. Quem liga para a diabete se se pode viver num mundo de máquinas chocolates? Como se ligasse o fuck up, sacou da carteira os últimos centavos para uma delícia de… qual o número dessa zica mesmo?

Cuidadosamente, aplicou o primeiro euro. Gostosura de som, moeda tilintando por toda a máquina, descendo até… mas que porra. Travou. Uma batida fraca, seguida de duas mais fortes e uma outra realmente potente mostraram-se ineficientes. “Vá lá, jogo uma segunda e a gravidade age pelo resto.” Gostosura de som, moeda tilint. Os clins tornaram-se clec e mais nada.

Gritou e sacudiu e balançou e o diabo, mas nem mais um clin que fosse.

Os bigodes gozavam a cada nova investida. Aquilo já era pessoal. Ele, por sua vez, não desistia. Malditos franceses que nem faziam máquinas direito.

A cena abre de um superclose a um plano geral. Revela um campo, ele, a máquina, e os dois soldados de bigodes estranhos.

“A máquina de doces é minha amiga.”

Não era. E ele era piromaníaco.

Difícil mesmo foi explicar isso tudo a Robespierre depois. O ano era 1795.

Published in: on 11 de abril de 2009 at 00:13  Comments (3)  

Longa noite no aeroporto (ouvindo ‘Hope There’s Someone’, do Anthony & The Johnsons, no disco ‘I Am A Bird Now’)

O aeroporto vazio não respirava. Era oco, solitário. Eu era o aeroporto.

Na viagem, questionei todo o resto. Agora, o resto questiona o que eu fiz. O que eu faço. Deixo a mala no hall ao lado da cabeça e ligo o mp3 sem bateria. Sem bateria, tsc. Como se jogasse contra, o tempo faz sua parte. Nada de ansiedade, nervosismo, aflição. Nada. Só a calma do aeroporto absolutamente vazio.

A faxineira passa um pano sobre a cadeira em que me ajeitava para dormir. Levanto, peço pardon. Ela murmura em francês que não tem problema. Eu não entendo francês. Ela sai, sem graça. Eu fico sem graça. O resto se vinga. Inútil dormir. Merda de bateria sem carga.

Caminho por ali mesmo e alguns ainda saem do trabalho. A Air France foi a última a fechar o guichê. A mim, agora, longe, só me resta a lembrança daqueles rostos cansados. Rostos de aeroporto. E me recordo de que eu sou o aeroporto. (Não sai da cabeça.)

Não posso dormir nem lembrar. Dormir é impossível. Lembrar é doloroso. E daí a cabeça justifica: pra que a viagem, então, se não pela memória? Mas memória não é lembrança. Memória é o que persiste. Memória ensina. Lembrança é diferente.

Lembrança é ferida que não cicatriza nunca.

Comigo, só trago lembranças de Paris – o maldito resto, o que fica. Nenhuma memória, nenhum acaso. Nada que possa ser contado em rodas de histórias – com exceção de duas ou três graças que invento pra me divertir. De resto, Paris é carne-viva dentro e fora, na pele, nos ossos e no peito inflamado.

Resolvo ligar pro Brasil, ninguém me atende. Tento qualquer outro – preciso dizer que tenho saudades. Não sei do que tenho saudades – se de ir ou de ficar. No meu cartão de telefone, sobram quatro euros em ligações e um mundo de tristeza que não caberiam em metade do que já disse Iracema na América. Uma tristeza doída.

Agora, eu sou o aeroporto. Eu sou o trânsito de um não-lugar, de uma imparcialidade. Não sou germânico, anglicista ou brasileiro. Sou um aeroporto. Vazio, sem aviões. Amanhã de manhã é outra história, pode ser outro conto. Amanhã de manhã, aviões, cheiro de café e barulhos de sapatos apressados passarão sobre mim como se a noite vazia nunca tivesse existido.

Termino meu caminho por Orly. Sento-me de novo. A faxineira não está mais lá. Só minha mala. Acabo olhando para a pista, justo onde havia começado. Olho pelo vidro e ardo. A música do mp3 sem bateria é alta, então abaixo o som mecanicamente. Tudo o que foi fica em mim. Tudo o que está fica em mim. Sou tudo o que é. Desço os joelhos ao chão e sangro o que vivi. O aeroporto inunda, porque chove lá fora.

Até amanhã de manhã eu sou o aeroporto. De lá, os outros podem contar todo o resto.

Published in: on 3 de março de 2009 at 22:08  Comments (2)