Poema caricatural e mal-feito a partir da reflexão sobre a poesia inspirada pela releitura de Breves Cantares de Nós Dois


Um poeta suburbano
Mentoou estes cantares
Que canto com cortisia,
Cortisona e brevidades
(Não nego minhas origens,
Sou cantador de cidades)
Pra falar de repitidas
Rotinas, trivialidades.


(Sem ritimessem compasso
‘metendo barbaridade
Pra caber tudo tinindo
No espaço diú’a saudade
Que sinto crescer no peito
Por tantarbitrariedade
Quencontrei nesse mau mundo
De meu deus nossossenhor –
Chega desafina a rima
Diante total pavor
Dos is ficarem sem pingo
Do diabo ser tentador
De se perder dentro em si
Por total falta diamor.)


Mas me perco em desatino
Como é comum de pensar:
“Poeta serve pra nada
Que não pra falar de mar” –
E mar é onda que bate
E onda é mal de matar
E morre tudo afogado
Em porto de não-chegar.


“Poeta fala do óbvio” –
Seguem a tagarelar –
“Complicam tudo qué fácil
Só pra não se desmudar
E dizer que era mais claro
Mais viver que atormentar
Coesse monte de palavra
As coisas de seu lugar:
Comida que vai na boca
Pros pulmões vai todo ar
Chinelo pro pé cansado
E o amor, pra outro lar.
Os poeta muda tudo
Só pra não ter dencarar
Que o amor é mole mole:
É só questão de se amar.”


O que eles não entende
É que amar vem de há-mar;
Que as onda que bate fora
Bate dentro sem notar
E que amor não é tão simples
É porto de não-chegar.
(Repito de verso antes
Sem tentar nem disfarçar
Que tem dito que é redito
Pelo ato de contar
E nem assim gente aprende:
Não sabe diferençar.
Fica o dito por não-dito
É melhor que não rimar.)


Eu não sou pobre ou roceiro
Mas me permito imitar
Com toda pompa e respeito
Os cantos do ser tão-mar
Que uso pras tais toadas
E por puro acreditar
Que sabem mais do que eu
Das coisas de céu e ar.


(E se deus existe mesmo
É n’ato de poemar
Sangue veia pulso vida
Pra todo amar que há-mar
Que desconheço de vista
Mas conheço douvir falar
De poemas tão melhores
Sobre que arrisquei cantar
Em sete estrofes malfeitas
Mas puras de soberbar.
Se não fui muito gostado
É melhor só me culpar
Que cantor não há pior
Que o que não sabe parar
Que tem cabeça nas nuvens
E o corpo noutro lugar.
Mas não é cantor quem diz
Que é outro o seu cantar:
Poeta fala de amor
Quantas vezes precisar
Até neguim aprender
Que é doce morrer no mar…)

Published in: on 19 de novembro de 2011 at 01:22  Comments (1)  

Tempestade

Creio que, a essa altura, vocês já devem ter lido neste texto do Protótipo o que acontecerá em muitas postagens, a partir de agora. Se ainda não o fizeram, tenham a gentileza, antes de seguir adiante com a leitura, s’il vou plaît.

Se tudo der razoavelmente certo – embora me seja impossível prever o tempo que cada um dedica ao ato em si –, a peça musical a seguir terá alguns fortuitos diálogos com a texto. Tudo sorte, claro. Só não se apressem. Aproveitem o som, sua explicação, as descrições. Deem o play logo de início, esperem começar a canção e— bem, encontrem suas próprias coincidências.

Ah, claro! Aceito as próximas sugestões nos comentários. Sintam-se à vontade.

Deadman’s Gun é composição da banda independente Ashtar Command. Tornou-se mais conhecida como parte do game Red Dead Redemption. Para traduzir: em linhas gerais, o jogo se passa em 1911, no apagar das luzes da Corrida para o Oeste americano, e narra a cinematográfica história de John Marston, ex-foragido, que trocou o crime por uma vida na fazenda, ao lado de sua família. Seria singela, trivial até, se esta não fosse uma história sobre o passado. Mas o é. E o passado, como se sabe, costuma cobrar caro suas dívidas…

Às doze em ponto, subiu a escada. Sol a pino. Areava sob seus pés a pedra seca; a cabeça atrás, em outras paragens, em outras muitas paisagens por que já passara. Estava cansado.

“Eu tenho o hábito de não falar muito o que penso. Mas penso muito.” Era o peso das costas que lhe pedia que contasse, afoito, as excentricidades que lhe vinham à cabeça aos que estavam à sua volta. Na subida, enquanto ensaiava os contares, arfava; e a escada alcançava seu patamar mais alto. Ajustou o corselete ao peito, e então a espada à bainha. Não sabia por que carregava a espada, mas imaginava. Não sabia o caminho que percorria, mas o caminhava. Era o que deveria ser feito.

No alto da escada montanhosa, à direita, a trilha seguia ao infinito. Eram obscuros e nunca traçados passos a lembranças de histórias de ninar: levava a bosques e reinações de outrora; outra época que não fazia sentido. Olhava à direita e via o desconcerto: era tudo um borrão, uma aglomeração de passados. (Ali não poderia ser o adiante. Era o retorno, o atrás, o que ficou. Seus pertences. Memória.)

À esquerda, o caminho se bifurcava em muitos outros; tantos, que não se os distinguiam. Eram repletos: de gritos, de lamentos, de vazios. Também de gracejos, de boas risadas. Estranhamente, porém, deixava-se inundar pelas tristezas; fraquejou; arqueou as pernas; ajoelhou-se. Não, não era memória. Era o que ficava, o que deixava pra trás. As lutas que travara. As lutas que perdera. Todas. (Então aquele também não era o caminho que fazia avançar.)

Avançar. Parecia-lhe ora desnecessário pensar em “ir à frente”. Mas era demasiado humano para saber que precisava das metáforas. Aquela alegoria era, talvez, bonita; gostava da espada, que dava um ar caricatural à coisa toda – a imaginação, mais que a lembrança, regia o momento como a uma orquestra magnífica; não poderia imaginar melhor. A espada; afinal, uma arma que poderia usar em batalhas; era o guerreiro já agora. Sentia-se forte. E era nela que, como num cajado, apoiava-se para erguer os joelhos do chão. (Gostava de como a cabeça contornava os ultrajes que o corpo impunha. Imaginar.)

O adiante era à frente. Caminhada longa sobre areia e grama. Olhava o chão: antes, desatento; mas enfim com curiosidade que o fez perceber: seguia pegadas. Alguém já estivera ali antes. Não demorou a notar que os passos eram como os seus próprios. Pés maiores, mas menos firmes; traçavam a direção. “Em direção à tempestade? Que seja.” Não se sentia particularmente corajoso. Sentia-se cansado, como já o havíamos visto. Dera seu próprio sangue aos demônios que o consumiam; e duas moedas para o barqueiro. Mas isso, antes desta última etapa. O que descobriu, involuntariamente: que aqueles passos eram seus. Não de agora, que era a primeira vez que conhecia aquela trilha. Mas de depois. Ali, quando tempo não importava. Eram seus e de seu pai. Seu pai de antes. De menino. A mesma pisada.

“À tempestade.” (Já sentia os pingos no rosto; limpava-os por puro hábito; sentia-se limpo e disposto. Ajustou o corselete mais uma vez. Tocou a espada. Queria ter levado um chapéu.)

Na última e (talvez) primeira vez em que se percebeu homem, não viu luz, deus, nada; era só sua sombra que adentrava uma nuvem espessa, densa, num caminho que se percorre sozinho.

A despeito de tudo, não teve medo. Morrer era só um inevitável passo. A nuvem o abraçou com seus infinitos braços e ele não sentiu mais frio.

Published in: on 14 de novembro de 2011 at 23:13  Comments (8)