Longa noite no aeroporto (ouvindo ‘Hope There’s Someone’, do Anthony & The Johnsons, no disco ‘I Am A Bird Now’)

O aeroporto vazio não respirava. Era oco, solitário. Eu era o aeroporto.

Na viagem, questionei todo o resto. Agora, o resto questiona o que eu fiz. O que eu faço. Deixo a mala no hall ao lado da cabeça e ligo o mp3 sem bateria. Sem bateria, tsc. Como se jogasse contra, o tempo faz sua parte. Nada de ansiedade, nervosismo, aflição. Nada. Só a calma do aeroporto absolutamente vazio.

A faxineira passa um pano sobre a cadeira em que me ajeitava para dormir. Levanto, peço pardon. Ela murmura em francês que não tem problema. Eu não entendo francês. Ela sai, sem graça. Eu fico sem graça. O resto se vinga. Inútil dormir. Merda de bateria sem carga.

Caminho por ali mesmo e alguns ainda saem do trabalho. A Air France foi a última a fechar o guichê. A mim, agora, longe, só me resta a lembrança daqueles rostos cansados. Rostos de aeroporto. E me recordo de que eu sou o aeroporto. (Não sai da cabeça.)

Não posso dormir nem lembrar. Dormir é impossível. Lembrar é doloroso. E daí a cabeça justifica: pra que a viagem, então, se não pela memória? Mas memória não é lembrança. Memória é o que persiste. Memória ensina. Lembrança é diferente.

Lembrança é ferida que não cicatriza nunca.

Comigo, só trago lembranças de Paris – o maldito resto, o que fica. Nenhuma memória, nenhum acaso. Nada que possa ser contado em rodas de histórias – com exceção de duas ou três graças que invento pra me divertir. De resto, Paris é carne-viva dentro e fora, na pele, nos ossos e no peito inflamado.

Resolvo ligar pro Brasil, ninguém me atende. Tento qualquer outro – preciso dizer que tenho saudades. Não sei do que tenho saudades – se de ir ou de ficar. No meu cartão de telefone, sobram quatro euros em ligações e um mundo de tristeza que não caberiam em metade do que já disse Iracema na América. Uma tristeza doída.

Agora, eu sou o aeroporto. Eu sou o trânsito de um não-lugar, de uma imparcialidade. Não sou germânico, anglicista ou brasileiro. Sou um aeroporto. Vazio, sem aviões. Amanhã de manhã é outra história, pode ser outro conto. Amanhã de manhã, aviões, cheiro de café e barulhos de sapatos apressados passarão sobre mim como se a noite vazia nunca tivesse existido.

Termino meu caminho por Orly. Sento-me de novo. A faxineira não está mais lá. Só minha mala. Acabo olhando para a pista, justo onde havia começado. Olho pelo vidro e ardo. A música do mp3 sem bateria é alta, então abaixo o som mecanicamente. Tudo o que foi fica em mim. Tudo o que está fica em mim. Sou tudo o que é. Desço os joelhos ao chão e sangro o que vivi. O aeroporto inunda, porque chove lá fora.

Até amanhã de manhã eu sou o aeroporto. De lá, os outros podem contar todo o resto.

Published in: on 3 de março de 2009 at 22:08  Comments (2)  

Exercício (ou Prólogo aos textos ‘Longa noite no aeroporto’)

             Tem um contexto. Deixa eu explicar.

            Imagina a cena: foi a viagem mais fantástica. Daquelas que não há Beatriz que mostre caminho melhor (e peço desculpas a Dante). Daí que o final é logicamente triste.

            Primeiro, porque você deixa coisas pra trás. Tudo. E o coração.

            Segundo, porque seu avião sai às cinco da manhã, então nem pode pensar em dormir no albergue, porque não vai ter trem antes das seis e você não tem mais dinheiro pro táxi (a corrida é longa). Saída? Dormir no aeroporto.

(Como se fosse uma opção…)

            Até poderia ser divertido, se fosse o JFK ou o Charles de Gaulle (se em Paris, aja como romanos… ou será o contrário?). São grandes. Estão sempre abertos. Sempre um café, sempre uma livraria. Mas não era.

Era o Orly. Que fechava lá pelas onze, logo depois de deixarem um último passageiro do voo noturno assistir ao amistoso oxo entre França e Alemanha.

            Como o último trem chegava ao aeroporto por volta das dez da noite, não tive outra saída. Das dez às cinco e meia, seria um longo tempo. Então resolvi beber da noite, porque não queria a ressaca do fim da festa. Li Hemingway. Acabei O Velho E O Mar em umas duas horas. Faltava o resto.

            Resolvi ouvir dois discos que eram, para mim, toda a Europa. Daí veio a ideia do exercício. A noite não precisava ser triste. Ou não necessariamente.

            Os textos são esses próximos. A mesma noite em duas vistas. A minha e a minha outra. Pode não ser grande coisa. Mas o som é bom.

Published in: on 3 de março de 2009 at 22:01  Deixe um comentário