Poema caricatural e mal-feito a partir da reflexão sobre a poesia inspirada pela releitura de Breves Cantares de Nós Dois


Um poeta suburbano
Mentoou estes cantares
Que canto com cortisia,
Cortisona e brevidades
(Não nego minhas origens,
Sou cantador de cidades)
Pra falar de repitidas
Rotinas, trivialidades.


(Sem ritimessem compasso
‘metendo barbaridade
Pra caber tudo tinindo
No espaço diú’a saudade
Que sinto crescer no peito
Por tantarbitrariedade
Quencontrei nesse mau mundo
De meu deus nossossenhor –
Chega desafina a rima
Diante total pavor
Dos is ficarem sem pingo
Do diabo ser tentador
De se perder dentro em si
Por total falta diamor.)


Mas me perco em desatino
Como é comum de pensar:
“Poeta serve pra nada
Que não pra falar de mar” –
E mar é onda que bate
E onda é mal de matar
E morre tudo afogado
Em porto de não-chegar.


“Poeta fala do óbvio” –
Seguem a tagarelar –
“Complicam tudo qué fácil
Só pra não se desmudar
E dizer que era mais claro
Mais viver que atormentar
Coesse monte de palavra
As coisas de seu lugar:
Comida que vai na boca
Pros pulmões vai todo ar
Chinelo pro pé cansado
E o amor, pra outro lar.
Os poeta muda tudo
Só pra não ter dencarar
Que o amor é mole mole:
É só questão de se amar.”


O que eles não entende
É que amar vem de há-mar;
Que as onda que bate fora
Bate dentro sem notar
E que amor não é tão simples
É porto de não-chegar.
(Repito de verso antes
Sem tentar nem disfarçar
Que tem dito que é redito
Pelo ato de contar
E nem assim gente aprende:
Não sabe diferençar.
Fica o dito por não-dito
É melhor que não rimar.)


Eu não sou pobre ou roceiro
Mas me permito imitar
Com toda pompa e respeito
Os cantos do ser tão-mar
Que uso pras tais toadas
E por puro acreditar
Que sabem mais do que eu
Das coisas de céu e ar.


(E se deus existe mesmo
É n’ato de poemar
Sangue veia pulso vida
Pra todo amar que há-mar
Que desconheço de vista
Mas conheço douvir falar
De poemas tão melhores
Sobre que arrisquei cantar
Em sete estrofes malfeitas
Mas puras de soberbar.
Se não fui muito gostado
É melhor só me culpar
Que cantor não há pior
Que o que não sabe parar
Que tem cabeça nas nuvens
E o corpo noutro lugar.
Mas não é cantor quem diz
Que é outro o seu cantar:
Poeta fala de amor
Quantas vezes precisar
Até neguim aprender
Que é doce morrer no mar…)

Published in: on 19 de novembro de 2011 at 01:22  Comments (1)  

Tempestade

Creio que, a essa altura, vocês já devem ter lido neste texto do Protótipo o que acontecerá em muitas postagens, a partir de agora. Se ainda não o fizeram, tenham a gentileza, antes de seguir adiante com a leitura, s’il vou plaît.

Se tudo der razoavelmente certo – embora me seja impossível prever o tempo que cada um dedica ao ato em si –, a peça musical a seguir terá alguns fortuitos diálogos com a texto. Tudo sorte, claro. Só não se apressem. Aproveitem o som, sua explicação, as descrições. Deem o play logo de início, esperem começar a canção e— bem, encontrem suas próprias coincidências.

Ah, claro! Aceito as próximas sugestões nos comentários. Sintam-se à vontade.

Deadman’s Gun é composição da banda independente Ashtar Command. Tornou-se mais conhecida como parte do game Red Dead Redemption. Para traduzir: em linhas gerais, o jogo se passa em 1911, no apagar das luzes da Corrida para o Oeste americano, e narra a cinematográfica história de John Marston, ex-foragido, que trocou o crime por uma vida na fazenda, ao lado de sua família. Seria singela, trivial até, se esta não fosse uma história sobre o passado. Mas o é. E o passado, como se sabe, costuma cobrar caro suas dívidas…

Às doze em ponto, subiu a escada. Sol a pino. Areava sob seus pés a pedra seca; a cabeça atrás, em outras paragens, em outras muitas paisagens por que já passara. Estava cansado.

“Eu tenho o hábito de não falar muito o que penso. Mas penso muito.” Era o peso das costas que lhe pedia que contasse, afoito, as excentricidades que lhe vinham à cabeça aos que estavam à sua volta. Na subida, enquanto ensaiava os contares, arfava; e a escada alcançava seu patamar mais alto. Ajustou o corselete ao peito, e então a espada à bainha. Não sabia por que carregava a espada, mas imaginava. Não sabia o caminho que percorria, mas o caminhava. Era o que deveria ser feito.

No alto da escada montanhosa, à direita, a trilha seguia ao infinito. Eram obscuros e nunca traçados passos a lembranças de histórias de ninar: levava a bosques e reinações de outrora; outra época que não fazia sentido. Olhava à direita e via o desconcerto: era tudo um borrão, uma aglomeração de passados. (Ali não poderia ser o adiante. Era o retorno, o atrás, o que ficou. Seus pertences. Memória.)

À esquerda, o caminho se bifurcava em muitos outros; tantos, que não se os distinguiam. Eram repletos: de gritos, de lamentos, de vazios. Também de gracejos, de boas risadas. Estranhamente, porém, deixava-se inundar pelas tristezas; fraquejou; arqueou as pernas; ajoelhou-se. Não, não era memória. Era o que ficava, o que deixava pra trás. As lutas que travara. As lutas que perdera. Todas. (Então aquele também não era o caminho que fazia avançar.)

Avançar. Parecia-lhe ora desnecessário pensar em “ir à frente”. Mas era demasiado humano para saber que precisava das metáforas. Aquela alegoria era, talvez, bonita; gostava da espada, que dava um ar caricatural à coisa toda – a imaginação, mais que a lembrança, regia o momento como a uma orquestra magnífica; não poderia imaginar melhor. A espada; afinal, uma arma que poderia usar em batalhas; era o guerreiro já agora. Sentia-se forte. E era nela que, como num cajado, apoiava-se para erguer os joelhos do chão. (Gostava de como a cabeça contornava os ultrajes que o corpo impunha. Imaginar.)

O adiante era à frente. Caminhada longa sobre areia e grama. Olhava o chão: antes, desatento; mas enfim com curiosidade que o fez perceber: seguia pegadas. Alguém já estivera ali antes. Não demorou a notar que os passos eram como os seus próprios. Pés maiores, mas menos firmes; traçavam a direção. “Em direção à tempestade? Que seja.” Não se sentia particularmente corajoso. Sentia-se cansado, como já o havíamos visto. Dera seu próprio sangue aos demônios que o consumiam; e duas moedas para o barqueiro. Mas isso, antes desta última etapa. O que descobriu, involuntariamente: que aqueles passos eram seus. Não de agora, que era a primeira vez que conhecia aquela trilha. Mas de depois. Ali, quando tempo não importava. Eram seus e de seu pai. Seu pai de antes. De menino. A mesma pisada.

“À tempestade.” (Já sentia os pingos no rosto; limpava-os por puro hábito; sentia-se limpo e disposto. Ajustou o corselete mais uma vez. Tocou a espada. Queria ter levado um chapéu.)

Na última e (talvez) primeira vez em que se percebeu homem, não viu luz, deus, nada; era só sua sombra que adentrava uma nuvem espessa, densa, num caminho que se percorre sozinho.

A despeito de tudo, não teve medo. Morrer era só um inevitável passo. A nuvem o abraçou com seus infinitos braços e ele não sentiu mais frio.

Published in: on 14 de novembro de 2011 at 23:13  Comments (8)  

As mulheres que já amei pra sempre II – A que me fez um verso bonito mas não era poetisa

, que infelicidade a gente toma de qualquer jeito, a pílulas ou conta-gotas. Tem barro demais embaixo dos sapatos, e isso já dá até pra contar uma história, não bonita nem triste nem nada sobre como aquilo tudo fora parar ali. Diga-se não muito. Que é pro leitor não cansar e não perder o foco da graça solta da coisa toda. Mas diga-se uma anedota engraçadinha pra bastar no contrapeso da balança.

Antes, era daquelas pra quem olhava e já sabia antecipar-lhe o gosto da boca. Os sabores diziam tudo ou quase sobre seus desejos: antidesejos. Realizava-os molemente, malemolente, a seu tempo.

Depois, era daquelas que descobria aos poucos, e a quem cobria de novo com um véu de solenidades para mascarar-lhe os perfumes. E redescobri-los uma vez mais. Era um jogo que ambos jogavam com gosto e com riso. E com pranteares, mais tarde. Como ele já sabia, mas não revelava. Como ele já sabia.

Ele sabia de tudo, eu poderia dizer, como numa peça sem público, um verdadeiro fracasso, que se ensaia muito apenas – apenas – para o êxtase e as alegrias do próprio ator. Os passos e os erros e os acertos e como aquela história toda se juntaria a metáforas de barros e sapatos ele sabia. Sabia, porque traçara roteiros semelhantes. O final era sempre antiapoteótico, dir-se-ia um pastiche. Um tango. Um romance do Puig.

Boquitas pintadas – era o que pensava – e lá estava ela de novo, já arrumada. Foi quando (ela) poemou-se-lhe a fazer versos carinhosos assim do nada.


rezo aos anjos

e a um deus piedoso

que o barco atravesse o rio

que o rio corra ao mar

que o mar se atulhe e vaze

em ondas, sortes, azares

como ordenam o curso dos desígnios


e a vida


Ele acariciou-a com os lábios molhados e pediu mais um verso. Ela então disse-lhe


é a vida.


Tocou o telefone e ele deixou tocar. Não era nada, ele dizia. A vida é meu momento é meu momento é meu momento aqui. Negou os tais desígnios, mas soube-se inapelavelmente preso a eles. Essa história de destino que esperasse. Os barros para o sapato, as metáforas, ao diabo com as metáforas – elas que esperassem.

Era ali, só, feliz. Sem saber. Que felicidade não se sabe nunca. E por isso, talvez, fosse.

E era questão de tempo até que, por fim ou finalidade,

Published in: on 5 de junho de 2011 at 22:34  Comments (11)  

Ano Novo

É pau, é pedra. Mas tá longe de ser o fim do caminho.

De mais a mais, tudo é a travessia, como diria o Rosa. E travessia é caminho que se marca com o pé descalço, pé cascudo, pé-que-não-se-guenta-mais (pelo amor de deus). Caminho construído de pegada – daquela que a gente deixa n’areia e daquela que a gente pega-e-não-larga, pegada pelo cabelo, pela cintura do corpo da moça que dança dança fogosa, escorrega, beija bem e deixa saudade.

(A vida é de deixar saudade…)

Saudade de tudo no caminho. Do que veio, do que é. Nesse sentimento inquieto, indecente, que faz vazar água dos olhos e o peito deixa cheio de vazio. Vontade de sentir de novo, de voltar a ser, de lembrar “foi bom”. Sem mas. Sem circuntâncias adversativas ou concessivas. Sem adjuntos entre sujeito e verbo, entre o eu e o ser. Eu sou, eu vivo, eu agora. Eu já – imperativo do verbo caminho.

Eu já. Um-do-la-si. Como quando a gente era pequeno, lembra? Como quando a vida não era preocupar e a gente só ria da palavra pum. A única ocupação era a bola. A única atitude era o sim. A única verdade era a que a gente não sabia. Caminho de espinhos no dedo, farpa, arranhão. Caminho de café, cheiro de chuva: nostalgia. Caminho difícil. Caminho bom como fruta madura.

Negócio de maturidade é que mata. Novo demais pra vida, velho demais pro resto. Café-colégio, almoço-cursinho, café-estuda, lanchinho-dorme. E tome gravata, né, Vinicius? A moça fogosa volta a dançar na sua frente, e você mal tem tempo de chegar junto, de tentar a cantada infalível e conquistá-la de vez. Você observa, espera, torce pra que ela não suma num relance. Ela some. Invariavelmente, ela some.

(E você continua a busca pela boca perfeita, pelos olhos pra-sempre, pelo sorriso que ela deixou estampado como tatuagem.)

À sua frente, o desconhecido e a vontade de que pelo menos seja bom.

Daí o medo do devir, do vir-a-ser, e a saudade estranha do futuro. Saudade que dá não-sei-por-quê (não perguntem, também estou aprendendo…), entre alvoradas, depois de uma noite mal dormida e bem vivida, uma dessas noites pra-sempre (“pra sempre nós, pra sempre essa lua, pra sempre o que vier – ‘tamos juntos!”). Dessas noites em que a gente olha pra frente e pensa que, enfim, pode valer a pena.

No que olha pra frente, olha pra trás (sempre a ambiguidade…). E pensa que foi bom até aqui. Que valeram os passos (as pegadas). Que não foi em vão. Há a esperança.

É aí que, pela terceira vez, a moça dança à sua frente. Vem e balança, vem e abraça, vem e dá um beijo. Sussurra o nome dela em seu ouvido, baixinho, e se desvela à sua mercê: “Eu sou Vida. E agora você me tem pra sempre.”

É pau, é pedra. Mas, como já disse, não é o fim do caminho. O abraço de Vida é um começo. Um novo começo. De uma nova dança, de uma nova vontade. De muitas outras saudades. Tudo segue adiante (eu, você). Novos passos, descobertas. Novos caminhos. Seguir adiante é o que resta das nossas verdades. Com alegria, sempre. Sempre inseguro, mas confiante. Sempre com fé e força. Sempre atento à travessia.

(Mas que às vezes dói, isso não dá pra negar. E o lance é deixar doer. Foi bom. Vai ser melhor. Disso tenho certeza.)

Published in: on 18 de dezembro de 2010 at 23:21  Comments (17)  

As mulheres que já amei pra sempre I – A que gostava da Nico mas não do Lou

 

 

Here she comes, you better watch your step…


“É. Christa Päffgen. Não digo o contrário.”

“Cara, tou me metendo de birra, o papo não é meu e tá um barulho infernal aqui dentro, mas você não pode estar séria.”

Ela estava. Tinha sardas na pele branca. Loira de fios revoltosos. Ela me lembrava uma tarde lusco-fusco num parque de diversões. Com sorvete. Refletia no sorriso o que era, certo-como-dois-e-dois, os olhos mais bonitos. Muito rímel e lápis. Pretos. Atrás da pupila, uma retina branca branca, de realçar. Franja. E os olhos pretos de novo.

Foi o caminho que percorri até a boca.

“Esquece a banana do Warhol. Esquece tudo. Eles não existiriam sem Femme Fatale.”

Eu não discordava nem discordava. Balançava a cabeça e ria. Femme Fatale.

 

 

She’s going to break your heart in two, it’s true…

 

 

“Era uma profecia…”

Ela me disse isso depois de uma noite dessas que me pareciam comuns. Apertou um cigarro. Olhos pretos fixos no teto. Ventilador que girava sem função.

“Que profec–“

“Shh! Era uma profecia.”

Acho que bateu. Eu (ela) me interrompia pra se deixar levar. Eu a ouvia. Sempre fui de ouvir. A ela principalmente.

Pedi desculpa. Devia ser, eu disse sem nenhuma implicância e com algum interesse. Deve ser.

“Você duvida?”

“Não. Não duvido.”

“Ahn.” Tragou fundo. Soltou o peito lentamente, deixando-se arfar com a saída da fumaça e a entrada de ar. Era bonita.

Pegou de um caderno. “Você é o número 37. Três é o número terreno pros hindus. Quatro é o número sagrado. Sete é a soma dos dois. Você é terra.”

Isso faz de você divina. Era o que eu queria ter dito. Mas talvez não fizesse diferença.

 

 

It’s not hard to realize, just look into her false colored eyes…

 

 

“Mas não é do nada. É que não é mais.”

Eu olhava. Eram os mesmos olhos, não eram mais, eram de novo. “Só me diz que seu nome é Alice, por favor. Alice Ayres.”

Tomou meu rosto entre as mãos. Não sei se eram delas ou minhas, as lágrimas.

“Não. Não, não. Nada de disfarces pra você. Meu querido. Meu querido.”

Não me deixou perguntar por quê. Porque sim, porque preciso. Porque é.”

Mas isso tudo é um disfarce… Pra você é um disfarce. Eu que tragava o cigarro agora. Engolia fumaça. Engolia saliva.

“Você se disfarçou em mim, senhorita Jones…”

Só deu tempo de pegar seu telefone. A porta bateu em seguida.

 

She builds you up to just put you down, what a clown

 

Recebi uma mensagem no celular noite dessas, no bar.

“Watch out, the world’s behind you; there’s always someone around you who will call…”

Olhei pra trás instintivamente. Os cabelos eram pretos. Mas posso estar enganado.

Levantei pra dizer oi. Nunca sozinha. Em pé na varanda. Na mesa vazia mais ao lado, dois copos, duas bolsas.

“Você nunca foi muito do Lou.”

Fumava. Estava mais magra. Mas de novo posso estar enganado.

“Sozinha?”

“Não, não. Só fumando um cigarro. Alice foi ao banheiro.”

Alice?

Alice…

“Eu poderia rir de tudo isso, né?”

Ela riu. Poderia.

“Eu também te amo. Agora vai que te estão esperando.”

Não era um anticlímax. Era ela no que fazia de melhor.


‘Cause everybody knows the things she does to please – She’s a femme fatale

Published in: on 10 de novembro de 2010 at 22:36  Comments (6)  

Carnaval de ’07

Enquanto eu, solerte, rezava a Santa Inês que falhassem as orações em seu nome, aproveitava a vida. Saltei de um apeadeiro em Angra e entrei pela porta dos fundos, pasmo com a vista. Acoei.

Parecia uma farsa. Mas era carnaval. E eu ali, na conspícua betesga que esbordava Portogalo.

O sol dealbava os tijolos – das ruas, dos olhos de corindon; a casa, pária, estou certo, deu origem ao filho de Dédalo e fez os sonhos voarem. Uma nuvem de sarin – enfeitiçada, claro – entrava pelo postigo, exalando uma pânria surreal. Nem Tântalo tinha um palácio daqueles. Um racemo e, taí, só faltariam as bacantes para a ode a Baco.

E eu com minhas orações a Santa Inês. Ô, boa Santa Inês. Tampou os olhos na hora-certa. No em-ponto. E, se não me engano, ainda senti um aflar santo no que era o momento.

E nada sorvou o momento; nem o caseoso parlatório da ostentação, nem a vitória da Beija-Flor. Criaram-se novas vedas: de amor mútuo, de promessas de amizade. Era o ilapso. Divino. Mais-que-divino. Na festa da carne, a adoração à divindade humana. Saímos da ruela sem vista da pequenês ao belvedere espiritual. Kamadeva puro. Ascese bonita mesmo. Contrapontual.

As bases foram fortes, a quem duvida. Laterícias. E o que poderia tisnar descartamos.

Construímos um Estado laico de farras e amizade. Ê, carnaval!…

Published in: on 6 de junho de 2010 at 15:23  Comments (10)  

Composição religiosa em duas partes [Parte II – Ateu: O Verbo é pouco]


haicai ii

mandingueiro
joga capoeira
chora de saudade

Escorregão e tropeço. Estigmas. Repetição, desengano, engano, desencanto. Areia da praia, seca, inóspita. Deserto da praia. Nenhuma encarnação além de sombra própria. Casa de névoa. Dentro.

Deus? Brincadeira… Terra-terra; Pais terra-terra. Homem desconstruído, mal-feito. “A pessoa amada em três dias”, em ruídos. Pra quem? Pra areia… Deserto. Fora.

Sem muito na vida. Candongas. O choro: a longevidade.

Published in: on 30 de maio de 2010 at 17:02  Comments (1)  

Composição religiosa em duas partes [Parte I – Carola: No início era o Verbo]


haicai i

desisto da hora:
Deus está morto
in Nietzsche we trust

Chegou ao terreiro. Desencantou. Achou engraçada toda a rouparia. Achou bonito. Pediu licença, entrou na roda. Extenuou-se com o sonido dos tambores. Procurou na saia rodada da baiana carioca a beleza da música de Olorum. “Kosi Oba Kan Afi Olorun!”, respondiam-lhe. Não acreditava, sabia. Jogaram-lhe o Ifá. Previu sua vida. Pulava areia cada vez que jogavam os cocos e era dentro que sentia. Era o próprio Exu que lhe vinha à frente, que lhe preenchia as lacunas. Duvidava: era na dúvida que tinha certeza. Ter movimento. Ser Deus: Oxalá..

(De sua vida menor.).

Published in: on 30 de maio de 2010 at 16:55  Comments (2)  

Afasia


“Eu acho que VOCÊ precisa beber alguma coisa…”
“Só se for uísque.”
“Serve. O uísque me faz lembrar que algumas coisas ficam melhores com o tempo…”
Disse isso e fechou-se em si. Mordia o pedaço de pão que já imaginava comer na manhã seguinte. Lembrava-se de pouca coisa, parecia um gambá – fedia a bebida, sentia que ela evaporava pela pele, estava quente, queria um banho e um abraço valioso (do que nunca teria). Gritava velhos aforismos – o uísque é o cão engarrafado!, alea jacta est!, a glass of absinthe is as poetical as anything in the world!, essa última em inglês mesmo, porque tinha respeito pelo autor-defunto, embora ficasse difícil falar em inglês, cada vez mais – pelas ruas, ausente, dizia uma porção de verdades (sempre a busca pela verdade ébria, a verdade insone, a verdade desnuda – em si, verdade por convicção, por sua própria existência, verdade que é, verdade à revelia do senso comum), dois piparotes sonolentos no ar, condicionando seu imo à obviedade de sua condição; estava só e velho e gordo e feio e desinteligente e enrolando a língua e desfazendo laços e buscando saídas e respirando fundo e volitivo. Endireitou o corpo mole (já passam das três?) e reafirmou-lhe que ela precisava de bebida.
“Você precisa de outra bebida!”
“E você precisa sair dessa crise de meia-idade.”
Estava em crise – se era de meia-idade, desconhecia, sentia-se com viços, planta trepadeira desafiando a gravidade, tinha manias de velho, sim, o próprio hábito de gritar aforismos pela rua vinha de seu avô, bêbado boêmio, pegara várias mulheres, sustentava-as todas, dava-lhes um amor de viços (era a palavra que sempre lhe vinha à mente, viço, lembrava-lhe vida, juventude) mesmo depois da idade que avançava contra sua vontade, então o hábito de gritar aforismos era mania de velho, assim como a mania de ler com os óculos na ponta do nariz e a de dormir sobre o livro, como a mania de assistir aos jogos de domingo com a latinha ao lado, sempre à mão, qualquer jogo, Jaú contra XV de Piracicaba, enrolava-se com essas tecnologias novas, mania de escutar Chopin e Debussy em volume moderado (só ouvira alto quando mais jovem, distorcia o som do estéreo, retumbava ritmicamente quando Tchaikóvsky iniciava a Abertura 1812, ou quando confutatis maledictis flamus acribus adictis Mozart recitava seu réquiem) – mas achava tudo normal, tipo pouco curioso com modismos, pouco afeito a novidades mesmo (é meu estilo, porra). Mas era crise. Era tempo que ele usava ao contrário. Lembrava-se – era com isso que se incomodava, com a memória. Não tinha filhos, queria-os, mas não se via casado, não queria casar. Bens nenhuns, nenhuma economia, tudo bem gasto, bem lavrado, cervejas de botequins escusos, e eu aqui dentro desse copo, tudo bem gasto. Tudo desperdiçado. Renda pequena, sobrava nem pro café que então adorava, bebia muito, filava no escritório todo dia, emprego burocrático (ele queria ser funcionário público, era desejo de infância ser funcionário público, via-se voltando pra casa, todo dia, pegava o carro, um Chevete, na época imaginava, voltava pra casa, pra mulher com a comida pronta, pros filhos, moleques levados, um mais mau que o outro, pra tevê e pra cama, não era dado a extravagâncias, mas talvez escrevesse um livro, deixava a porta entreaberta pra deixar correr o vento, a porta não parava de ranger, para frente e para trás, nunca um vento forte o suficiente para fechá-la, então escrevia no ritmo dos movimentos, o ranger das dobradiças era seu compasso, mas tudo era um seu ideal cada vez mais distante), era funcionário público, isso conseguira. De mais, a esbórnia, uma rebeldia contrariada, de um apartamento que dividia com a colega de quarto, moça velha (tinha mais de trinta, mas parecia mais velha, muito mais velha), frustrada, sem marido (você precisa de um marido. Ou de uma mulher, que teu caso já vale a tentativa – e ela suspirava fundo mesmo, talvez fosse lésbica, não quisesse assumir, ele se sentia rude mas não pedia desculpas, é meu estilo, porra), com um emprego de merda e que acima de tudo não bebia, (não bebia, como podia?, era de uma estupidez extrema não aceitar a derrota, beber era fundamental – sair de seu estado natural, virar o jogo, comandar-se por uma única vez, porra, era ensimesmar-se, apostasia), era isso que lhe restava, essa esbórnia, essa rebeldia contrariada. Do sonho, no seu apartamento, só a porta que rangia – preciso mandar consertar, esse barulho surdo não me deixa dormir, putamerda.
A mulher se calou. Não era de julgar ninguém. Ainda mais quando percebeu o olhar tonto do homem.
“Vamos, eu te levo pro banho.”
Ele fechou os olhos e se lembrou do uísque. De tudo, era a frase do uísque o que restava da noite, mais uma noite que seria esquecida e que, talvez, se se lembrasse, fosse sua redenção mais tarde, mas não se lembraria. “Ai, o uísque fica melhor com o tempo. Genial, né? Genial.” Sentiu-se bem.

Published in: on 11 de abril de 2010 at 15:32  Deixe um comentário  

Da tetralogia ‘Mind, Body & Soul (Bones)’: IV – Intelecto

— Teatro do Absurdo: primeiro ato —


It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss

“É, tem bem verdade nessa música.”

“Ai, odeio quando você diz isso. Essas verdades aí. Que coisa idiota. Parece que a verdade é uma só, universal. Para com isso.”

“Ei, ow, foi só um comentário. Pronto. Não tá mais aqui quem falou.”

“Tá vendo? Você é um clichê ambulante. ‘Não tá mais aqui…’ Que ridícula. Aposto que vê todos os filmes da Nancy Meyers e os acha bonitos…”

“Eu não sei quem é a Nancy Meyers, intelectualoide de merda.”

“Eu sei. Por isso mesmo.”

“Aff. Eu já sei o que você quer. Você quer se irritar comigo. Porque nós nos amamos, mas você não pode ser meu, aí você quer uma desculpa. Você sabe que eu não vou te trocar por ele. Ele é meu namorado. Eu já te entendi.”

— Teatro do Absurdo: segundo ato —


Oh well I don’t mind, if you don’t mind
Cuz I don’t shine if you don’t shine

“Ah, muita verdade nessa aí.”

“Ué, você? Você?, caindo no clichê das verdades?”

“Tá, eu tava errado. Verdades existem, ponto.”

“O que houve, Senhor Otimista? Desistiu do niilismo?”

“É. A gente aprende.”

“Ah, vai. Não fica triste, não é o fim do mundo. Tenta manter o bom humor. Por mim.”

“Por você… Eu mudaria o mundo por você. Eu faria o inverso do que faço por você. Mas não me peça pra manter o humor. Não dessa vez.”

“Ei, tudo bem. Só quero que você saiba que não é o fim do mundo.”

“Não. Tsc.” (Mas preferia que fosse. Mas é quase como. Mas quem liga? Mas podia ser. Mas me dá uma chance! Mas e se eu implorasse? Mas e meu orgulho?)

— Teatro do Absurdo: último ato —


But my heart, it don’t beat
It don’t beat the way it used to
And my eyes they don’t see you no more
And my lips they don’t kiss
They don’t kiss the way they used to
And my eyes don’t recognize you no more

De resto, eu a deixei. Deixei mesmo. Ela me mandou uma mensagem dizendo que não parava de pensar em mim, que coisa, me pedia uma maneira de não fazer mais isso, mas eu também tava nessa, oras, e ela não quis saber, ela escolheu, então eu escolhi também, passei a não querer mais falar, disse que sabia a hora de sair de cena e saí dramaticamente porque queria deixar clara a minha dor que é boba e que nem chegou a existir num relacionamento que nunca foi real só na minha cabeça mente complicada e cheia de truques baratos de circo. Aí eu me apaixonei por outra mulher e tudo voltou a fazer sentido até a próxima despedida que se aproxima mas isso era meio coisa da minha cabeça, a mulher e a despedida que se aproxima. Aí eu desisti de amar mesmo.

Só me apaixonei pelas minhas ideias cada vez mais vazias e sem sentido. As ideias são o orgasmo da mente, não é? Virei onanista.

“Palhaço. Palhaço e niilista.”


So if the answer is no
Can I change your mind?

Published in: on 6 de março de 2010 at 14:59  Comments (8)