Tempestade

Creio que, a essa altura, vocês já devem ter lido neste texto do Protótipo o que acontecerá em muitas postagens, a partir de agora. Se ainda não o fizeram, tenham a gentileza, antes de seguir adiante com a leitura, s’il vou plaît.

Se tudo der razoavelmente certo – embora me seja impossível prever o tempo que cada um dedica ao ato em si –, a peça musical a seguir terá alguns fortuitos diálogos com a texto. Tudo sorte, claro. Só não se apressem. Aproveitem o som, sua explicação, as descrições. Deem o play logo de início, esperem começar a canção e— bem, encontrem suas próprias coincidências.

Ah, claro! Aceito as próximas sugestões nos comentários. Sintam-se à vontade.

Deadman’s Gun é composição da banda independente Ashtar Command. Tornou-se mais conhecida como parte do game Red Dead Redemption. Para traduzir: em linhas gerais, o jogo se passa em 1911, no apagar das luzes da Corrida para o Oeste americano, e narra a cinematográfica história de John Marston, ex-foragido, que trocou o crime por uma vida na fazenda, ao lado de sua família. Seria singela, trivial até, se esta não fosse uma história sobre o passado. Mas o é. E o passado, como se sabe, costuma cobrar caro suas dívidas…

Às doze em ponto, subiu a escada. Sol a pino. Areava sob seus pés a pedra seca; a cabeça atrás, em outras paragens, em outras muitas paisagens por que já passara. Estava cansado.

“Eu tenho o hábito de não falar muito o que penso. Mas penso muito.” Era o peso das costas que lhe pedia que contasse, afoito, as excentricidades que lhe vinham à cabeça aos que estavam à sua volta. Na subida, enquanto ensaiava os contares, arfava; e a escada alcançava seu patamar mais alto. Ajustou o corselete ao peito, e então a espada à bainha. Não sabia por que carregava a espada, mas imaginava. Não sabia o caminho que percorria, mas o caminhava. Era o que deveria ser feito.

No alto da escada montanhosa, à direita, a trilha seguia ao infinito. Eram obscuros e nunca traçados passos a lembranças de histórias de ninar: levava a bosques e reinações de outrora; outra época que não fazia sentido. Olhava à direita e via o desconcerto: era tudo um borrão, uma aglomeração de passados. (Ali não poderia ser o adiante. Era o retorno, o atrás, o que ficou. Seus pertences. Memória.)

À esquerda, o caminho se bifurcava em muitos outros; tantos, que não se os distinguiam. Eram repletos: de gritos, de lamentos, de vazios. Também de gracejos, de boas risadas. Estranhamente, porém, deixava-se inundar pelas tristezas; fraquejou; arqueou as pernas; ajoelhou-se. Não, não era memória. Era o que ficava, o que deixava pra trás. As lutas que travara. As lutas que perdera. Todas. (Então aquele também não era o caminho que fazia avançar.)

Avançar. Parecia-lhe ora desnecessário pensar em “ir à frente”. Mas era demasiado humano para saber que precisava das metáforas. Aquela alegoria era, talvez, bonita; gostava da espada, que dava um ar caricatural à coisa toda – a imaginação, mais que a lembrança, regia o momento como a uma orquestra magnífica; não poderia imaginar melhor. A espada; afinal, uma arma que poderia usar em batalhas; era o guerreiro já agora. Sentia-se forte. E era nela que, como num cajado, apoiava-se para erguer os joelhos do chão. (Gostava de como a cabeça contornava os ultrajes que o corpo impunha. Imaginar.)

O adiante era à frente. Caminhada longa sobre areia e grama. Olhava o chão: antes, desatento; mas enfim com curiosidade que o fez perceber: seguia pegadas. Alguém já estivera ali antes. Não demorou a notar que os passos eram como os seus próprios. Pés maiores, mas menos firmes; traçavam a direção. “Em direção à tempestade? Que seja.” Não se sentia particularmente corajoso. Sentia-se cansado, como já o havíamos visto. Dera seu próprio sangue aos demônios que o consumiam; e duas moedas para o barqueiro. Mas isso, antes desta última etapa. O que descobriu, involuntariamente: que aqueles passos eram seus. Não de agora, que era a primeira vez que conhecia aquela trilha. Mas de depois. Ali, quando tempo não importava. Eram seus e de seu pai. Seu pai de antes. De menino. A mesma pisada.

“À tempestade.” (Já sentia os pingos no rosto; limpava-os por puro hábito; sentia-se limpo e disposto. Ajustou o corselete mais uma vez. Tocou a espada. Queria ter levado um chapéu.)

Na última e (talvez) primeira vez em que se percebeu homem, não viu luz, deus, nada; era só sua sombra que adentrava uma nuvem espessa, densa, num caminho que se percorre sozinho.

A despeito de tudo, não teve medo. Morrer era só um inevitável passo. A nuvem o abraçou com seus infinitos braços e ele não sentiu mais frio.

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Published in: on 14 de novembro de 2011 at 23:13  Comments (8)  

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8 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Incrível.

    • Nem tenho o que dizer. Obrigado? =)

  2. Achei a sua ideia interessante. Bom início. Primeiro, li o texto ao mesmo tempo que escutava a música. Depois, li sem ela. É engraçado ver a diferença entre as duas leituras. A música é um complemento ao texto e cria todo o clima… (ou como diriam outras pessoas, é um “plus a mais”).

    Bem, eu já tinha vindo ao Palimpsesto antes mas acho que nunca comentei nada. Então, aproveitando essa estréia, vou dar umas antigas opiniões minhas.

    Sobre as músicas presentes em algumas postagens: elas me chamaram a atenção de cara. Boa trilha sonora, hein?! Quanto ao estilo de escrita… Guimarães Rosa. Os neologismos em uns poucos textos me lembraram imediatamente do Rosa. Também tem o Raduan Nassar. Como não lembrar de “Copo de Cólera” na organização dos diálogos (aquele pá-pum de respostas, uma fala que acaba e já começa a outra e o texto continua inteiro assim…) e até mesmo alguns trechos descritivos entre um travessão e outro? Uma vez você disse que era um dos seus livros favoritos. Talvez isso sirva um pouco como justificativa…

    E como destaques nesses blog… Eu diria que o primeiro texto postado foi uma excelente introdução. Bem criativa. Mas “Para o maestro que desconheço” é meu queridinho sem dúvida! É sério. Não sei explicar a razão, mas me apaixonei por esse texto na primeira vez que o li.

    Acho que meu comentário já ficou bem grandinho… Então só vou adicionar mais uma coisa: boa escolha musical a do comentário acima! Adoro Mando Diao e gostarei muito de ver o texto com Herr Horst.

    Ok. Acho que isso é tudo.Tchau. =)

  3. PS: eu não sei se você vai dar mais aulas na Barra, mas não se esqueça que você ainda me deve aquelas dicas pra prova de seleção! Vou cobrar essa promessa assim que a segunda fase da UERJ acabar. ;p


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