Ano Novo

É pau, é pedra. Mas tá longe de ser o fim do caminho.

De mais a mais, tudo é a travessia, como diria o Rosa. E travessia é caminho que se marca com o pé descalço, pé cascudo, pé-que-não-se-guenta-mais (pelo amor de deus). Caminho construído de pegada – daquela que a gente deixa n’areia e daquela que a gente pega-e-não-larga, pegada pelo cabelo, pela cintura do corpo da moça que dança dança fogosa, escorrega, beija bem e deixa saudade.

(A vida é de deixar saudade…)

Saudade de tudo no caminho. Do que veio, do que é. Nesse sentimento inquieto, indecente, que faz vazar água dos olhos e o peito deixa cheio de vazio. Vontade de sentir de novo, de voltar a ser, de lembrar “foi bom”. Sem mas. Sem circuntâncias adversativas ou concessivas. Sem adjuntos entre sujeito e verbo, entre o eu e o ser. Eu sou, eu vivo, eu agora. Eu já – imperativo do verbo caminho.

Eu já. Um-do-la-si. Como quando a gente era pequeno, lembra? Como quando a vida não era preocupar e a gente só ria da palavra pum. A única ocupação era a bola. A única atitude era o sim. A única verdade era a que a gente não sabia. Caminho de espinhos no dedo, farpa, arranhão. Caminho de café, cheiro de chuva: nostalgia. Caminho difícil. Caminho bom como fruta madura.

Negócio de maturidade é que mata. Novo demais pra vida, velho demais pro resto. Café-colégio, almoço-cursinho, café-estuda, lanchinho-dorme. E tome gravata, né, Vinicius? A moça fogosa volta a dançar na sua frente, e você mal tem tempo de chegar junto, de tentar a cantada infalível e conquistá-la de vez. Você observa, espera, torce pra que ela não suma num relance. Ela some. Invariavelmente, ela some.

(E você continua a busca pela boca perfeita, pelos olhos pra-sempre, pelo sorriso que ela deixou estampado como tatuagem.)

À sua frente, o desconhecido e a vontade de que pelo menos seja bom.

Daí o medo do devir, do vir-a-ser, e a saudade estranha do futuro. Saudade que dá não-sei-por-quê (não perguntem, também estou aprendendo…), entre alvoradas, depois de uma noite mal dormida e bem vivida, uma dessas noites pra-sempre (“pra sempre nós, pra sempre essa lua, pra sempre o que vier – ‘tamos juntos!”). Dessas noites em que a gente olha pra frente e pensa que, enfim, pode valer a pena.

No que olha pra frente, olha pra trás (sempre a ambiguidade…). E pensa que foi bom até aqui. Que valeram os passos (as pegadas). Que não foi em vão. Há a esperança.

É aí que, pela terceira vez, a moça dança à sua frente. Vem e balança, vem e abraça, vem e dá um beijo. Sussurra o nome dela em seu ouvido, baixinho, e se desvela à sua mercê: “Eu sou Vida. E agora você me tem pra sempre.”

É pau, é pedra. Mas, como já disse, não é o fim do caminho. O abraço de Vida é um começo. Um novo começo. De uma nova dança, de uma nova vontade. De muitas outras saudades. Tudo segue adiante (eu, você). Novos passos, descobertas. Novos caminhos. Seguir adiante é o que resta das nossas verdades. Com alegria, sempre. Sempre inseguro, mas confiante. Sempre com fé e força. Sempre atento à travessia.

(Mas que às vezes dói, isso não dá pra negar. E o lance é deixar doer. Foi bom. Vai ser melhor. Disso tenho certeza.)

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Published in: on 18 de dezembro de 2010 at 23:21  Comments (17)  

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17 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Muito, muito bom! Ainda tô decidindo se prefiro esse, o “Pois é” ou o quarto da tetralogia.. preciso pensar!

  2. Legal o duplo sentido do seu texto. Pra mim, que não sou vestibulando, é um símbolo da Busca pela verdadeira Felicidade.

    Abraço.

    • Mas a ideia é que possa ter tantos sentidos quanto se queira mesmo… =)

  3. Lindo, professor! Só você mesmo para emocionar o curso no último dia, e com certeza vai deixar saudades… Muito obrigada por tudo! É lindo mesmo esse texto!

  4. Parabéns e obrigado.

    Nada mais a dizer de um grande professor com você!

    • Eu que agradeço o carinho e a confiança no nosso trabalho. Obrigado mesmo. Sucesso em todo seu caminho. Abraço forte.

  5. Eu não tive aula com você o ano inteiro, mas gostei muito das aulas do pacote que tive e ainda me emocionei muito no último dia. O seu texto é lindo, assim como o seu blog. Parabéns!

    • O prazer (de ensinar a quem quer ouvir, de ajudar, dar suporte, uma mãozinha – que é o que eu faço) é, sem dúvida, todo meu, querida. Espero que curta ler o blogue como eu curto escrever.

      Seja bem-vinda. =)

      Beijos grandes.

  6. O que eu gosto no seu blog, não necessariamente por este post, é o fato de os seus textos conseguirem criar um ambiente próprio, característico; como que claros na minha cabeça. Me agradam demais, porque remetem a cenários meio Woody Allen!

    No entando, há textos que desconstroem demais a gramática, pra ficarem mais complexos. Só que eu não penso que isso deixe a leitura mais bonita, mas cansativa. Apesar de aqui não haver nada incompreensível, seu conteúdo é muito melhor que essa quebra de sentido. =]

    Enfim, a opinião de um leitor… Abraço.

    • Obrigado, antes de mais nada, pelo elogio. Ser comparado a Woody Allen é, no mínimo, um grande barato.

      Entretanto, deixe eu cá defender minha escrita – que é tímida, a pobre, não curte se defender sozinha. Discordo quando diz que há uma desconstrução da gramática “para [os textos] ficarem mais complexos”. Não se trata disso. Afinal, como todo autor, quero, antes de mais nada, fazer-me entender. Quero que leiam e se identifiquem. Quero a discussão.

      Não transfiro a responsabilidade ao leitor – embora creia que haja muitos preguiçosos que prefiram nenhuma singeleza. Senão, vejamos: qual a função da literatura? Certamente, não é a de se manifestar no concreto. Ao contrário, ela se realiza no desafio, na compreensão. Ela se realiza na catarse, na epifania; é o espaço do sonho. Daí a necessidade da torção – linguística, semântica, sintática. Forma e conteúdo são só expressões pro que se quer dizer. Então, antes de “complicar”, elas têm a intenção de o próprio texto.

      Com exemplos? Vamos lá:

      1) em “As mulheres que amei pra sempre” e no último texto da tetralogia “Mind, Body & Soul (Bones)”, observamos uma semelhante fragmentação: a temporal. Isso, porque ambos trabalham com relações igualmente fragmentadas e desgastadas (pelo hábito, pela modorra, pelo incomum – são seres humanos, conflituosos, inconstantes);

      2) em “Afasia”, a disrupção sintática e a caótica manifestação semântica – mudanças abruptas de assunto, dessintonia entre ação e palavras – só revelam o estado de torpor do protagonista. A consciência é um rio descontrolado; seus influxos afloram e são cuspidos pelo protagonista;

      3) nas poesias, que não sei construir, descubro a verbivocovisualidade. Palavras, sons, imagens – tudo serve para se entender o poema. A brincadeira está na engenharia das palavras: como elas são montadas, cantadas, mexidas. Sabe a Poesia Práxis? É isso. Com bônus de Marginalidade;

      4) nos “Estudos sobre as Hamadríades” (ainda incompletos), a brincadeira está nas relações semânticas entre mitos e homens. Para Freud, todos os mitos são tótens de nossas experiências. Às vezes, a linguagem tenta retomar essa literatura (“Mas Calíope caiu nas graças e garras do açougueiro Batráquio e viu-se presa a um cabotino inigualável.”) Tentei, na prática, brincar de recriar a mitologia; é uma releitura moderna de cada hamadríade – com putas, travestis, mulheres feias… Somos nós em espelhos;

      5) Em TODOS os outros textos – aí eu concordo com você sobre a “dificuldade” de se os ler – há UM MONTE de referências (explícitas, implícitas, maisoumenosíncitas) sobre a cultura pop, sobre outros autores, sobre música, filme, gente lugares acontecimentosassuntosvivênciasamigostudojuntomisturado. Aí é curtição: tenta pescar, por exemplo, em “As mulheres que amei pra sempre”, quantas referências você encontra. Vamos lá, te dou algumas colas.

      a) Lou (Reed) e Nico – dois músicos que compuseram a primeira fase da banda Velvet Underground, na década de 60. Nico foi apresentada ao grupo por seu padrinho, Andy Warhol (fundador da Pop Art), que desenhou a capa do primeiro disco deles (representada por uma banana). Com o tempo, o grupo foi rejeitando a Nico naturalmente, por sua postura antiexperimental; ela tentou carreira solo, mas sem muito sucesso. Lou Reed, entretanto, compôs o cenário pré-punk junto com David Bowie, que também foi seu produtor e amante por alguns anos.

      b) A descrição da mulher lembra muito a de uma menina da década de 60, a se considerar a franja e a maquiagem. Mais especificamente, pensei em Brigitte Bardot, grande (e sexy) atriz da época.

      c) Femme Fatale é a música (do Velvet, cantada pela Nico) que norteia todo o texto. Seus versos estão realçados em negrito. Cada verso é uma característica da mulher – de sua fragilidade à sua voracidade de vida.

      d) Esse tem **spoiler**: Alice Ayres é a personagem interpretada por Natalie Portman em “Closer – Perto Demais”. Na verdade, Alice era um nome falso que ela usava. Revela-se, ao fim do filme, que seu nome era Jane Rachel Jones. O quanto isso revela da personagem?

      e) “Watch out, the world’s behind you; there’s always someone around you who will call…” é uma referência à música Sunday Morning, do mesmo Velvet Underground. Essa, no entanto, era cantada pelo Lou Reed. Tanto serve para que ele olhe para trás como para que ele perceba que ela (ou uma versão diferente dela, já que usava cabelos pretos – Alice Ayres vivia trocando a cor do cabelo – e “que nunca foi muito do Lou”) está ali.

      f) Alice? De novo? =)

      Isso é o que este autor-de-referências faz. Não é bom. Não sempre. Mas é tudo o que tenho diante do implacável júri.

      A despeito de tudo isso, espero que possa absolver a escrita. Puna quem escreve. E volte sempre que sentir saudade. =)

      Um abraço!

  7. Comentários interessantes

    Discordo da crítica à desconstrução gramatical. Não acho que a proposta seja criar textos jornalísticos – explícitos. Tem que esconder, remeter, insinuar. O óbvio é chato pra cacete.

    Quanto às referências, por vezes obscuras desse autor, não posso negar meu total envolvimento. Procuro conhecer cada passagem apresentada, e adoro quando essas já fazem parte do meu conhecimento (muito bom ver “The Killers” e “Closer” por aqui).

    Por fim o “Ano Novo”. Trouxe tudo de volta. Irritantemente nostálgico. Li no Natal. Adorei.

    Obrigado, Katyara, não só pelas boas aulas, como pela boa literatura desse blog.

    Abraço, de um assíduo leitor.

    • “Irritantemente nostálgico” – achei bacana pra caramba! hahaha!

      Valeu, meu querido! Um abraço grande!

  8. Eu tenho uma idéia de Literatura parecida com a sua, mas inversa.

    Não são as referências que dificultam o texto, pelo contrário: isso facilita para os que entendem. Quem não compreende, paciência. É questão de maturidade. Aliás, gosto do fato de você fazer questão de não usar aspas.

    A minha crítica foi referente a estrutura mesmo. E, entenda, não é porque desconstrói que fica cansativo.

    Com exemplo? Vamos lá (hehe):

    É como comparar os períodos do Saramago com os do Lobo Antunes. Ambos surgem com uma proposta diferente, mas o segundo faz questão de dificultar a compreensão do leitor (seja na escolha das palavras ou nas alusões). E, convenhamos, Saramago é bem mais interessante, não?

    Abraço.

    PS: Aliás, tenho certeza que compreender as suas referências é o que mais me ambientaliza no seu blog.

    • Vou confessar: não entendi como eu entrei na briga entre os portugueses… E, por mais que eu seja admiravelmente fã do azinhago, não desprezo o lisboeta de jeito nenhum.

      De qualquer jeito: pelo que entendi, mais fui chamado de Antônio Lobo que de Saramago, não é? Hm.

      Pegue os diálogos em “Estudo sobre as ninfas III” ou o fluxo em “Prelúdio”. Saramago puro – sintática e semântica copiadas descaradamente do autor.

      Mas volto a dizer: não entendi a comparação. Me perdi. =)

  9. Adorei o texto , adorei no dia em que você leu e adoro todas as vezes que caio no seu blog e acabo relendo . É muito importante ver o quanto você ( e os outros) se envolvem com a nossa causa . Obrigada e parabéns pelos textos maravilhosos .

  10. Todo dia 31 de Dezembro Vida compra 365 roupas diferentes, às vezes 366. Tem gente que reclama, fala que é exagero e dá 7 pulinhos torcendo pra que ela só use a melhor roupa… Já eu não me importo muito, pra mim ela tá sempre bonita.

    Feliz ano novo, meu camarada! Que essa sua mulher esteja bonita a cada dia!

  11. Segura essa coruja, rapaz!
    Ano novo é muito, é uma sensação de melancolia e anseio por novidade
    Bonito o que vc escreveu 😀

    bjo


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