Vida fácil

(“Vem depois esse silêncio/Como o som de um paraíso infernal/No gozo que vem com um grito de dor/Copacabana sabe até falar de amor” – Cabaret / Copacabana Full Time)

Faz umas duas semanas que estive em Copacabana.

Deixei uma amiga em casa. Entrei com ela num prédio qualquer da Princesa Isabel, número qualquer, apartamento qualquer um. Nos corredores vazios, montes de tapetes pendurados nas portas dos apartamentos cheios. Tudo lotado. Um cheiro acre de perfume barato e colônia de alfazema forte coloriam o ambiente cinza paredes cinzas portas cinzas seres monocromáticos da fauna de Copacabana.

Aí peguei o elevador para descer. Apertei o botão e fiquei esperando esperando esp…

Aparece uma mulher de botas altas pretas, saia muito justa jeans, casaco desbotado bem aberto sobreposto à camisa carmim-vivo. Boca vermelha, pele branca. Cabelos loiros fakes. Tons fakes. Vida real.

Saiu atabalhoada, me atropelando timidamente na passagem, aqui não é o térreo? O ascensorista-porteiro, um senhor que aparentava pouco menos que um egípcio cleopátrico (num neologismo que só Copacabana permite), ria com dentes pouco firmes, e dizia não, a senhora desceu no quarto andar. Dei licença e a mulher voltou sorrindo para dentro do elevador. O velho também ria. Ri, sem saída.

Enquanto o elevador descia, resolveu aquela mulher de lábios carmim me perguntar sobre a noite. Tão cedo… Pra onde vai?, numa conversa mole mole. Vou embora. Tô indo pra casa. Não! Mas ainda são o quê? que horas são, seu Paulo? três horas ainda? E o gatinho já vai pra casa?…

É, trabalho cedo amanhã. Não, por que não fica mais um pouco?

“Ficar aonde?” Cabeça atordoada, cansada, rindo da mulher que ainda àquela hora oferecia companhia.

Chegou o andar e ela resolveu tocar meu ombro. Vai pra onde?

Meu ônibus ficava na rua do outro lado da calçada. Ah, mas eu vou pra direita, insistiu, numa numa quase-súplica angustiada. Além do mais, pra você atravessar, tem que vir comigo até a esquina.

Eu sabia que poderia ter virado à esquerda, e ter atravessado pelo outro lado, mas resolvi acompanhá-la.

Não sabia o que dizer. Estava trancado, tímido, mas ela estava disposta a propor. Propôs que eu a acompanhasse até o outro lado, que a noite ainda era nova. Contou que estava cansada, mas que queria finalmente descansar. Disse que estava a fim de sair dali, muito rápido, como se o “até a esquina” fosse um período entre o nada e o fim de sua vida. E contou que não cobrava muito.

Não ouvi o quanto ela cobrava. Chegamos à esquina e dei um tchau trancado, tímido, sem graça. Ela me olhou com pena. Por ela. Estou ficando velha e sem dinheiro. Agradeceu a companhia, atravessou a Nossa Senhora correndo de um carro que vinha acelerado. Não olhou pra trás.

Não olhou e me deixou pensando no quanto as noites frias de Copacabana podem ser solitárias e tristes muitas vezes.

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Published in: on 28 de junho de 2009 at 14:37  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Amei; sem mais.

  2. BEM COPACABANA MESMO…

  3. Acho q ja vi esse filme…

  4. Pronto; só pra você parar de choramingar que eu não comentei aqui .

    AOIAIOEEAIOIAOE

    Caramba, Katyara, gostei muito, muito mesmo !
    Bem simples e objetivo, mas ao mesmo tempo profundo e sensível …

    Só achei que o narrador parecia um tanto triste e solitário, como se estivesse passando por uma fase difícil [olha eu filosofando !], por isso acho que se encaixaria melhor em “Pequenas serenatas noturnas” .

    Mas o texto ? Maravilhoso ! 8D


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