Da série “Estudo sobre as ninfas” II – Hamadríade

Emile Jean Baptiste Philippe Bin (1825-1897) - Uma Hamadríade (1870)

Emile Jean Baptiste Philippe Bin (1825-1897) - Uma Hamadríade (1870)

As hamadríadas, hamadríades (Ἁμαδρυάδες, Hamadryádes, em grego) ou adríades (Ἀδρυάδες, Adryádes, em grego) são ninfas que nascem ao mesmo tempo que as árvores e cuja vida está ligada à da própria árvore. Seu nome é um composto de háma, “ao mesmo tempo”, “simultaneamente” e drys, dryos “árvore”, “carvalho”. Fazem corpo com o carvalho, isto é, estão incorporadas a essa árvore sagrada e participam de seu destino: morrem se ela for abatida. O poeta Calímaco de Cirene (310-240 a.C.), no Hino a Delos, descreve a palidez e a angústia da hamadríada Mélia, quando um raio fulminou o carvalho à cuja existência estava ligada sua própria vida.

(Fonte: Fantastipedia)

Acima de tudo era néscia. Néscia e feia. Nefelibata, desvirginada desde os doze, mas nefelibata. Por tudo, uma anacoreta. Precognitiva. Grávida.

Tinha uma boca descontraída, arreganhada, e os dentes mal engendrados, costurados por uma ponte mal feita pelo dentista local – um pobre desgraçado que comprara um diploma de veterinário e acabara cuidando de gente descerebrada. Um dos olhos não se mexia: – era o de vidro. O outro soava como um veludo num dia de calor. Quente quente quente. Nariz de carapincho, anegralhado, cheio de cravos. Cabelos com Garnier Fructis e goma; cheirava a leite de rosas e outros perfumes muito menos sofisticados.

Quando passava pela bica d’água no fim do morro, gritava sempre um evoé inchado pra meninada zombeteira que lhe destituía ainda mais da beleza interior, se é que tinha alguma, porque era feia como o diabo até por dentro. Vísceras mal feitas, isso sim.

Chamava-se Calíope pra provar que Deus, se existe, é um sacana que vive rindo às custas dos outros.

O fato é que suas mãos grossas e disformes caíram nas mãos de um açougueiro. Ele: pernas fortes, pelos que saíam do corpo para a carne que patinava no balcão da loja. Cheirava a cigarro e a fumaça e cingia cusparadas entredentes a todo momento. Um magarefe chamado Batráquio. Satiricamente. Era escorregadio, todavia saudável.

Mas Calíope caiu nas graças e garras do açougueiro Batráquio e viu-se presa a um cabotino inigualável. Gostava de suas graças e de seus dotes. Sentia tesão pela carne endurecida e velha da vitrine do açougue e resolveu ceder-se pela primeira vez a um homem que escolhia.

Deram-se numa coifa em forma de lis. Sim, em cima mesmo da raiz da árvore que se expandia perto do campinho onde os moleques jogavam bola, e Deus sabe que uma iluminura da prova disso seria demais para um homem só suportar. Dante, quando imaginou o inferno, fora gentil: não os poderia figurar ali, deitados, doando-se indistintamente um a outro. Deliam sol e lua num ritual que nem Agripina, a Jovem, podia conceber – e olha que foi ela quem concebeu Nero himself, veja só.

A cena era o íleo. A cornamusa não cantava porque era incapaz de soprar um momento tão hostil.

Mas naquele instante… ah, naquele instante ela era uma rani. Desengonçada, obturada. Mas era forte, poderosa, a própria Alcmena desgraçada pelo filho. Ali ela concebeu o gamo do gozador sátiro (bem, era satírico, sim; mas daí pra sátiro era um pulo). Se empanturrou como o ebó da última tentativa (“trago a pessoa amada…”). Fê-lo homem e a ela feliz como uma cabritinha mansa.

Como uma cuidadosa coleção de qualquer entomologista, guardou o cacho do Batráquio dentro do oco camafeu de ônix que carregava no peito. Agradeceu a Calímaco pelas lembranças. Deu um beijo no Batráquio. Pariu. Deixou o moleque com um bilhete nas mãos do carniceiro, que dormia.

Fez um coração num ramo. Desenhou as letras C & B cortadas por uma flecha. E sumiu na ranhura da casca do carvalho.

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Published in: on 9 de junho de 2009 at 23:45  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Entendi porque ‘ sujo ‘ agora que li até o final.
    Concordo, porém um sujo interessante. Por sinal, muito* interessante!

    Beijos, Katyara! =)

  2. Acho que agora estou começando a entender a jogada … Vamos ver o próximo, né ? (;

    Só que tem uma coisa … Estranhamente, eu não sei o que esse texto me causou . Não sei o que senti quando o li, ou o que sinto sobre ele agora . Da mesma forma, também não sei o que acho dele . Não sei o que pensar sobre ele . Mas eu gostei desse efeito singular … O que me fez gostar do texto !

    E também achei esse melhor que o outro .. XD

    Adorei !


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