Da série “Estudo sobre as ninfas” I – Sátiro

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Ninfas e Sátiro (1873)

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Ninfas e Sátiro (1873)

Ninfa deriva do grego nimphe, que significa “noiva”, “velado”, “botão de rosa”, dentre muitos outros significados. As ninfas são espíritos, geralmente alados, habitantes dos lagos e riachos, bosques, florestas, prados e montanhas. Na mitologia grega, ninfas são qualquer membro de uma grande categoria de deusa-espíritos naturais femininos, às vezes ligados a um local ou objeto particular. Muitas vezes, ninfas compõem o aspecto de variados deuses e deusas, ver também a genealogia dos deuses gregos. São frequentemente alvo da luxúria dos sátiros. São a personificação da graça criativa e fecundadora na natureza. São frequentemente alvo da luxúria dos sátiros.

(Fonte: Wikipédia)

Até que fechou os olhos e não viu mais nada.

Não viu o quadro mitológico do hotel barato. Não viu a noite desmedida, não viu o dia que amanhecia em cores soltas despregadas no dia seguinte, não viu que o Labirinto de Borges não estava lá nunca mais.

Não viu porque preferiu que não.

Noite passada, muito escuro, quarto escuro. Medo, aflição. Uma peça, um copo de vinho, uma desmesura total ao que era pra acontecer. O hálito virgem, embriagado, soprava fundo uma melodia em dissonância. Ele se desapontava consigo próprio; ela, com o que não criava. Entregaram-se a limpo, em longas fases de melancolia sexual numa noite tensa.

Não tinham nome, não importava, não precisava. Eles se pertenciam ali. O perfume dela lembrava lugares distantes, compunha seu exotismo: almíscar, rosa, musque, néctar de margarida. Não era uma mulher qualquer: era uma ninfa. Servia ao Sátiro (que era ele) bebida e provocações. Bebia dele os prazeres de carne e sangue. Ele, já, prometia que tudo que era seu era dela também. E os dois se entregavam ao falso gozo da mentira, ao prazer extático do corpo. Estase.

Ela movia-se calmamente, sua respiração subindo e descendo ritmada, descobrindo-se alvo de sua incompreensão. Ele estava calado. Prestava atenção à sua própria concupiscência ou sentia-se envolver pela grandiloqüência do orgasmo?

Não tinha importância. Importava que ela soubesse de sua parte no grande plano das coisas. Sonho, desespero, qual a diferença de um para outro? O que transforma desejo em inconclusão é aquilo que conduz o sadismo do homem ao Inominável. Muda desejo em vontade. Vontade em forma física. Forma em expansão.

Os dedos dele se envolveram em torno do pescoço dela. Ela se contorcia devagar, numa dança de erotismo exótica e luxuriante. Ele sabia o que devia ser feito, e cumpria seu papel elegante. Ela não deixava por menos: fazia do corpo o sacrifício a Baco, a entrega ao minotauro.

Ele, o Sátiro, via desvanecer o hálito. Ela, a ninfa, via-se subir aos campos elíseos para deleitar o corpo do homem-deus.

Até que fechou os olhos e não viu mais nada.

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Published in: on 20 de maio de 2009 at 22:50  Comments (3)  

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3 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Nossa, esse texto é maravilhoso.
    Adorei, Katyara!!
    Você escreve maravilhosamente bem…
    Parabéns!

    Beijos enormes !

  2. Só pra não deixar em branco aqui, né …
    Tenho que admitir que não é um dos meus favoritos, até porque, como você sabe, não entendi muito bem, mas o texto em si ficou bom sim !
    Aguardando a sequência !

  3. pS: Até porque, né, quem sou eu pra ficar julgando e criticando os textos do grandioso e exímio Mestre Katyara ?

    IOAEIAOEIOEAIOEA

    ;D


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