Noite-cinza

Acendi o cigarro. Boas narrativas começavam assim. Acendi o cigarro e busquei um papel, não havia, sentei num banco, o mais próximo, e vasculhei a mochila mais fundo, passei a noite toda procurando quem me ouvisse, pensei, enquanto isso, gostava de ouvir o barulho da nicotina estalando quando queimava, traguei o cigarro de novo e de novo. E decidi falar sobre todo o amor do mundo, enquanto rabiscava o novo-velho livro do Safran Foer, por falta de papel nenhum.

– Tem algum trocado pra me ajudar, tio?

Não tinha, claro. E aí percebi que falar sobre o amor torna-se inútil. Não existe o amor. Nem esperança. São inúteis velhas canções de amor e esperança. Ruins demais, antiquadas, não servem. Não sopram vida. Baforadas e baforadas afoitas no cigarro. Grafite rasgando o novo-velho do Jonathan.

(Se eu não tenho pena de rabiscar o livro? Não. Não posso.)

Fico tonto com tanta fumaça, Eu preciso pagar as contas, Solto baforadas e penso na minha casa, Eu sou a minha casa. Paro, olho em volta. Atrás a nova luz do MAC, a praia, o Forte. À frente, a velha igrejinha. Um par de balanços livres. Cinzas no lvro.

Atrás, boas lembranças.

À frente, o mistério. E uma lua minguante.

 

 

Tossidas rápidas. Há necessidade de tornar limpos os pulmões; de discutir o complemento e o adjunto; de repensar prioridades.

 

 

Acaba o cigarro, mas a fumaça densa ainda paira em volta, absorta no ar fino. E no pulmão. A fumaça é o que fica do cigarro.

Apago. A. Guimba. Com ela. Apago. O. Que. Não. Me. Resta. Subscrevo. Passado e Futuro.

E o que resta?

 

 

Livro rabiscado. Lápis menor. Grandes construções do homem. Carros que passam. O que não restava antes. Lua que, à míngua, se esconde numa fria nuvem fina, e ganha aura surreal – e eu diria liricamente que a nuvem é a fumaça do cigarro, de tão pouco densa, tão densa ela era no cigarro, tão frágil a espalhar-se acima.

– Moço? Agora tem uns centavos? – e ele voltava com os chicletes amassados na caixa sobremorta, eu sobrevivo, ele sobrevivo.

Continuava sem trocado. Merda de vida.

 

 

Preciso mesmo é de um maço inteiro pra tragar as dores do mundo e expelir numa grande fumaça. Preciso de um táxi.

– Para onde?

– Para o grande todo amor do mundo.

Ele dá de ombros e parte sem rumo. Me oferece um cigarro e eu nego.

– Preciso de um maço inteiro pra tragar as dores do mundo…

– …e expelir numa grande fumaça, eu sei.

Olhei pra ele com espanto. E eu disse que queria ser encontrado logo.

– Eu sei, meu querido; meu filho, eu sei.

 

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Published in: on 23 de janeiro de 2009 at 01:35  Deixe um comentário  

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