Hello, stranger

Ela jurou por Deus que era tudo o que queria ouvir. Surda, a pobre, aos anseios do amor. Cega a tudo o que lembrasse flores, bombons ou presentes pequenos de dia dos namorados. Queria mais que o amor bruto dos homens brutos. Sabia-se uma miserável qualquer numa cidade incandescente (luzes que, pela orla, enfeitavam-lhe a cabeça – uma aura, diria ela, atordoada (coitada!), uma aura de amor branco que me invade pela mente).

(Não acreditava mesmo nisso.)

Mas queria que alguém lhe surgisse no meio de um cruzamento e a chamasse para dançar – a noite está quente, o que acha? Queria ao som do mar horas de amor infinito. Renegava, entretanto, qualquer outra proposta, porque todas lhe pareciam pequenas, desajeitadas. Para ela, só cartas secretas pelo correio. Para ela, trechos de poesias fragmentados em pedaços de papel (servia guardanapo), com todo o significado que só um segredo traria. Para ela, o impossível. Menos era pouco.

Viu o homem que cruzava a rua em sua direção. Apaixonou-se no primeiro instante, coisa de contos de fadas. Ele também (ela descobriu). Estavam atônitos, não repararam o sinal verde. Sua ação, autômata, era a de atravessar a rua despreocupados. Buscavam-se um ao outro, souberam-se certos ali.

Um carro não os atropelou. Vinha devagar, a tempo de uma freada brusca. Não morreram, e pouco se assustaram. Olhavam-se meio embaraçados. Continuaram cruzando a faixa de pedestres sob xingamentos mortais do motorista. Não se revelaram um ao outro. Mantiveram o mistério e noites (eróticas) de perturbação.

Ela pensava nele sempre. Tinha que vê-lo, porque ele era o impossível. Era ele quem ela buscava. Sentia-se tão absoluta e completamente feliz que chegava a negar Kant ao afirmar que a felicidade, afinal, existia. Estava ali a felicidade. No impossível dos dois, numa troca rápida de olhares. Era nele que ela se realizaria, e foi nele que ela se realizou todas as outras noites.

Até que se reencontraram.

Ela atravessava no mesmo cruzamento, na mesma hora (trabalhava perto, saía cedo). Duas semanas depois. Ele ali. Parecia tê-la esperado um bocado (fazia calor no Rio, estava muito suado), ou talvez fosse ansiedade. Ela o viu, assustada. Ele sorriu.

Enquanto ele atravessava (ela ali, parada, não movia um músculo, olhava para a mão do sujeito), sentiu-se subitamente estranho. Carregava flores para as quais ela olhava sem piscar. Percebeu o ridículo da situação: ele não a conhecia. Ensaiou entregar as flores, mas ela era um retrato de decepção. Ele olhou para o lado, para um velhinho (vejam só: o velho estava triste), que recebeu-as com um certo estranhamento e um tanto de carinho (ficou feliz e pensou que o mundo talvez não estivesse tão perdido, afinal; morreu aquela noite).

Flores?, e isto foi o que ela pensou: era tudo o que ele que lhe oferecia, depois de semanas de êxtase. Flores.

Não foram atropelados aquele dia, como no primeiro. E ela amaldiçoou o mundo por isso.

(Ele? Quem se importa?)

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Published in: on 23 de janeiro de 2009 at 02:24  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Só para contrariar, gostaria de saber dele sim. Esconder esse comentário seria dar as flores prum moribundo, ora bolas…
    Estou me encantando. Siga em frente, e não deixe as maracutais da rotina estragarem os suspiros de vida consciente de si!
    Abs

  2. Gostei do texto, bem escrito como sempre. E também do assunto, a busca do impossível. A não-satisfação do homem com o que é viável e sim com o que é não dá para conseguir. Esperando por mais postagens! Beijos!


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