Da sujeira

Talvez eu devesse dar boas-vindas. Talvez não. Importa?

Escrever importa. E escrever é acima de tudo um exercício. Seja pela compreensão do trivial (vida boba, desonesta, meia-boca), seja pela satisfação própria – egoísta, nada mais, autossatisfatória e autopunitiva –, seja pela construção da metáfora (qualquer, “tudo é metáfora” na máxima do Massimo), escrever é um exercício. Se não intelectual, certamente espiritual, se o intelecto é a alma e não o espírito e se é o que nos leva a fazer sentido.

O fato é que já escrevi há um tempo que ideias são o orgasmo do intelecto. Uma metáfora suja, talvez, porque agressiva, mas que não deixa de ter lá suas “verdades” (odeio verdades, assim como odeio mentiras ou ficções, ou o absoluto, ou o relativo, mas são eles os inescapáveis, os impetuosos, os que são o que são – yo no creo em brujas, pero que las hay…). Uma ideia é o splat no crânio: gozo supremo que nos leva ao alívio quando fisicamente expressada por um tapa na testa do tipo “a-há”, ou por um suspiro inefável de um “ah” que sai caridoso e desconfiado de quem o ouve. Daí o que falta é expressar. OK: e é aí que a cobra fuma e que a vaca vai pro brejo. Mesmo.

Porque quanto mais original se nos parece uma ideia, menos ela flui com a satisfação do gozo alcançado. A língua trava, o corpo sua, e nada – a não ser a cara de trouxa, a voz embargada, os olhos iluminados com a genialidade, “parabéns, meu caro, ninguém pensara nisso, vá em frente” – nada pode soletrar o Grande Esquema engendrado em plenitude, forma ou cor. A ideia vira trapo, torna-se o lugar-comum dos diabos, perde-se entre sinapses e correntes, desmilíngua-se. Apoeira-se. Já era.

Game over e daí pra frente só se quer recuperar o que nunca foi dito. Mas é tarde. Um orgasmo dura quanto? Alguns segundos? A ideia que não se realiza dura mais, embora não muito, e o que resta dela apieda-se no pensamento como comiseração. É um consolo, de fato: “vini vidi vinci, mas acabou – então deixa pra lá, deixa eu curtir uma fossa, maysamente” (porque tudo, no fim, é reflexo do que vivemos ali, momentâneo, flashes da realidade impalpável repleta de neoadjetivos abstratos e redundantes, momentos capturados num instantâneo que descolore rápido, sem permissão).

Ah, mas a pornografia… A doce e embalsamada pornografia das ideias-putas… Um real (tudo isso?) e: voilà. O grito fácil, a veia que salta. Não importa o que se diz, importa a avidez com que se diz. Há, claro, os viciados nelas. Os que se deixam levar pela sedução dos lábios vermelhos (desbotados, muitas bocas já passaram por ali) e de beijo assim-assim, mas satisfatórios pra quem depende de qualquer pensamento pra seguir adiante. Não dão prazer. Dão sífilis. Mas não matam.

De qualquer forma, embora triste, a paixão e o calor que se apoderam do homem no momento máximo do gozo se esvai com o orgasmo. O que resta, além de uma vaga lembrança de que foi bom, é isso mesmo, o splat – e o rastro, a culpa (mundo puritano…) e o arrepio que ele traz.

A sujeira pode, afinal, salvar toda uma vida do ostracismo e de sua própria ignorância.

Taí. Splat. Bem-vindo.

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Published in: on 21 de janeiro de 2009 at 03:35  Comments (4)  

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4 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Quer saber? Sentia falta de esbarrar c/ textos assim. Mudei de meio, mudei de cor e de repente me vi longe das fontes livres e limpidas de expressao e inspiraçao.
    Transbordando, como eu gosto.
    Beijos saudosos

  2. tah.. fez sentido pra mim ! como eu disse, um confuso variavel bem interessante =D ahahaha. blog aprovado. saudades do dono. bjao ;*

  3. Interessante.
    Divertido saber que outras pessoas fora meus próprios amigos extrapolaram o sentido de Maysa.
    Maysa pra gente virou cerveja. Maysar é beber. E maysamente é isso aí mesmo… engraçadíssimo…

    Um beijo.

  4. Creio que vc não poderia ter postado um texto melhor para iniciar o seu blog!! Eu até me identifiquei com ele, como eu te disse, é assim que sinto quando vou escrever também ! Nossa, adorei mesmo!
    8D
    Beijoos !


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