O filho pródigo

Escher

Era um poeta muito faceiro – amava essa palavra sobre todas as outras, pronunciava-a leve, f a c e i r o, letra a letra; lembrava-o da meninice, do gamão e do xadrez com o avô, do bola ou búlica com os moleques, do pé descalço, sujo. Jamais vivera qualquer dessas experiências, mas lera-as nos livros e nas revistas de guris, quando aprendia que viver era fingir, depois nos livros de adultos, nas pessoas, no Pessoa (surpreendentemente, conheceu pessoas antes do Pessoa, dado que era apático a gente – m i s a n t r o p o -, caso de uma ex-namoradinha platônica que citava de cor um poema que jamais conhecera mas achava bonito). Como fingia bem, era um poeta faceiro. F a c e i r o.

Ele mesmo descreveu, em poema homônimo (“Poema”), de que modo fazia poesias (ah, e como as fazia e adorava):

Como um barbeiro canta o fígaro

Como um vieira rege os sermões

Como um preto apura o samba

Nessas etcéteras comparações.

Tratava-se de um mestre, cria, na arte de tratar bem palavras, de lhes permitir a malemolência da ambiguidade. Sabia todas as homonímias possíveis e impossíveis, heterozigóticas homonímias; quando não sabia, inventava os palavreares para que coubessem. Foi assim que inventou um livro repleto de pontas soltas, mas de fios de leitura mais delicados que os de seda de uma aranha, e menos densos, tão mais delicados e tão menos densos que poucos foram capazes de encontrar tais fios, e ele se supunha esperto o suficiente para revelar ao mundo um ponto de vista genial sobre aqueles assuntos remoídos e mastigados, ossos sobrepostos a ossos num necrotério de ideias mortas que ele como um deus trazia à vida. As pessoas (poucas) gostavam porque o ignoravam: “certamente é um gênio.”

Começou escrevendo poesias até em latim. “Venitas” foi seu primeiro livro – ah, a vaidade. Achavam bonito-e-tal-mas-e-daí, poeta distante do povo, tão depois do modernismo. Imaginem o resto.

M i s a n t r o p o. Nunca ligou a essas bobagens.

Aí um dia.

Escreveu uma poesia que achou pobrinha pobrinha. A primeira. Esmerilava as palavras no papel, reconstruía as rimas: nada nada nada. Tamborilou os dedos sobre o texto como um pai acarinha um filho feio e lhe diz que bonitinho! só para que não sofra. Sua ideia era ofensiva; seu subtexto, inexistente. Lembrava uma novela mal escrita, mal enjambrada, uma mulher feia e coitadíssima já sem maquiagem e cobrando barato no fim da noite, self service depois das três, matinê de filme infantil cheia de criança num domingo; era poesia esquisita mesmo. Não havia grafite que lhe afiasse o tino mordaz nem vocábulo que lhe ampliasse o gur. Era aquilo, pronto. Estava fadada ao fracasso intelectual, “mas seria boa gente, de boa índole, boa família”.

Publicou-a assim mesmo.

Escrevia num jornal de pequena circulação, da cidade pequena em que vivia. Alguém gostou muito do que lera; entendia finalmente os trancos do autor confuso – confuso ele sempre fora, repita-se – e os barrancos pelos quais se precipitavam as palavras – e caíam em vertigem pelo papel solto, despencavam da cabeça para as mãos como quem vomita uma noite inteira de bebedeira. “Faz sentido!”, disse um primeiro, e o público correspondeu e finalmente acompanhou a ideia daquele texto ruinzinho mesmo, de comparações frívolas, sobre – ah!, sobre o amor. “Sempre o amor”, disse o poeta, “o amor fala nenhuma e todas as línguas”, justificando a pobreza de seu filho mais novo, mas também seu estrondoso sucesso.

Reproduziram a poesia no dia seguinte no jornal, e de novo e de novo; até, vejam só, até em areia dura de praia ela foi escrita e reproduzida. Puseram-na em quadros, deram-lhe assinatura de Lispector (assim mesmo: “Como em tudo / o sol desnuda o dia / e as marolas infinitas desse porto… / teus cabelos… / pecado… etc” – Clarisse Lispector) – a que o autor respondeu, numa das entrevistas depois de famoso, que ser comparado a Clarice só o lisonjeava, claro.

Principalmente, deram ao bardo da geração para que a musicasse.

Tratava-se de um bardo moderninho, bacana, de ideias avançadas “desde que…” – e entrava a discutir política num nível que, sinceramente, não comento a vocês por medo de que lhe gostem das ideias. É medo mesmo, sinto muito. O poeta é que estava extasiado demais para se preocupar com isso. Suas ideias políticas também eram confusas.

Fato é que, musicada, a poesia virou sucesso instantâneo. Tocou em novelas – trilha do amor dos mocinhos, vejam só o orgulho – e exauriu as rádios nacionais e quiçá internacionais, singrando mares em cruzeiros (consta que o próprio Roberto a cantaria em Portugal). O filho pobre – de rima pobre, de pobre argumento – era o que orgulhava mais. Era lindo. Era p o p.

Ao poeta, restou sentar-se à escrivaninha e começar de novo a escrever o que já havia dito. Gostava que lhe cantassem. Aos outros, dizia enfim ter alcançado sua “própria identidade” – agora, poderia mudar-se, “reinventar-se” – usava já palavras da moda, cristalinas, que geravam aplausos. Ele admirava seu público inteligente; seu público o devorava em êxtase pornográfico: “mais! mais! mil vezes mais!”

E ele lhes deu mais; mais do mesmo. Ninguém queria nada novo. Nem poeta nem leitor.

Foi nessa simbiose infinita que o poeta (que sonho!) virou produto de prateleira de livraria chique da Zona Sul. Às críticas, a quem o detratava, dizia empafioso que fizesse melhor. Houve até caso em que um colega literário lhe revelasse, em missivas justificadas, a aversão que nutria pelo que começara a produzir. A ele, o poeta respondera (ah!, sublime) em editorial:

o tempo dirá às cartas na mesa

aquilo que com o beijo amargo o ombro alcançou etc

Outro sucesso absoluto. “Poesia em Guerra” alcançou vendas inesperadas para a indústria. POESIA NO MAINSTREAM, era a manchete do caderno de cultura, com o poeta ali embaixo, com foto bonita, lendo o próprio livro (“como se não o conhecesse de cor…” – e o conhecia, porque admirava-se de como não precisava de duas três quatro palavras para alcançar os homens, que o liam; m a e s t r i a).

Verdade é que, de novo, meus amigos, ele não produziu mais nada. Gostava do conforto das palavras velhas, que rangiam de gastas, como mola velha em cadeira de balanço; preferia-as à sorte das esfinges indecifráveis.

Morreu rico. Mas muito mais pobre que seu filho pródigo.

Published in: on 2 de fevereiro de 2015 at 22:58  Deixe um comentário  

Saudade


Diz saúde menino!
Diz obrigado!
Agora a prece e a comida!


e nas alegrias senfins do aprender adolescer
dona Cândida era mestra das obrigações meninas
e dos ready-mades simsenhores dos cafés
(que eu não conhecia.)


tudo em sua boca era viva poesia
e coração.

 

Published in: on 16 de julho de 2013 at 21:50  Comments (1)  

Carnaval de ‘13

Entronizar.

Fazer dos universos possíveis os futuros certos: o melhor dos futuros. Saber-se em oceano aberto, com céu claro e mar limpo e calmo. Sentar-se ao cais ou à pedra esculpida vaidosamente na areia, discutir o futebol e os profundos medos, confiar sua vida às mãos de completos estranhos e criar neles seus mais fortes laços de amizade.

Em marés bravias ou mansas, estejam comigo esses sonhos e momentos (que carrego). Rejuvenesçam-me – a mim, velho e sem graça. Permitam-me grassar, estender o instante ao infinito da memória. Preciso de proteção – a de vocês e a do deus doce que habita essas águas e minhas invenções nubladas pelo sal e pela miopia.

É uma música suave a que me abraça o sono, porque nasce das imagens que ainda me sussurram nosso compartir. Do sopé ao topo da montanha há um longo percurso, mas será bom ter sua companhia a meu lado; já não sinto o desgaste da subida nem o medo da altura. (Vocês são corajosos e me acompanham em segurança.)

Subimos uma montanha qualquer, cujo nome já embota na cabeça preocupada; mas foi a montanha do devir que caminhamos de verdade, inescapável das metáforas que a memória produz. É por isso que, se não estiverem a meu lado pelos próximos caminhos, carrego-os no coração e tudo certo: haverá espaço confortável, sombra, água potável e um gato chamado Passa-Fome que os acompanhe. Meu carinho fraternal, claro. E a promessa de boa música e de boa poesia – as que compusermos, as que quisermos: é tudo nosso.

Afora isso, queria que meu abraço lhes fosse suficiente. Em mim, resguardo e abrigo terão sempre que as adversidades (que não sejam muitas!) lhes trouxerem a necessidade de ajuda. Ainda que cresçam, que se tornem grandes e misteriosos aos olhos da ilha daquele carnaval, encontrem em nossa amizade a proteção e o carinho que lhes dedico em profusão.

Sigamos (felizes, quem sabe?, mas sigamos). Sigamos à frente. Embarquemos a novas ilhas, a novas aventuras, a novas expectativas. E não esqueçamos nunca que, por mais Grande que seja a Ilha, nós sempre estaremos lá, em sombra, naquele tempo e naquelas noites.

Nenhum deus (homem, ser, amnésia, vou nem zoar, vai que…) será jamais capaz de nos negar isso.

 

Published in: on 15 de maio de 2013 at 23:35  Comments (2)  

Sassarico

“Eu sou muito fogoso.”

Muitos risos. As duas senhorinhas riam ardilosas, entreolhando-se, cúmplices, na fila do mercado ainda aberto no dia das mães.

“Meu marido já não é homem há algum tempo…” – saudosa e em ato falho. – “Fogoso! Eu quis dizer fogoso…”

“É porque sou alagoano.”, seguiu ele. “Meu pai deus o tenha foi amigo de Lampião e dizem que chegou a ter lugar no céu marcado pelo próprio Padim Ciço. E isso porque nem ia à igreja.”

As duas riram ainda mais alto. Uma chegou a ser deselegantemente histérica. Só não se sabia se de nervoso ou desejo.

“Eu era conhecido como o vulcão de Alagoas.”

“Ah, graç’adeus no Brasil não tem vulcão.”

“Tem sim, em Minas.”

“Ah, não conta, tô falando no Brasil.”

O velho era impassível e indiferente; interessava-lhe sua história.

“Eu tive quatro mulheres. Quatro.”

“Cruzes! E por que separou tanto?”

“Não separei; enviuvei.”

Tristeza e silêncio respeitoso.

“Nossa, as quatro vezes?” Cada uma buscou um ombro dele, ambas acolhedoras e carinhosas.

“É. As quatro. Nenhuma delas de morte morrida.”

Afastaram-se.

“Mas nenhuma foi culpa minha. Só a terceira. Matei mesmo de prazer.”

A atendente infeliz (só podia ser infeliz) cortou o clima: PRÓÓÓXIMO.

A outra, que ficou, segurou-lhe o braço e pediu:

“Me fala de novo. Ela morreu de que mesmo?”

“De p-r-a-z-e-r.”

Um arrepio esquecido há anos cruzou-lhe a espinha. A menina sorriu encabulada. Era um galanteador.

 

Published in: on 12 de maio de 2013 at 22:39  Deixe um comentário  

As mulheres que já amei pra sempre IV – A que tinha os sapatos mais bonitos

A história começa ridícula e termina, se não trágica ou sem um fim propriamente dito, final, termina de uma forma que leitores-que-gostam-dos-felizes podem parar de ler por aqui. Não é incomum, e Marc Webb já a contara pouco antes de eu deitar o dedo na caneta – this is a story of boy meets girl etc – e é plágio de tantas outras que sinto vergonha. Não da história; mas de repetir o repetido pros cansados de ler sempre as mesmas linhas desses romeus e julietas mal orquestrados pelos corações de homens mal escritos. De ritmo irregular e malcriado, levo pela memória para tentar fazer com que as palavras tropecem do peito pra fora. Se faço o certo e abro o verbo e racionalizo o que conto, é porque tento dar às palavras do coração, que é mau escritor, uma forma que só o cérebro pode entender; perturbo o sono dos músculos cardíacos e faço ventrículos terem pesadelos apressados. Mas preciso correr o risco de ser entendido por aqueles que não deveriam ler minha história – ou qualquer outra – (os insensatos, os racionalistas, os que têm a cabeça no lugar certo. Leitores-espírito-de-porco. Que traem o peito e a alma.) para fazer sentido àqueles que só querem isto: vim, vi, vivi. Pronto. Quem precisa de fatos?

Ela usava sapatos Schutz. O que obviamente para mim não fazia a menor diferença, mas para ela era tudo. ‘Um dia você ainda me escreve sobre os sapatos Schutz laranja de salto altíssimo que usei, não escreve?’ Ela me conhecia. Claro que sim.

Aquela noite em que ela usava tais sapatos não era demais. Era seu aniversário, sim, mas não um redondo ou especial ou importante. Nem de angústia era noite, nem de tensão, romance. Gola de camisa vermelha arrumada para mim. Saia comprida azul e camisa colada ao corpo para ela (ela ainda sabia que eu gostava dela de saia?). Blazer, formal, blasé. Não era casual o encontro. Mas não dizia muito.

Mesma intimidade, mesmo toque. Mesma boca que me sussurrava oi ao ouvido enquanto me abraçava. Mesmo perfume. Mesmos amigos. Ela não mudava.

Ainda assim, era uma mulher muito diferente.

Mas eu fazia as vezes quixotescas e falava sobre gigantes com moinhos de vento:

– Lembrei de você em Nova York. Nova York é a sua cara. Vários sapatos desse estilo.

E o que se passava em minha cabeça era que dizia sinto sua falta mais que tudo. (- Diga bom-dia para a noite, que já quase é minha hora. Ou me abraça forte e não me deixa ir. Não há muito mais que esse momento em que meus pés querem criar raízes no seu apartamento. Braços, pescoço, barriga, todo meu corpo é extensão do seu castelo. Essa noite; uma dança ruim de uma música que desconheço, mas que você sabe de cor; duas ou três lembranças do que já fomos. Isso bastaria para mim – comida, água, desejo. Não sou um homem de ambições maiores.)

– É, eu também sabia que você ia gostar de Nova York.

(- Eu sei. Por isso que não. Porque eu preciso de homem de ambições grandiosas. Não de meninos com ridícula obsessão de amor.)

– Vou ali pegar um 18 anos. Quer Chandon?

– (risada) Você me conhece…

Conhecia e não conhecia já àquela altura. Ela era amalgamática simbiótica antitetânica – da biologia que desconheço, ela era razão e circunstância do cientista louco, a vacina que eu procurara por anos a fio de pesquisa alquimística, hiperbólica e proparoxítona. A cada vez que me aproximava de uma resposta que sanasse o maldito vírus, a cura inexorável do vírus com que eu mesmo me infectara para a experiência, ela, virótica, mutava; calçava outros sapatos – Louis Vuitton, Louboutin, Manolo Blahnik – e voilá, eis a mulher, mutatis mutandis, a essência e o essencial, biologicamente a mulher, monalisática, enigmática, síntese da minha dúvida de amá-la para sempre e de a nunca mais querer.

Jogou o cabelo para o lado com um meneio singular do pescoço. Acenei com um sorriso.

– Claro. Te conheço como ninguém.

Ela era o Mistério; dizia sempre mais de mim que dela mesma. Do que revelava, só seus sapatos Schutz de cor laranja altíssimos, salto agulha, eram os culpados pela minha covardia.

A noite decorreu sem mais demora. Os leitores, mal acostumados, já não tardam em me perguntar o que era, o que rolou. “Vocês se amam ainda? Vão ficar juntos? E aquela noite?”

Aquela noite é minha memória e não a divido. Sinto muito; há segredos que são mais bonitos quando em mistério. Mesmo para mim há uma tênue névoa que me embota a memória e impede objetividade: tudo é nuvem e tolice quando, em idílios, sofismamos. Não importam os fatos.

Para que não fiquem os curiosos a insatisfazer-se em torturas de imaginar o que foi, a pensar no pião que gira ao fim de um filme sem fim, sem final propriamente dito, respondo que sim, é o que o leitor paciente imagina: nós nos amamos ainda e para sempre. Não seremos desconhecidos nos mapas dos desejos do outro, nem estranhos, nem inconvenientes, nunca mais. Ela é meu detergente e minha mácula, doce e sal juntos como ovo frito com banana, a vontade de pra sempre e a finitude, sem oximoro: só o inadiável desejo de querer o que já foi, o que não será mais.

Ao final, porém, de tudo o que ela já me disse – e eu copio, por absoluta incapacidade de dizer de outro jeito –, resta o que já ouvi triste, quando ainda não entendia:

– É verdade. Eu te amo. Mas às vezes amor não basta. Você não vê?

Não via. Olhava para baixo. Ela estava descalça quando me atirou na cara o que me era cegueira branca. Foi quando ali, prostrado, criatura miserável, cresci. Virei homem feito. Entendi Fernando Pessoa e tudo.

E o que me era indiferente virou claro, o que me era estúpido, sagrado, o que me era vivo, narcoléptico; dormem em sono pesado o coração e a alma plúmbea.

Para que o leitor não tenha sono desconfortável, digo-lhe que é a vida. Que tudo bem, a gente aprende. E que, afinal, não poderia haver mais bonita história de amor.

Se sangra o peito, leitor, se lhe rangem os ossos, então é a conclusão que adio há quatro parágrafos – por absoluta incompreensão e plena certeza de que fim não há –: da entrega e da verdade, nascem as mais bonitas cicatrizes.

Cicatrizes laranja de salto altíssimo. O chique no úrtimo no brechó do coração.

 

Published in: on 19 de novembro de 2012 at 21:27  Comments (2)  

Pop song


“Página vinte-nove,
poema seis.
Tal tal e tal.”


Lá vem a professora
e seu ridículo de amor.


No caderno,
litera-tura,
escrita na pedra:


‘Ainda que se somem às minhas
suas falhas malfadadas,
nunca
(e eu disse nunca,
de um nunca para-sempre,
que nenhuma
palavra
poesia
mentira
possa desfazer de sua absoluta condição de nunquidade)
direi que não fui feliz
por você.’


(Ainda que me reste a embriaguez
dos fracos
e uma música
ruim
que me faça
o desfeitio
de pensar o contrário.)


Desdito o poema.
sobra o vício do vento,
a lufada na cara
e o concerto de Brandeburgo.


(Que você me deixou por não gostar de Bach
e por pena
de não ter permitido no peito
nem um coração falso de lata
nem o conforto do cinismo.)

Published in: on 26 de agosto de 2012 at 01:48  Deixe um comentário  

Soneto a M***, para que compreenda a graça da vida e os desígnios misteriosos dos caminhos com que ela, torta, narra seus personagens


Havia Anne Marie, a louca francesa,
Mulher de desejos, vis fantasias,
Que escapava de sua incerta tristeza
Em vidas tortas de gentes vazias.


Piratas havia de tanta destreza
Que, certa feita, em águas bravias,
Antes que da morte fossem doces presas
Verteram silêncio: noites tardias.


Milhões de palhaços vestindo turquesa
Azuis como tais, assim, não havia.
Em circos, a vida: mendigo, princesa.


Por fim, destoante (vã alegria):
Na fé, nas mãos sós de quem despreza a reza,
Ainda há punho a sangrar poesia.

Published in: on 17 de junho de 2012 at 17:39  Comments (1)  

As mulheres que já amei pra sempre III – A que estudava o teatro moderno inglês e fazia de conta

[Ato único: em que se estabelecem as personagens e seus dramas]

[Bastião] Oh vil, cruel desterro que a mim vossas graças impõem; exílio – ímprobo, por força do verbo – que tem por fim meu manifesto desejo de rendição e retorno. Quando não avilta a alma, ao coração rende porfírias. Morre em mim o que eu sou. Torno a vós e me encontro: sou o que sois, não o que de mim dizem meus álbuns ou diários secretos.

[Carmen] Ai de mim, que sofro já em ouvir tanta lamúria. Pensais mal de mim, errante misterioso a meus caminhos, se credes que o opróbrio afaga meus desejos. Não sois, homem justo – perjúria das perjúrias! -, o que me fazeis crer que sejais. Vossos lábios perfidiosos não pretendem senão buscar no desterro motivos para um coração nômade, que nunca encontra na terra o que vos assente o espírito. Tal o imbróglio de gregória e trágica encenação, provocai-me; e às minhas perturbações há-de m’abandonar quando houverdes de acompanhar o dissabor da maré, ou quando, por fim, satisfizerdes as vontades de homem e embebedardes o espírito dos desejos luxuriantes de uma virgem.

[Bastião] Nobilíssima senhora, feri-me com o chicote de vossas dúvidas. Vede: sofro em morte silenciosa com o temor de que acreditais no que dizeis. Pondes em dúvidas meu jogo; chamais o blefe: justo eu, que seria capaz mesmo de recitar-vos todas as vezes que vos mirei, da primeira à última, de coração e memória, vívidas que tais e tantas se repetem em mim.

[Carmen] Pois?!

[Bastião] Juro-vos. A vez primeira foi de antes de vos conhecer. Foi a despir-se de vida que vos encontrei em sonho. Provável é que não fôsseis vós, mas a pálida sombra que vos acompanha, tímida à estrela alva que trazíeis a consorte. Lembro-me assustado do que vi: da Ceifadora, ouvíeis melodias e promessas d’eternidade; das almas que caminhavam entre o abismo e a luz, sussurros e composições funestas sobre o futuro que não havíeis de encontrar. E, pois, decerto, assim morríeis.
Toquei-vos os lábios. E já não éreis Matéria. Transformáveis-vos em pó, em coisa torta, nobre e delicada, em ingrediente para estrelas e diamantes. O que de outrora vida e carne se compunha, doravante servia à brisa, aos sicômoros, aos tordos do visgueiro, às rochas do tropeçado riacho. Embaçáveis minhas vistas à explosão de vossas entranhas, e embargáveis minha voz ao encostar de vossos transmutados lábios. Despertei com a cama empapuçada e triste de memória que não me pertencia.

[Carmen] Não zombais de mim, ilustre senhor? Jurai pelo sol, que, menos inconstante que a lua, assoberba os dias em que espero pelo deleite de ser daquele que me há-de amar, e eu não mais terei motivos para a lágrima ou o peito dolorido, e todo arfar será de volição, e toda lágrima, de compleição e fé; e eu guardarei olhos que os sejam apenas para os vossos, e braços para vosso novo abrigo, e peito para vossa empresa. Assegurai-vos de que havemos de permanecer em carne e unha, em pele e alma, e assegurar-vos-ei de que sejais o homem.

[Bastião] Vossas palavras me despertam de anos de estase e vilania. Meu coração nunca antes pulsara, mas só agora percebo, pois que agora o sinto. Vivo, eu digo. Vivo é o que sou. E homem. Encerremos o quórum. Deponhai, pois, vossos sagrados segredos, e seremos homem e mulher, não mais aos olhos dos homens, mas também aos de Deus, que ora nos ausculta, cirurgião preciso das almas dos homens. Alegrai-vos, coração meu!, que bem maior não pode haver nesta ou em qualquer outra taberna, terrena ou celestial. Tocai, Anjos, as Trombetas do Juízo Final. Já não existo em mim. Completa está auspiciosa metamorfose. Somos um.

[Epílogo: em que se sai do palco]

(Entre afagos)

[Nu] Já é ou já era?

[Nua] Jaé!

Published in: on 7 de maio de 2012 at 22:58  Comments (2)  

Prosa em verso sobre o infinito questionamento vida céu inferno [ou Compilação sobre a estranheza de não ter sido]


Ei!
Era provocação.
Eu?
Claro!
Estapeava-lhe a cara.
“claroclaroclaroclaro” – ecoava numa guitarra que soava um baixo.
Clara era o nome dela. A guitarra. Clara.


Perigo por perto!
Vinham das ruas e seus gritos desleixados.
Em vez de sangrar rebeldia, era puro.
Voava baixo, ouvia seus pais.
Virginal.
Formaria família e teria netos indecentes.
Tudo normal, tal e qual.


“claroclaroclaroclaro”
Clara perturbava-lhe o sono.
“Bom-dia, América.”
Na tevê, a vida que deveria.
Vovó sentada, Alzheimer.
Nos sons disformes de Clara, a vida que não.
“merdamerdamerdamerda”


O cinema veio antes com paixão à primeira vista.
As novas películas da MGM e da Twentieth Century Fox.
“O homem que não vendeu sua alma ganhou Oscar.”
“claroclaroclaroclaro” ria ecoava.
Debatia-se com o peiote na mão.
Hesitação.
Os sons da caixa estéreo – lançamento! – e do foguete de 68.


Alzheimer isquemia paralisia cerebral
Virgindade intolerância dor de dente surreal
Dose dupla de uísque cocaína universal:
Religião.
Outra dose outra dose outra dose outra dose
“claroclaroclaroclaro”
Claro, Clara!


Só pra ele fazia sentido, adolescente.
Semsom semtom semsação. Vazio na alma.
Já tomava ácido para deleitar o espírito.
Teria netos decentes mas não formaria família.
Levaria todos em excursão de turismo ao Vietnã.
Entrava em avião barulhento e saía mudo pensando em crianças seminuas correndo do inimigo.
Sombrio. Taciturno. “Nunca mais.”


Claraboia entreaberta.
Parede quarto escuro – tesouro à esquerda, na segunda prateleira.
Precioso. Só poderia imaginar.
Clara gritava melodia desafinada.
Dizia que era o outro lado da moeda, declamava música, já não cantava.
“Tradição grega, baby.”
Tudo às claras. Menos os olhos fechados.


Era o tempo todo bom, o tempo todo bom.
Mas os olhos vermelhos. A alma vermelha.
Eram ácido e sangue.
Fazia sentido tocar Clara sexualmente.
Erótica-mente. Masturbação o dia todo.
Tarde demais.


A estrada que o conduzia ao necessário era curta.
Caminho do diabo. Frio dos diabos.
Outra dose outra dose outra dose até vomitar sangue e ácido e uísque.
“A morte é logo ali; a vida está perdida adiante, querido.”
“Meu filho, que verdade é esta que só você vê?”
Minha escolha, pai. “claroclaroclaroclaro”
À noite, procurava os amigos.


“Pega leve, baby.”
“Tarde demais, Clara.”
“O senhor aceita a música como sua legítima esposa?”
“Sem aporrinhações? Sem contrato? Aceito.”
“E a senhora?”
Clara hesitou. Como ele já o fizera. Disse sim tímida.
Então ele disse “Tarde demais” e foi morrer sozinho.


O fim.
“Não está certo.”
Quis voltar; sabia que teria netos nem bons nem maus.
“Sim papai sim mamãe nós te amamos” etc.
A tevê estava ligada no mudo. Que nem seu futuro.
Mas seu passado gritava como uma guitarra que soava um baixo.
Em Paris, fazia frio. A Oeste, a vida prosseguia sem graça. “claroclaroclaroclaro” etc.

Published in: on 18 de março de 2012 at 13:02  Deixe um comentário  

Poema caricatural e mal-feito a partir da reflexão sobre a poesia inspirada pela releitura de Breves Cantares de Nós Dois


Um poeta suburbano
Mentoou estes cantares
Que canto com cortisia,
Cortisona e brevidades
(Não nego minhas origens,
Sou cantador de cidades)
Pra falar de repitidas
Rotinas, trivialidades.


(Sem ritimessem compasso
‘metendo barbaridade
Pra caber tudo tinindo
No espaço diú’a saudade
Que sinto crescer no peito
Por tantarbitrariedade
Quencontrei nesse mau mundo
De meu deus nossossenhor –
Chega desafina a rima
Diante total pavor
Dos is ficarem sem pingo
Do diabo ser tentador
De se perder dentro em si
Por total falta diamor.)


Mas me perco em desatino
Como é comum de pensar:
“Poeta serve pra nada
Que não pra falar de mar” –
E mar é onda que bate
E onda é mal de matar
E morre tudo afogado
Em porto de não-chegar.


“Poeta fala do óbvio” –
Seguem a tagarelar –
“Complicam tudo qué fácil
Só pra não se desmudar
E dizer que era mais claro
Mais viver que atormentar
Coesse monte de palavra
As coisas de seu lugar:
Comida que vai na boca
Pros pulmões vai todo ar
Chinelo pro pé cansado
E o amor, pra outro lar.
Os poeta muda tudo
Só pra não ter dencarar
Que o amor é mole mole:
É só questão de se amar.”


O que eles não entende
É que amar vem de há-mar;
Que as onda que bate fora
Bate dentro sem notar
E que amor não é tão simples
É porto de não-chegar.
(Repito de verso antes
Sem tentar nem disfarçar
Que tem dito que é redito
Pelo ato de contar
E nem assim gente aprende:
Não sabe diferençar.
Fica o dito por não-dito
É melhor que não rimar.)


Eu não sou pobre ou roceiro
Mas me permito imitar
Com toda pompa e respeito
Os cantos do ser tão-mar
Que uso pras tais toadas
E por puro acreditar
Que sabem mais do que eu
Das coisas de céu e ar.


(E se deus existe mesmo
É n’ato de poemar
Sangue veia pulso vida
Pra todo amar que há-mar
Que desconheço de vista
Mas conheço douvir falar
De poemas tão melhores
Sobre que arrisquei cantar
Em sete estrofes malfeitas
Mas puras de soberbar.
Se não fui muito gostado
É melhor só me culpar
Que cantor não há pior
Que o que não sabe parar
Que tem cabeça nas nuvens
E o corpo noutro lugar.
Mas não é cantor quem diz
Que é outro o seu cantar:
Poeta fala de amor
Quantas vezes precisar
Até neguim aprender
Que é doce morrer no mar…)

Published in: on 19 de novembro de 2011 at 01:22  Comments (1)  
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