Enquanto eu, solerte, rezava a Santa Inês que falhassem as orações em seu nome, aproveitava a vida. Saltei de um apeadeiro em Angra e entrei pela porta dos fundos, pasmo com a vista. Acoei.
Parecia uma farsa. Mas era carnaval. E eu ali, na conspícua betesga que esbordava Portogalo.
O sol dealbava os tijolos – das ruas, dos olhos de corindon; a casa, pária, estou certo, deu origem ao filho de Dédalo e fez os sonhos voarem. Uma nuvem de sarin – enfeitiçada, claro – entrava pelo postigo, exalando uma pânria surreal. Nem Tântalo tinha um palácio daqueles. Um racemo e, taí, só faltariam as bacantes para a ode a Baco.
E eu com minhas orações a Santa Inês. Ô, boa Santa Inês. Tampou os olhos na hora-certa. No em-ponto. E, se não me engano, ainda senti um aflar santo no que era o momento.
E nada sorvou o momento; nem o caseoso parlatório da ostentação, nem a vitória da Beija-Flor. Criaram-se novas vedas: de amor mútuo, de promessas de amizade. Era o ilapso. Divino. Mais-que-divino. Na festa da carne, a adoração à divindade humana. Saímos da ruela sem vista da pequenês ao belvedere espiritual. Kamadeva puro. Ascese bonita mesmo. Contrapontual.
As bases foram fortes, a quem duvida. Laterícias. E o que poderia tisnar descartamos.
Construímos um Estado laico de farras e amizade. Ê, carnaval!…
Você definitivamente precisa publicar seus textos. Ontem!
Não se subestime, o senhor realmente escreve bem.
Embora eu não escreva maravilhosamente, eu me esforço para me aproximar do senhor ao máximo.
Continue escrevendo e eu continuarei lendo.
ps: O senhor é ateu porque acredita que a religião bloqueia capacidades intelectuais ou porque não acredita em nenhum religião?
Carnaval, onde os ateus rezam para Santas. Isso nem Visa compra.
Só porque o carnaval é a unica época do ano na qual a hipocrisia, a depravação e a falta de moral se tornam socialmente aceitáveis e, pasmem, necessárias.
Seus textos são lindos… eu mergulho neles enquanto leio.
E esse mergulho como é? Há dive-ins muito ruins…
Ahhhh, gostei de ver! Esse carnaval foi muito bom!
Íris, minha querida: esse Carnaval foi inesquecível.
(E se não fosse um erro tão absurdo, eu reiteraria com “o mais inesquecível”…)
Beijos e saudades!
Concordo com a Iris!
ASempre adorei esse texto.
É um dos textos mais importantes e queridos que já escrevi. Pessoalmente, claro. Uma pena, no entanto, que você tenha desistido de escrever (ou publicar, não sei) os seus. Gostava deles demais.