Carnaval de ’07

Enquanto eu, solerte, rezava a Santa Inês que falhassem as orações em seu nome, aproveitava a vida. Saltei de um apeadeiro em Angra e entrei pela porta dos fundos, pasmo com a vista. Acoei.

Parecia uma farsa. Mas era carnaval. E eu ali, na conspícua betesga que esbordava Portogalo.

O sol dealbava os tijolos – das ruas, dos olhos de corindon; a casa, pária, estou certo, deu origem ao filho de Dédalo e fez os sonhos voarem. Uma nuvem de sarin – enfeitiçada, claro – entrava pelo postigo, exalando uma pânria surreal. Nem Tântalo tinha um palácio daqueles. Um racemo e, taí, só faltariam as bacantes para a ode a Baco.

E eu com minhas orações a Santa Inês. Ô, boa Santa Inês. Tampou os olhos na hora-certa. No em-ponto. E, se não me engano, ainda senti um aflar santo no que era o momento.

E nada sorvou o momento; nem o caseoso parlatório da ostentação, nem a vitória da Beija-Flor. Criaram-se novas vedas: de amor mútuo, de promessas de amizade. Era o ilapso. Divino. Mais-que-divino. Na festa da carne, a adoração à divindade humana. Saímos da ruela sem vista da pequenês ao belvedere espiritual. Kamadeva puro. Ascese bonita mesmo. Contrapontual.

As bases foram fortes, a quem duvida. Laterícias. E o que poderia tisnar descartamos.

Construímos um Estado laico de farras e amizade. Ê, carnaval!…

Publicado em: às 6 06UTC junho 06UTC 2010 em 15:23  Comentários (10)  

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10 ComentáriosDeixe um comentário

  1. Você definitivamente precisa publicar seus textos. Ontem!

  2. Não se subestime, o senhor realmente escreve bem.
    Embora eu não escreva maravilhosamente, eu me esforço para me aproximar do senhor ao máximo.
    Continue escrevendo e eu continuarei lendo.

    ps: O senhor é ateu porque acredita que a religião bloqueia capacidades intelectuais ou porque não acredita em nenhum religião?

  3. Carnaval, onde os ateus rezam para Santas. Isso nem Visa compra.

  4. Só porque o carnaval é a unica época do ano na qual a hipocrisia, a depravação e a falta de moral se tornam socialmente aceitáveis e, pasmem, necessárias.

  5. Seus textos são lindos… eu mergulho neles enquanto leio.

    • E esse mergulho como é? Há dive-ins muito ruins…

  6. Ahhhh, gostei de ver! Esse carnaval foi muito bom!

    • Íris, minha querida: esse Carnaval foi inesquecível.

      (E se não fosse um erro tão absurdo, eu reiteraria com “o mais inesquecível”…)

      Beijos e saudades!

  7. Concordo com a Iris!

    ASempre adorei esse texto.

    • É um dos textos mais importantes e queridos que já escrevi. Pessoalmente, claro. Uma pena, no entanto, que você tenha desistido de escrever (ou publicar, não sei) os seus. Gostava deles demais.


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