As mulheres que já amei pra sempre III – A que estudava o teatro moderno inglês e fazia de conta

[Ato único: em que se estabelecem as personagens e seus dramas]

[Bastião] Oh vil, cruel desterro que a mim vossas graças impõem; exílio – ímprobo, por força do verbo – que tem por fim meu manifesto desejo de rendição e retorno. Quando não avilta a alma, ao coração rende porfírias. Morre em mim o que eu sou. Torno a vós e me encontro: sou o que sois, não o que de mim dizem meus álbuns ou diários secretos.

[Carmen] Ai de mim, que sofro já em ouvir tanta lamúria. Pensais mal de mim, errante misterioso a meus caminhos, se credes que o opróbrio afaga meus desejos. Não sois, homem justo – perjúria das perjúrias! -, o que me fazeis crer que sejais. Vossos lábios perfidiosos não pretendem senão buscar no desterro motivos para um coração nômade, que nunca encontra na terra o que vos assente o espírito. Tal o imbróglio de gregória e trágica encenação, provocai-me; e às minhas perturbações há-de m’abandonar quando houverdes de acompanhar o dissabor da maré, ou quando, por fim, satisfizerdes as vontades de homem e embebedardes o espírito dos desejos luxuriantes de uma virgem.

[Bastião] Nobilíssima senhora, feri-me com o chicote de vossas dúvidas. Vede: sofro em morte silenciosa com o temor de que acreditais no que dizeis. Pondes em dúvidas meu jogo; chamais o blefe: justo eu, que seria capaz mesmo de recitar-vos todas as vezes que vos mirei, da primeira à última, de coração e memória, vívidas que tais e tantas se repetem em mim.

[Carmen] Pois?!

[Bastião] Juro-vos. A vez primeira foi de antes de vos conhecer. Foi a despir-se de vida que vos encontrei em sonho. Provável é que não fôsseis vós, mas a pálida sombra que vos acompanha, tímida à estrela alva que trazíeis a consorte. Lembro-me assustado do que vi: da Ceifadora, ouvíeis melodias e promessas d’eternidade; das almas que caminhavam entre o abismo e a luz, sussurros e composições funestas sobre o futuro que não havíeis de encontrar. E, pois, decerto, assim morríeis.
Toquei-vos os lábios. E já não éreis Matéria. Transformáveis-vos em pó, em coisa torta, nobre e delicada, em ingrediente para estrelas e diamantes. O que de outrora vida e carne se compunha, doravante servia à brisa, aos sicômoros, aos tordos do visgueiro, às rochas do tropeçado riacho. Embaçáveis minhas vistas à explosão de vossas entranhas, e embargáveis minha voz ao encostar de vossos transmutados lábios. Despertei com a cama empapuçada e triste de memória que não me pertencia.

[Carmen] Não zombais de mim, ilustre senhor? Jurai pelo sol, que, menos inconstante que a lua, assoberba os dias em que espero pelo deleite de ser daquele que me há-de amar, e eu não mais terei motivos para a lágrima ou o peito dolorido, e todo arfar será de volição, e toda lágrima, de compleição e fé; e eu guardarei olhos que os sejam apenas para os vossos, e braços para vosso novo abrigo, e peito para vossa empresa. Assegurai-vos de que havemos de permanecer em carne e unha, em pele e alma, e assegurar-vos-ei de que sejais o homem.

[Bastião] Vossas palavras me despertam de anos de estase e vilania. Meu coração nunca antes pulsara, mas só agora percebo, pois que agora o sinto. Vivo, eu digo. Vivo é o que sou. E homem. Encerremos o quórum. Deponhai, pois, vossos sagrados segredos, e seremos homem e mulher, não mais aos olhos dos homens, mas também aos de Deus, que ora nos ausculta, cirurgião preciso das almas dos homens. Alegrai-vos, coração meu!, que bem maior não pode haver nesta ou em qualquer outra taberna, terrena ou celestial. Tocai, Anjos, as Trombetas do Juízo Final. Já não existo em mim. Completa está auspiciosa metamorfose. Somos um.

[Epílogo: em que se sai do palco]

(Entre afagos)

[Nu] Já é ou já era?

[Nua] Jaé!

Publicado em: às 7 de maio de 2012 em 22:58  Comentários (2)  

Prosa em verso sobre o infinito questionamento vida céu inferno [ou Compilação sobre a estranheza de não ter sido]


Ei!
Era provocação.
Eu?
Claro!
Estapeava-lhe a cara.
“claroclaroclaroclaro” – ecoava numa guitarra que soava um baixo.
Clara era o nome dela. A guitarra. Clara.


Perigo por perto!
Vinham das ruas e seus gritos desleixados.
Em vez de sangrar rebeldia, era puro.
Voava baixo, ouvia seus pais.
Virginal.
Formaria família e teria netos indecentes.
Tudo normal, tal e qual.


“claroclaroclaroclaro”
Clara perturbava-lhe o sono.
“Bom-dia, América.”
Na tevê, a vida que deveria.
Vovó sentada, Alzheimer.
Nos sons disformes de Clara, a vida que não.
“merdamerdamerdamerda”


O cinema veio antes com paixão à primeira vista.
As novas películas da MGM e da Twentieth Century Fox.
“O homem que não vendeu sua alma ganhou Oscar.”
“claroclaroclaroclaro” ria ecoava.
Debatia-se com o peiote na mão.
Hesitação.
Os sons da caixa estéreo – lançamento! – e do foguete de 68.


Alzheimer isquemia paralisia cerebral
Virgindade intolerância dor de dente surreal
Dose dupla de uísque cocaína universal:
Religião.
Outra dose outra dose outra dose outra dose
“claroclaroclaroclaro”
Claro, Clara!


Só pra ele fazia sentido, adolescente.
Semsom semtom semsação. Vazio na alma.
Já tomava ácido para deleitar o espírito.
Teria netos decentes mas não formaria família.
Levaria todos em excursão de turismo ao Vietnã.
Entrava em avião barulhento e saía mudo pensando em crianças seminuas correndo do inimigo.
Sombrio. Taciturno. “Nunca mais.”


Claraboia entreaberta.
Parede quarto escuro – tesouro à esquerda, na segunda prateleira.
Precioso. Só poderia imaginar.
Clara gritava melodia desafinada.
Dizia que era o outro lado da moeda, declamava música, já não cantava.
“Tradição grega, baby.”
Tudo às claras. Menos os olhos fechados.


Era o tempo todo bom, o tempo todo bom.
Mas os olhos vermelhos. A alma vermelha.
Eram ácido e sangue.
Fazia sentido tocar Clara sexualmente.
Erótica-mente. Masturbação o dia todo.
Tarde demais.


A estrada que o conduzia ao necessário era curta.
Caminho do diabo. Frio dos diabos.
Outra dose outra dose outra dose até vomitar sangue e ácido e uísque.
“A morte é logo ali; a vida está perdida adiante, querido.”
“Meu filho, que verdade é esta que só você vê?”
Minha escolha, pai. “claroclaroclaroclaro”
À noite, procurava os amigos.


“Pega leve, baby.”
“Tarde demais, Clara.”
“O senhor aceita a música como sua legítima esposa?”
“Sem aporrinhações? Sem contrato? Aceito.”
“E a senhora?”
Clara hesitou. Como ele já o fizera. Disse sim tímida.
Então ele disse “Tarde demais” e foi morrer sozinho.


O fim.
“Não está certo.”
Quis voltar; sabia que teria netos nem bons nem maus.
“Sim papai sim mamãe nós te amamos” etc.
A tevê estava ligada no mudo. Que nem seu futuro.
Mas seu passado gritava como uma guitarra que soava um baixo.
Em Paris, fazia frio. A Oeste, a vida prosseguia sem graça. “claroclaroclaroclaro” etc.

Publicado em: às 18 de março de 2012 em 13:02  Deixe um comentário  

Poema caricatural e mal-feito a partir da reflexão sobre a poesia inspirada pela releitura de Breves Cantares de Nós Dois


Um poeta suburbano
Mentoou estes cantares
Que canto com cortisia,
Cortisona e brevidades
(Não nego minhas origens,
Sou cantador de cidades)
Pra falar de repitidas
Rotinas, trivialidades.


(Sem ritimessem compasso
‘metendo barbaridade
Pra caber tudo tinindo
No espaço diú’a saudade
Que sinto crescer no peito
Por tantarbitrariedade
Quencontrei nesse mau mundo
De meu deus nossossenhor -
Chega desafina a rima
Diante total pavor
Dos is ficarem sem pingo
Do diabo ser tentador
De se perder dentro em si
Por total falta diamor.)


Mas me perco em desatino
Como é comum de pensar:
“Poeta serve pra nada
Que não pra falar de mar” -
E mar é onda que bate
E onda é mal de matar
E morre tudo afogado
Em porto de não-chegar.


“Poeta fala do óbvio” -
Seguem a tagarelar -
“Complicam tudo qué fácil
Só pra não se desmudar
E dizer que era mais claro
Mais viver que atormentar
Coesse monte de palavra
As coisas de seu lugar:
Comida que vai na boca
Pros pulmões vai todo ar
Chinelo pro pé cansado
E o amor, pra outro lar.
Os poeta muda tudo
Só pra não ter dencarar
Que o amor é mole mole:
É só questão de se amar.”


O que eles não entende
É que amar vem de há-mar;
Que as onda que bate fora
Bate dentro sem notar
E que amor não é tão simples
É porto de não-chegar.
(Repito de verso antes
Sem tentar nem disfarçar
Que tem dito que é redito
Pelo ato de contar
E nem assim gente aprende:
Não sabe diferençar.
Fica o dito por não-dito
É melhor que não rimar.)


Eu não sou pobre ou roceiro
Mas me permito imitar
Com toda pompa e respeito
Os cantos do ser tão-mar
Que uso pras tais toadas
E por puro acreditar
Que sabem mais do que eu
Das coisas de céu e ar.


(E se deus existe mesmo
É n’ato de poemar
Sangue veia pulso vida
Pra todo amar que há-mar
Que desconheço de vista
Mas conheço douvir falar
De poemas tão melhores
Sobre que arrisquei cantar
Em sete estrofes malfeitas
Mas puras de soberbar.
Se não fui muito gostado
É melhor só me culpar
Que cantor não há pior
Que o que não sabe parar
Que tem cabeça nas nuvens
E o corpo noutro lugar.
Mas não é cantor quem diz
Que é outro o seu cantar:
Poeta fala de amor
Quantas vezes precisar
Até neguim aprender
Que é doce morrer no mar…)

Publicado em: às 19 de novembro de 2011 em 01:22  Comentários (1)  

Tempestade

Creio que, a essa altura, vocês já devem ter lido neste texto do Protótipo o que acontecerá em muitas postagens, a partir de agora. Se ainda não o fizeram, tenham a gentileza, antes de seguir adiante com a leitura, s’il vou plaît.

Se tudo der razoavelmente certo – embora me seja impossível prever o tempo que cada um dedica ao ato em si –, a peça musical a seguir terá alguns fortuitos diálogos com a texto. Tudo sorte, claro. Só não se apressem. Aproveitem o som, sua explicação, as descrições. Deem o play logo de início, esperem começar a canção e— bem, encontrem suas próprias coincidências.

Ah, claro! Aceito as próximas sugestões nos comentários. Sintam-se à vontade.

Deadman’s Gun é composição da banda independente Ashtar Command. Tornou-se mais conhecida como parte do game Red Dead Redemption. Para traduzir: em linhas gerais, o jogo se passa em 1911, no apagar das luzes da Corrida para o Oeste americano, e narra a cinematográfica história de John Marston, ex-foragido, que trocou o crime por uma vida na fazenda, ao lado de sua família. Seria singela, trivial até, se esta não fosse uma história sobre o passado. Mas o é. E o passado, como se sabe, costuma cobrar caro suas dívidas…

Às doze em ponto, subiu a escada. Sol a pino. Areava sob seus pés a pedra seca; a cabeça atrás, em outras paragens, em outras muitas paisagens por que já passara. Estava cansado.

“Eu tenho o hábito de não falar muito o que penso. Mas penso muito.” Era o peso das costas que lhe pedia que contasse, afoito, as excentricidades que lhe vinham à cabeça aos que estavam à sua volta. Na subida, enquanto ensaiava os contares, arfava; e a escada alcançava seu patamar mais alto. Ajustou o corselete ao peito, e então a espada à bainha. Não sabia por que carregava a espada, mas imaginava. Não sabia o caminho que percorria, mas o caminhava. Era o que deveria ser feito.

No alto da escada montanhosa, à direita, a trilha seguia ao infinito. Eram obscuros e nunca traçados passos a lembranças de histórias de ninar: levava a bosques e reinações de outrora; outra época que não fazia sentido. Olhava à direita e via o desconcerto: era tudo um borrão, uma aglomeração de passados. (Ali não poderia ser o adiante. Era o retorno, o atrás, o que ficou. Seus pertences. Memória.)

À esquerda, o caminho se bifurcava em muitos outros; tantos, que não se os distinguiam. Eram repletos: de gritos, de lamentos, de vazios. Também de gracejos, de boas risadas. Estranhamente, porém, deixava-se inundar pelas tristezas; fraquejou; arqueou as pernas; ajoelhou-se. Não, não era memória. Era o que ficava, o que deixava pra trás. As lutas que travara. As lutas que perdera. Todas. (Então aquele também não era o caminho que fazia avançar.)

Avançar. Parecia-lhe ora desnecessário pensar em “ir à frente”. Mas era demasiado humano para saber que precisava das metáforas. Aquela alegoria era, talvez, bonita; gostava da espada, que dava um ar caricatural à coisa toda – a imaginação, mais que a lembrança, regia o momento como a uma orquestra magnífica; não poderia imaginar melhor. A espada; afinal, uma arma que poderia usar em batalhas; era o guerreiro já agora. Sentia-se forte. E era nela que, como num cajado, apoiava-se para erguer os joelhos do chão. (Gostava de como a cabeça contornava os ultrajes que o corpo impunha. Imaginar.)

O adiante era à frente. Caminhada longa sobre areia e grama. Olhava o chão: antes, desatento; mas enfim com curiosidade que o fez perceber: seguia pegadas. Alguém já estivera ali antes. Não demorou a notar que os passos eram como os seus próprios. Pés maiores, mas menos firmes; traçavam a direção. “Em direção à tempestade? Que seja.” Não se sentia particularmente corajoso. Sentia-se cansado, como já o havíamos visto. Dera seu próprio sangue aos demônios que o consumiam; e duas moedas para o barqueiro. Mas isso, antes desta última etapa. O que descobriu, involuntariamente: que aqueles passos eram seus. Não de agora, que era a primeira vez que conhecia aquela trilha. Mas de depois. Ali, quando tempo não importava. Eram seus e de seu pai. Seu pai de antes. De menino. A mesma pisada.

“À tempestade.” (Já sentia os pingos no rosto; limpava-os por puro hábito; sentia-se limpo e disposto. Ajustou o corselete mais uma vez. Tocou a espada. Queria ter levado um chapéu.)

Na última e (talvez) primeira vez em que se percebeu homem, não viu luz, deus, nada; era só sua sombra que adentrava uma nuvem espessa, densa, num caminho que se percorre sozinho.

A despeito de tudo, não teve medo. Morrer era só um inevitável passo. A nuvem o abraçou com seus infinitos braços e ele não sentiu mais frio.

Publicado em: às 14 de novembro de 2011 em 23:13  Comentários (8)  

As mulheres que já amei pra sempre II – A que me fez um verso bonito mas não era poetisa

, que infelicidade a gente toma de qualquer jeito, a pílulas ou conta-gotas. Tem barro demais embaixo dos sapatos, e isso já dá até pra contar uma história, não bonita nem triste nem nada sobre como aquilo tudo fora parar ali. Diga-se não muito. Que é pro leitor não cansar e não perder o foco da graça solta da coisa toda. Mas diga-se uma anedota engraçadinha pra bastar no contrapeso da balança.

Antes, era daquelas pra quem olhava e já sabia antecipar-lhe o gosto da boca. Os sabores diziam tudo ou quase sobre seus desejos: antidesejos. Realizava-os molemente, malemolente, a seu tempo.

Depois, era daquelas que descobria aos poucos, e a quem cobria de novo com um véu de solenidades para mascarar-lhe os perfumes. E redescobri-los uma vez mais. Era um jogo que ambos jogavam com gosto e com riso. E com pranteares, mais tarde. Como ele já sabia, mas não revelava. Como ele já sabia.

Ele sabia de tudo, eu poderia dizer, como numa peça sem público, um verdadeiro fracasso, que se ensaia muito apenas – apenas – para o êxtase e as alegrias do próprio ator. Os passos e os erros e os acertos e como aquela história toda se juntaria a metáforas de barros e sapatos ele sabia. Sabia, porque traçara roteiros semelhantes. O final era sempre antiapoteótico, dir-se-ia um pastiche. Um tango. Um romance do Puig.

Boquitas pintadas – era o que pensava – e lá estava ela de novo, já arrumada. Foi quando (ela) poemou-se-lhe a fazer versos carinhosos assim do nada.


rezo aos anjos

e a um deus piedoso

que o barco atravesse o rio

que o rio corra ao mar

que o mar se atulhe e vaze

em ondas, sortes, azares

como ordenam o curso dos desígnios


e a vida


Ele acariciou-a com os lábios molhados e pediu mais um verso. Ela então disse-lhe


é a vida.


Tocou o telefone e ele deixou tocar. Não era nada, ele dizia. A vida é meu momento é meu momento é meu momento aqui. Negou os tais desígnios, mas soube-se inapelavelmente preso a eles. Essa história de destino que esperasse. Os barros para o sapato, as metáforas, ao diabo com as metáforas – elas que esperassem.

Era ali, só, feliz. Sem saber. Que felicidade não se sabe nunca. E por isso, talvez, fosse.

E era questão de tempo até que, por fim ou finalidade,

Publicado em: às 5 de junho de 2011 em 22:34  Comentários (11)  

Ano Novo

É pau, é pedra. Mas tá longe de ser o fim do caminho.

De mais a mais, tudo é a travessia, como diria o Rosa. E travessia é caminho que se marca com o pé descalço, pé cascudo, pé-que-não-se-guenta-mais (pelo amor de deus). Caminho construído de pegada – daquela que a gente deixa n’areia e daquela que a gente pega-e-não-larga, pegada pelo cabelo, pela cintura do corpo da moça que dança dança fogosa, escorrega, beija bem e deixa saudade.

(A vida é de deixar saudade…)

Saudade de tudo no caminho. Do que veio, do que é. Nesse sentimento inquieto, indecente, que faz vazar água dos olhos e o peito deixa cheio de vazio. Vontade de sentir de novo, de voltar a ser, de lembrar “foi bom”. Sem mas. Sem circuntâncias adversativas ou concessivas. Sem adjuntos entre sujeito e verbo, entre o eu e o ser. Eu sou, eu vivo, eu agora. Eu já – imperativo do verbo caminho.

Eu já. Um-do-la-si. Como quando a gente era pequeno, lembra? Como quando a vida não era preocupar e a gente só ria da palavra pum. A única ocupação era a bola. A única atitude era o sim. A única verdade era a que a gente não sabia. Caminho de espinhos no dedo, farpa, arranhão. Caminho de café, cheiro de chuva: nostalgia. Caminho difícil. Caminho bom como fruta madura.

Negócio de maturidade é que mata. Novo demais pra vida, velho demais pro resto. Café-colégio, almoço-cursinho, café-estuda, lanchinho-dorme. E tome gravata, né, Vinicius? A moça fogosa volta a dançar na sua frente, e você mal tem tempo de chegar junto, de tentar a cantada infalível e conquistá-la de vez. Você observa, espera, torce pra que ela não suma num relance. Ela some. Invariavelmente, ela some.

(E você continua a busca pela boca perfeita, pelos olhos pra-sempre, pelo sorriso que ela deixou estampado como tatuagem.)

À sua frente, o desconhecido e a vontade de que pelo menos seja bom.

Daí o medo do devir, do vir-a-ser, e a saudade estranha do futuro. Saudade que dá não-sei-por-quê (não perguntem, também estou aprendendo…), entre alvoradas, depois de uma noite mal dormida e bem vivida, uma dessas noites pra-sempre (“pra sempre nós, pra sempre essa lua, pra sempre o que vier – ‘tamos juntos!”). Dessas noites em que a gente olha pra frente e pensa que, enfim, pode valer a pena.

No que olha pra frente, olha pra trás (sempre a ambiguidade…). E pensa que foi bom até aqui. Que valeram os passos (as pegadas). Que não foi em vão. Há a esperança.

É aí que, pela terceira vez, a moça dança à sua frente. Vem e balança, vem e abraça, vem e dá um beijo. Sussurra o nome dela em seu ouvido, baixinho, e se desvela à sua mercê: “Eu sou Vida. E agora você me tem pra sempre.”

É pau, é pedra. Mas, como já disse, não é o fim do caminho. O abraço de Vida é um começo. Um novo começo. De uma nova dança, de uma nova vontade. De muitas outras saudades. Tudo segue adiante (eu, você). Novos passos, descobertas. Novos caminhos. Seguir adiante é o que resta das nossas verdades. Com alegria, sempre. Sempre inseguro, mas confiante. Sempre com fé e força. Sempre atento à travessia.

(Mas que às vezes dói, isso não dá pra negar. E o lance é deixar doer. Foi bom. Vai ser melhor. Disso tenho certeza.)

Publicado em: às 18 de dezembro de 2010 em 23:21  Comentários (17)  

As mulheres que já amei pra sempre I – A que gostava da Nico mas não do Lou

 

 

Here she comes, you better watch your step…


“É. Christa Päffgen. Não digo o contrário.”

“Cara, tou me metendo de birra, o papo não é meu e tá um barulho infernal aqui dentro, mas você não pode estar séria.”

Ela estava. Tinha sardas na pele branca. Loira de fios revoltosos. Ela me lembrava uma tarde lusco-fusco num parque de diversões. Com sorvete. Refletia no sorriso o que era, certo-como-dois-e-dois, os olhos mais bonitos. Muito rímel e lápis. Pretos. Atrás da pupila, uma retina branca branca, de realçar. Franja. E os olhos pretos de novo.

Foi o caminho que percorri até a boca.

“Esquece a banana do Warhol. Esquece tudo. Eles não existiriam sem Femme Fatale.”

Eu não discordava nem discordava. Balançava a cabeça e ria. Femme Fatale.

 

 

She’s going to break your heart in two, it’s true…

 

 

“Era uma profecia…”

Ela me disse isso depois de uma noite dessas que me pareciam comuns. Apertou um cigarro. Olhos pretos fixos no teto. Ventilador que girava sem função.

“Que profec–“

“Shh! Era uma profecia.”

Acho que bateu. Eu (ela) me interrompia pra se deixar levar. Eu a ouvia. Sempre fui de ouvir. A ela principalmente.

Pedi desculpa. Devia ser, eu disse sem nenhuma implicância e com algum interesse. Deve ser.

“Você duvida?”

“Não. Não duvido.”

“Ahn.” Tragou fundo. Soltou o peito lentamente, deixando-se arfar com a saída da fumaça e a entrada de ar. Era bonita.

Pegou de um caderno. “Você é o número 37. Três é o número terreno pros hindus. Quatro é o número sagrado. Sete é a soma dos dois. Você é terra.”

Isso faz de você divina. Era o que eu queria ter dito. Mas talvez não fizesse diferença.

 

 

It’s not hard to realize, just look into her false colored eyes…

 

 

“Mas não é do nada. É que não é mais.”

Eu olhava. Eram os mesmos olhos, não eram mais, eram de novo. “Só me diz que seu nome é Alice, por favor. Alice Ayres.”

Tomou meu rosto entre as mãos. Não sei se eram delas ou minhas, as lágrimas.

“Não. Não, não. Nada de disfarces pra você. Meu querido. Meu querido.”

Não me deixou perguntar por quê. Porque sim, porque preciso. Porque é.”

Mas isso tudo é um disfarce… Pra você é um disfarce. Eu que tragava o cigarro agora. Engolia fumaça. Engolia saliva.

“Você se disfarçou em mim, senhorita Jones…”

Só deu tempo de pegar seu telefone. A porta bateu em seguida.

 

She builds you up to just put you down, what a clown

 

Recebi uma mensagem no celular noite dessas, no bar.

“Watch out, the world’s behind you; there’s always someone around you who will call…”

Olhei pra trás instintivamente. Os cabelos eram pretos. Mas posso estar enganado.

Levantei pra dizer oi. Nunca sozinha. Em pé na varanda. Na mesa vazia mais ao lado, dois copos, duas bolsas.

“Você nunca foi muito do Lou.”

Fumava. Estava mais magra. Mas de novo posso estar enganado.

“Sozinha?”

“Não, não. Só fumando um cigarro. Alice foi ao banheiro.”

Alice?

Alice…

“Eu poderia rir de tudo isso, né?”

Ela riu. Poderia.

“Eu também te amo. Agora vai que te estão esperando.”

Não era um anticlímax. Era ela no que fazia de melhor.


‘Cause everybody knows the things she does to please – She’s a femme fatale

Publicado em: às 10 de novembro de 2010 em 22:36  Comentários (6)  

Carnaval de ’07

Enquanto eu, solerte, rezava a Santa Inês que falhassem as orações em seu nome, aproveitava a vida. Saltei de um apeadeiro em Angra e entrei pela porta dos fundos, pasmo com a vista. Acoei.

Parecia uma farsa. Mas era carnaval. E eu ali, na conspícua betesga que esbordava Portogalo.

O sol dealbava os tijolos – das ruas, dos olhos de corindon; a casa, pária, estou certo, deu origem ao filho de Dédalo e fez os sonhos voarem. Uma nuvem de sarin – enfeitiçada, claro – entrava pelo postigo, exalando uma pânria surreal. Nem Tântalo tinha um palácio daqueles. Um racemo e, taí, só faltariam as bacantes para a ode a Baco.

E eu com minhas orações a Santa Inês. Ô, boa Santa Inês. Tampou os olhos na hora-certa. No em-ponto. E, se não me engano, ainda senti um aflar santo no que era o momento.

E nada sorvou o momento; nem o caseoso parlatório da ostentação, nem a vitória da Beija-Flor. Criaram-se novas vedas: de amor mútuo, de promessas de amizade. Era o ilapso. Divino. Mais-que-divino. Na festa da carne, a adoração à divindade humana. Saímos da ruela sem vista da pequenês ao belvedere espiritual. Kamadeva puro. Ascese bonita mesmo. Contrapontual.

As bases foram fortes, a quem duvida. Laterícias. E o que poderia tisnar descartamos.

Construímos um Estado laico de farras e amizade. Ê, carnaval!…

Publicado em: às 6 de junho de 2010 em 15:23  Comentários (10)  

Composição religiosa em duas partes [Parte II - Ateu: O Verbo é pouco]


haicai ii

mandingueiro
joga capoeira
chora de saudade

Escorregão e tropeço. Estigmas. Repetição, desengano, engano, desencanto. Areia da praia, seca, inóspita. Deserto da praia. Nenhuma encarnação além de sombra própria. Casa de névoa. Dentro.

Deus? Brincadeira… Terra-terra; Pais terra-terra. Homem desconstruído, mal-feito. “A pessoa amada em três dias”, em ruídos. Pra quem? Pra areia… Deserto. Fora.

Sem muito na vida. Candongas. O choro: a longevidade.

Publicado em: às 30 de maio de 2010 em 17:02  Comentários (1)  

Composição religiosa em duas partes [Parte I - Carola: No início era o Verbo]


haicai i

desisto da hora:
Deus está morto
in Nietzsche we trust

Chegou ao terreiro. Desencantou. Achou engraçada toda a rouparia. Achou bonito. Pediu licença, entrou na roda. Extenuou-se com o sonido dos tambores. Procurou na saia rodada da baiana carioca a beleza da música de Olorum. “Kosi Oba Kan Afi Olorun!”, respondiam-lhe. Não acreditava, sabia. Jogaram-lhe o Ifá. Previu sua vida. Pulava areia cada vez que jogavam os cocos e era dentro que sentia. Era o próprio Exu que lhe vinha à frente, que lhe preenchia as lacunas. Duvidava: era na dúvida que tinha certeza. Ter movimento. Ser Deus: Oxalá..

(De sua vida menor.).

Publicado em: às 30 de maio de 2010 em 16:55  Comentários (2)  
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